A virtualidade humana na forma animal

Claudia Andujar propõe a interpretação imagética dos Sonhos Yanomami, em uma das mais recentes séries de manipulação de seu acervo fotográfico

Paula Alzugaray

Publicado em: 19/08/2021

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque, Review

Desabamento do céu / O fim do mundo, da série Sonhos Yanomami (2002) (Foto: Cortesia da artista / Galeria Vermelho)

Disse certa vez Claudia Andujar, em entrevista, que Sonhos Yanomami (2002) constituiu um ponto de virada em sua experiência com os Yanomâmi. O grau de “interpretação imagética” alcançada por essa série de 20 fotomontagens de fato parece chegar muito perto dos tecidos sensíveis do sonho, do delírio, da doença, ou do transe. Na fatura resultante das sobreposições de cromos e negativos, revela-se muito daquilo que Andujar diz presenciar nos processos ritualísticos Yanomâmi: a dissolução de fronteiras entre os seres humanos, seus deuses e a natureza, e a integração de tudo em um fluxo contínuo.

Sonhos Yanomami é um dos mais recentes trabalhos de manipulação e reprocessamento da fotógrafa sobre seu monumental acervo de imagens, construído desde 1971. Aqui, as sobreposições técnicas não são um artifício de pós-produção ou de experimentação de linguagem, mas têm correspondência conceitual direta com a sobreposição de mundos das cosmovisões indígenas.

Contam os tradutores de mundos – entre eles artistas e antropólogos como Andujar e Eduardo Viveiros de Castro – que nas metafísicas ameríndias não há distinção entre sociedade e meio ambiente. O argumento de Viveiros de Castro, no premonitório Há Mundos Por Vir? Ensaio Sobre os Medos e os Fins (2015), de que “não humanos são ex-humanos que preservam um lado humano latente ou secreto, imperceptível para nós em condições normais”, ganha perfeita manifestação visual em Sonhos Yanomami.

Após décadas de convivência e ativismo pela causa indígena, Andujar aprendeu o suficiente para propor interpretações aos seus sonhos. No trabalho, ela mostra que, diferentemente dos brancos, que “dormem muito, mas só sonham consigo mesmos”, como Davi Kopenawa aponta em A Queda do Céu (2015), os Yanomâmi sonham com as existências humana e “ex-humana”. A série é, portanto, composta de representações individuais ou coletivas, humanas ou ex-humanas (na forma de coruja, garça, macaco etc.), sobrepostas a paisagens e elementos como água, terra, pedra e céu, dando forma ao que no ensaio sobre os medos e os fins se define como a “virtualidade humana na forma animal”.

Sonhos Yanomami
Claudia Andujar
Galeria Vermelho
Rua Minas Gerais, 350 – São Paulo
(A exposição acabou no início de julho)

 

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