Abadá, um flagelo sociológico

Camarotes e abadás passam um cordão de isolamento nas utopias do carnaval

Angélica de Moraes

N° Edição: 4

Publicado em: 17/02/2012

Categoria: A Revista, Crítica

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No carnaval de Salvador, só quem pode sacode. (Foto: Adenilson Nunes/LatinContent/Getty Images)

Em clima de carnaval, Delete põe som na caixa e samba no pé. Nosso enredo desta edição é inspirado em Plataforma, de autoria do compositor mineiro João Bosco. Ele reivindica:

Não põe corda no meu bloco
Nem vem com teu carro-chefe
Não dá ordem ao pessoal
Não traz lema nem divisa,
Que a gente não precisa
Que organizem nosso carnaval

O carnaval mudou de dono. A tal “maior festa popular do planeta” tirou o povo da frente, passou um cordão de isolamento para deixar bem clara essa história de elite e colocou seguranças parrudos a vigiar o cercadinho vip que segue os carros de som dos blocos. Tudo para atender os diferenciados portadores de abadás.

Essa curiosa roupa/ passaporte é vendida a preços extorsivos que esclarecem a quem se destinam. O carnaval baiano pratica as cotações mais altas no circuito Dodô (Barra-Ondina). Segundo os sites Abadá Web e Meu Abadá, o preço para pular o sábado de folia no bloco Nana Banana, do grupo Timbalada, liderado por Carlinhos Brown, chega a R$ 750. O preço mais módico é do Araketu: R$ 150. Pela média, o extenso festejo baiano (uma semana) custa R$ 3 mil só no item abadá. Haja fôlego financeiro e pulmonar.

Mas tem também o camarote, outra engrenagem para estabelecer diferenças diante da patuleia. O mais caro, o Salvador 2012, cobra R$ 1.040 para homens frequentarem o local no sábado, com open bar. O mais barato, com o rótulo Skol, custa R$ 330 para homens e R$ 290 para mulheres. A rua é o espaço público, afirmam os sociólogos. Nela, deve imperar a lógica do convívio e do compartilhamento igualitário dos espaços. Roberto DaMatta esclarece que “a rua é o oposto da casa, espaço privado por excelência, onde estão ‘os nossos’, que devem ser protegidos e favorecidos”.

Propomos deletar o abadá e seu cortejo de privilégios momescos. No livro O Que Faz o Brasil Brasil?, DaMatta observa que o carnaval cumpriria um papel especial entre nós. Numa sociedade “que tem horror à mobilidade social”, o carnaval seria “a possibilidade utópica de mudar de lugar, de posição. De realmente inverter o mundo em direção à alegria, à abundância, à liberdade e, sobretudo, à igualdade de todos perante a sociedade”.

*Publicado originalmente na #select4.

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