Ação e procedimento

Dentro das artes visuais (incluindo artes performáticas) podemos afirmar que performatividade sugere uma mudança de paradigma, ou seja, a obra de arte não mais representaria alguma coisa, mas se resumiria aos efeitos e experiências que ela mesma produz no agora chamado espectador-participante

Guilherme Kujawski

N° Edição: 26

Publicado em: 09/11/2015

Categoria: Colunas Móveis, Reportagem

Alguns dos “artistas performáticos” do balé midiático de Igor Stromajer. (Foto: Igor Stromajer & Brane Zorman/ Ballettikka Internettikka Insecttikka)

O significado de algumas palavras é contestável, como sabemos. No entanto, há uma que, dentro do contexto artístico, mereceria o rótulo de termo polêmico por excelência: performance. Mas voltemos ao básico. Artes performáticas, no plural, hoje integram o rol das manifestações estéticas legítimas e se referem, geralmente, ao teatro, à dança e a todas as expressões corporais, incluindo a body art, e, claro, às ações descritas como “arte performática” (no singular). Como se vê aqui, as artes performáticas (no plural) são executadas por um amplo espectro de artistas, de Pina Bausch a Marina Abramovi?, passando por Bruce Nauman e Rirkrit Tiravanija.

Mas vamos ressaltar aqui a última forma, a que se destacou diretamente das artes cênicas e foi colocada no singular. A arte performática de caráter “conceitual”, a que é apresentada, por exemplo, no festival VERBO, promovido todos os anos pela Galeria Vermelho, em São Paulo, é herança direta das ações que tiveram início com os happenings dos anos 1970. No começo, esses eventos eram explicitamente políticos. Mais tarde, surgiu um tipo de discurso “não ortodoxo”, mais afeito às micropolíticas do cotidiano do que às guerras e aos costumes. Atendia precisamente às demandas das vanguardas para integrar vida à arte.

Até aí, tudo bem. O problema começa a ficar mais agudo quando adicionamos ao caldo o conceito de performatividade, que ancora tantos outros mais contestáveis e difusos. Isso porque estamos estritamente no campo da arte, e podemos excluir questões de gênero, identidade e feminismo desenvolvidas na obra da filósofa Judith Butler. E também podemos descartar – não sem o devido respeito – o campo da linguística, ao qual o conceito de performatividade sempre esteve associado. A partir da década de 1970, a performatividade insinuou-se em diversas expressões, inclusive a literatura. Dentro das artes visuais (incluindo artes performáticas) podemos afirmar que performatividade sugere uma mudança de paradigma, ou seja, a obra de arte não mais descreveria ou representaria algo ou alguma coisa, mas se resumiria aos efeitos e experiências que ela mesma produz no agora chamado espectador-participante.

Ao avançar pelo campo da “arte tecnológica”, percebemos o quanto a palavra performatividade ganhou novas interpretações, inclusive as que prescindem do sujeito observador. Por exemplo, uma obra de software art, na qual os algoritmos estabelecem a sua progressão à revelia de seu criador, é performativa por natureza; é um procedimento computacional tornado work-in-progress. É a performatividade em seu estado puro, autônoma e livre.

Por fim, encontramos o duplo vínculo entre artes performáticas e performatividade na ópera Ballettikka Internettikka, do artista esloveno Igor Stromajer, que une performance (o público não fica separado da ação) e performatividade (a obra é também executada por meios tecnológicos autônomos) – isso sem falar do caráter mutante do es-petáculo, que é drasticamente alterado a cada apresentação. Nesse exemplo, o ciclo se fecha, mas não sem levantar outros problemas

*Publicado originalmente na #select26

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