Adorno não é acessório

Três exposições acrescentam bons argumentos para a discussão sobre os vínculos entre arte e artefato e o reexame da história da arte brasileira

Paula Alzugaray
Na instalação Abre Caminho (2016), Nádia Taquary realiza o "agigantamento" de um Balangandã (Foto: QVW/ Divulgação)

Conta uma tradição oral de matriz africana que, no princípio, havia uma única verdade no mundo. Entre o orun (mundo invisível) e o àiyê (mundo natural) existia um grande espelho. Tudo que estava no orun se materializava no àiyê e ninguém tinha a menor dúvida em considerar todos os acontecimentos como verdade. Todo cuidado era pouco para não se quebrar o espelho. Nesse tempo, vivia no àiyê uma jovem chamada Mahura, que passava os dias a pilar inhame. Um dia, ela perdeu o controle dos movimentos e esbarrou no espelho, que se espatifou e se espalhou pelo mundo.

Mahura correu para se desculpar com Olurun (o Deus supremo), que, deitado à sombra de um iroko (planta sagrada, guardiã dos terreiros), ouviu com atenção e declarou que, a partir daquele dia, não haveria mais uma verdade única: “O espelho espelha sempre a imagem do lugar onde ele se encontra”.

Coifa Karajá (GO/TO/MT/PA), em exibição na mostra Adornos do Brasil Indígena: Resistências Contemporâneas (Foto: Ader Gotardo)

Coifa Karajá (GO/TO/MT/PA), em exibição na mostra Adornos do Brasil Indígena: Resistências Contemporâneas (Foto: Ader Gotardo)

Esse mito reflete o estágio em que nos encontramos enquanto sociedade. Ensina que não apenas a verdade não está em um só lugar, como a história deve refletir o seu contexto. O mito também tem a dizer sobre as interpretações que um mesmo signo pode ter em culturas diversas. Ele nos foi contado pela artista baiana Nádia Taquary, que realiza um trabalho escultórico e instalativo com base em pesquisas sobre as expressões da joalheria crioula e de heranças culturais africanas. Na mostra Oriki – Saudação à Cabeça – que esteve no Espaço 321 Jacarandá, SP, até novembro –, Taquary  elaborou uma série de peças tendo a cabeça e o mito do espelho como tema. “Na religião afro-brasileira, a cabeça é a conexão entre os dois mundos,  àiyê e orun”, diz a curadora Beatriz Franco.

A pesquisa desenvolvida por Nádia Taquary coloca o espectador diante de outros saberes, reverenciados pelo projeto curatorial da 32ª Bienal de São Paulo – Incerteza Viva – e por duas importantes exposições em cartaz em São Paulo até o fim de janeiro.

A convicção de que o adorno não é acessório ou suplemento, irradiada pela obra de Taquary, é também a tese de Adornos do Brasil Indígena: Resistências Contemporâneas, no Sesc Pinheiros. Aqui, o adorno é apresentado como um elemento representativo de múltiplas formas de resistências das comunidades indígenas, por meio de interlocuções entre as expressões culturais dessas sociedades e a produção de arte contemporânea. Os adornos estão organizados em três módulos: o corpo como suporte de resistência, a representação do corpo ao longo do tempo nas sociedades indígenas e celebrações indígenas como resistência.

Detalhe da instalação Oriki - Saudação à Cabeça (2016), da artista baiana Nádia Taquary (Foto: Cortesia Nádia Taquary)

Detalhe da instalação Oriki – Saudação à Cabeça (2016), da artista baiana Nádia Taquary (Foto: Cortesia Nádia Taquary)

Com a mostra A Mão do Povo Brasileiro 1969-2016, o Masp leva a cabo um projeto iniciado por Lina Bo: o reexame “com frieza crítica e objetividade histórica” do lugar que compete à arte popular dentro do quadro da cultura brasileira. A exposição de 1969 comportava objetos artesanais coletados por Lina na Bahia e no Polígono da Seca. A mostra de 2016 atenta às tipologias e não precisamente aos objetos originais e trabalha com a não distinção que Lina Bo fez entre arte e artefato. O interesse do casal Bardi por artistas fora do cânone modernista brasileiro, no entanto, não teria se refletido na coleção. Agostinho Batista de Freitas ou Maria Auxiliadora da Silva, que tiveram individuais no Masp entre os anos 1950 e 1980, não foram assimilados ao acervo. Com essa percepção, a equipe curatorial do Masp pretende refazer A Mão do Povo Brasileiro como um estudo crítico da própria instituição. Com isso, pretende tirar desses artistas a pecha de arte ingênua e assegurar-lhes um lugar na grande sala dos cavaletes de vidro e, consequentemente, na história da arte.

Serviço
Espaço 321 Jacarandá
Oriki, Saudação à Cabeça
Rua Cel. Melo de Oliveira, 783, São Paulo
Sesc Pinheiros
Adornos do Brasil Indígena: Resistências Contemporâneas
Rua Paes Leme, 195, São Paulo
Até 8/1/2017
MASP
A Mão Do Povo Brasileiro
Avenida Paulista, 1578, São Paulo
Até 22/1/2017

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