Aferir e narrar

Expo interpreta o tempo como experiência fractal, entrelaçando política, subjetividade e a própria construção do conhecimento 

Leandro Muniz

Publicado em: 27/04/2022

Categoria: Crítica, Da Hora, Destaque

Con(s)certo para Nomes Sem Corpos ou Praça aos Nomes Sem Corpos (2022), de Elilson (Foto: Lucas Eskinazi)

Nas fotografias de Lais Myrrha, duas imagens de Brasília são sobrepostas, expondo padrões visuais e comportamentais da cidade. Walmor Corrêa pinta taxonomias de seres inventados. Adriana Moreno e Marina Zilbersztejn replicam em monotipias a textura e a forma de peças arqueológicas. Diogo de Moraes Silva distribui panfletos com desenhos e textos que expõem as tensões entre o meio artístico e o público. 

  • Fotografia de Lais Myrrha (Foto: Lucas Eskinazi)
  • Walmor Correa (Foto: LucasEskinazi)
  • Walmor Correa (Foto: Lucas Eskinazi)
  • Diogo Moraes da Silva (Foto: Charlene Cabral)
  • Adriana Moreno e Marina Zilbersztejn (Foto: Lucas Eskinazi)

Posta a diversidade de linguagens, gerações e interesses dos artistas presentes na exposição Contar o Tempo, com curadoria de Dária Jaremtchuk, há uma experiência que conecta a todos: o tempo como experiência fractal, duração e história. Não se trata aqui do tempo cíclico, próprio às comunidades marcadas por sua conexão com a natureza e, evidentemente, o tempo linear é alvo de críticas, em uma obra como a de Marcelo Moscheta, que produz assemblages de imagens de paisagens e páginas de enciclopédias – outros desses frutos da racionalidade ocidental. 

Os trabalhos estão organizados em núcleos (arqueologia, Brasília, desenhos, vídeos), mas poderiam ser associados em outras infinitas combinações, já que não estão relacionados de forma determinista em aproximações curatoriais com narrativas fechadas. Surgida das reflexões de uma professora universitária, com colaborações de seus orientandos e realizada em um espaço também ligado à universidade, é perceptível que se trata de uma mostra especulativa, cheia de lacunas e dúvidas, próprias ao lugar da investigação. Sem teses prontas, a exposição evoca perguntas como: “Qual é a relação entre 2022 e a pré-história?”, “Como a estrutura política condiciona a subjetividade?” ou “Em que medida a arte revela aspectos ainda não nomeados da vida social?” Um site com textos e entrevistas complementa o projeto.   

  • Rosana Paulino (Foto: Lucas Eskinazi)
  • Marcelo Moscheta (Foto: Lucas Eskinazi)
  • Dora Longo Bahia (Foto: Charlene Cabral)
  • Talles Lopes (Foto: Charlene Cabral)

Contar o Tempo é marcada por ecos indiretos do passado no presente e por insights de como o sujeito e o coletivo se interconectam. Falar do agora implica rever o que aconteceu antes – talvez por isso há desenhos recentes e outros da época de formação de Rosana Paulino – e nossa experiência no mundo, como algo multidimensional, necessita de diversos pontos de vista para ser descrita em sua devida complexidade. 

Nesse sentido, o título da exposição poderia ser no plural. Não se trata de uma narrativa unívoca, mas de diversos ritmos que buscam mapear, registrar e esquadrinhar os tempos (histórico, social, político, subjetivo etc.), discutindo as próprias formas de criar essas histórias. Contar como aferição e como fabulação. 

Uma outra constante é a opacidade dos meios de representação, em uma problematização das ferramentas e critérios disponíveis para a construção do conhecimento. Contar o Tempo demonstra que os próprios artifícios determinam como e o que se narra, nos lembrando, assim, da função mnemônica da arte. Registrar a história não é uma tarefa mecânica, pois implica, antes de tudo, uma ação de elaboração. 

Contar o tempo
Até 19/6, Centro Universitário Maria Antonia, Rua Maria Antônia 258, Edifício Joaquim Nabuco

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Leandro Muniz atua como artista e curador. Formado em artes plásticas pela USP, é assistente curatorial no MASP e foi repórter na revista seLecT entre 2019 e 2021

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