Agenda do fim do mundo (1 a 8/9)

Bienal de São Paulo e exposições de Norte a Sul do Brasil estão entre os destaques da semana

Da redação

Publicado em: 01/09/2021

Categoria: Agenda, Destaque

Performance de Jaider Esbell na entrada da exposição (Foto: Paula Berbert e Daniel Jabra / Reprodução)

“Breve história da arte.
Tão breve, mas tão breve, que não vejo a arte indígena.
Tão breve que não tem indígena nessa história da arte.
Mas eu vejo índios nas referências, vejo índios e suas culturas roubadas.
Breve história da arte. Roubo. Roubo. Roubo.
Isso e o índio?
Aquilo é o índio?
É assim que querem os índios?
Presos no passado, sem direito ao futuro?
Nos roubam a imagem, nos roubam o tempo e nos roubam a arte.
Breve história da arte.
Roubo, roubo, roubo, roubo, roubo, roubo, roubo.
Arte branca.
Roubo, roubo.
Os índios não pertencem só ao passado.
Eles não têm que estar presos a imagens que brancos construíram para os índios.
Estamos livres, livres, livres.
Apesar do roubo, da violência e da história da arte.
Chega de ter branco pegando arte indígena e transformando em simulacros!”

Denilson Baniwa, em Hackeando a 33ª Bienal de Artes de São Paulo (2018)

EXPOSIÇÕES
Faz Escuro Mas Eu Canto
Jaider Esbell, artista participante da mostra, deu o recado na semana final de montagem: realizou uma performance em frente à parede com a sinalização de entrada para a 34ª Bienal de São Paulo segurando um cartaz onde se lê: “A Bienal dos Índios – AIC”. A sigla se refere à Arte Indígena Contemporânea, articulação que Esbell iniciou em 2013 com um grupo de artistas indígenas de Roraima, que abordaram as particularidades da invasão colonial em seus respectivos territórios originários e as estratégias de resistência de cada povo na exposição Vacas nas Terras de Makunaíma: de Malditas a Desejadas. Na edição anterior da bienal, outro artista indígena fundamental para entender a “cena” atual da “invasão” pelos povos originários das instituições que canibalizam sua história e sua cultura há 521 anos também realizou uma performance fora da programação oficial: Hackeando a 33ª Bienal de Artes de São Paulo (2018), de Denilson Baniwa, foi uma ação que questionava a apropriação indébita de imagens dos povos Selk’nam, da Terra do Fogo, pela mostra paulistana. Com um exemplar do livro Breve História da Arte em mãos, o artista, performando um pajé-onça, afirma que índios não estão presos no passado, sem direito ao futuro. O futuro chegou. Viva a Bienal dos Índios! Abertura neste sábado, 4/9, no Pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera.

Mãos de Ferro (2021), de Marcelo Amorim (Foto: Divulgação)

Poema a Dois | Cartas queimadas
Abre no sábado, no espaço FONTE, uma exposição que já nasce histórica: Marcelo Amorim e Nino Cais apresentam obras realizadas a quatro mãos, além de obras de um em outro instaladas em diálogo próximo. Colaboradores de longa data (são cofundadores do Hermes e do FONTE, entre inúmeras ações como agitadores culturais em São Paulo há 15 anos), os dois artistas nunca tinham feito uma exposição solo (em dupla). Com interlocução e texto da curadora Ana Roman, Poema a Dois propõe reflexões sobre o corpo masculino e uma certa pedagogia sobre as masculinidades que se inscrevem neste corpo. Inspirada em Canção de Amor, do escritor Jean Genet, que conta a história de um romance entre dois prisioneiros que tentam se comunicar através da parede entre suas celas, a atriz e cineasta Bárbara Paz produziu o vídeo Cartas Queimadas (2021). Encenado por Cais e Amorim, o filme é uma analogia ao espaço do ateliê que dividem e também ao confinamento imposto pela pandemia. Até 2/10.

Novo Corpo (2021), de Elisa Bracher (Foto: Lucas Cruz / Divulgação)

Terra de Ninguém
É pelo gesto do fazer que a artista Elisa Bracher relaciona as técnicas manuais com o uso de matéria-prima orgânica no modo de vida rural. 35 obras, entre desenhos, monotipias, gravuras e esculturas, estão em exibição até 2/10 na Galeria Estação. A produção dos trabalhos tridimensionais se deu a partir de técnicas de construções de casas, compostos de sobras e resíduos, como pedras e madeira, coletados pela artista, buscando criar composições que evidenciam a destruição da história coletiva. As monotipias, resultado de uma década de pesquisa em que observa o movimento de montanhas e paisagens, estão em diálogo com a produção musical do maestro e pianista Rodrigo Felicíssimo que, em Sinfonia nº 6, intitulada Sobre a Linha das Montanhas, compõe o desenho da partitura musical a partir da observação das linhas que os topos das montanhas traçam no horizonte.

Divulgação

Boa Viagem, de Derlon
Amanhã, 2/9, abre mostra do artista pernambucano na Amparo 60, em Recife. Conhecido como um pintor muralista, Derlon desenvolve sua produção a partir da relação com o interior e o mar, revisitando memórias de sua infância em uma cidade litorânea. A curadoria, assinada por Mariana Oliveira, distribui as obras pelo espaço da galeria, ocupando todas as paredes numa espécie de instalação, além de objetos, criando um só horizonte que desenvolve os temas centrais dos trabalhos. “Todas as paredes do salão, juntas, soam como uma paisagem, como se você estivesse dentro do mar”, comenta o artista. A exposição faz parte do projeto Mirada, idealizado pela galerista Lúcia Costa Santos em parceria com a SpotArt durante a pandemia. Visitas agendadas via (81) 99986-0016. 

Vista da exposição Os Monstros de Babaloo, com destaque para obra de Rafael Bqueer (Foto: Divulgação)

Laço Rastro Traço e Os Monstros de Babaloo
O Galpão da Fortes D’Aloia & Gabriel apresenta, respectivamente, duas novas exposições: individual de Mauro Restiffe, artista participante da 34ª Bienal de São Paulo, toma o gênero do retrato como ponto de partida trazendo 33 obras de pequeno e médio formato, alternando-se entre registros em cor e em P&B, entre fotografias históricas e trabalhos recentes. Em paralelo, a mostra coletiva, com curadoria de Victor Gorgulho, contempla obras de 33 artistas, como Aleta Valente, Lenora de Barros, Moisés Patrício, Rafael Bqueer, Tadáskía, Teresinha Soares, entre outros, realizadas entre 1960 e os dias de hoje. Em cartaz até 6/11.

Vista da exposição (Foto: Divulgação)

Mafuá de Trens, de Cláudio Cretti
A coleta de objetos, encontrados em caçambas, feiras de antiguidade, ocasionalmente na rua, é o motor das assemblages sofisticadas que integram a mostra individual de Cláudio Cretti na AM Galeria, em Belo Horizonte. São 13 esculturas recentes e uma série de 18 desenhos (2003-2004) expostos, com curadoria do professor e crítico de arte Agnaldo Farias. “Os desenhos são monocromáticos e fazem parte de uma pesquisa sobre os próprios desenhos da Tarsila do Amaral”, conta o artista. A produção exibida leva ao reconhecimento de sua destreza em estabelecer analogias entre elementos distintos, provando que a essas construções poderiam seguir-se outras. Até 11/9.

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Sacilotto – A Vibração da Cor
“O pleno domínio da forma, aliado ao virtuosismo cromático, permite ao artista realizar de meados de 1980 até 1993 uma produção inteiramente particular”, escreve Denise Mattar, curadora com Gabriel Pérez-Barreiro, sobre a mostra na galeria Almeida & Dale. A individual reúne 50 obras produzidas por Sacilotto entre 1974 e 2003; trabalhos da década de 1970, quando o movimento concreto se tornou o eixo central da pesquisa e produção do artista, passando pela vibração da cor em obras das décadas de 1980 e 1990, até a exposição de um impactante conjunto de trabalhos realizados com elementos recortados, produzido na década de 2000. Em cartaz até 1/11, visitas agendadas via (11) 3882-7120.

Oráculo de Ifá (Jogo de Búzios), 2021, de Fernando Velázquez (Foto: Divulgação)

Rituais da Complexidade, de Fernando Velázquez
A partir de suas pesquisas sobre a fronteira entre arte e tecnologia no país, Fernando Velázquez exibe trabalhos que usam algoritmos e inteligência artificial para dar forma a objetos ritualísticos, em uma perspectiva decolonial. A individual inclui uma instalação interativa inspirada no Oráculo de Ifá (Jogo de Búzios) em que os visitantes se relacionam com um sistema oracular de inteligência artificial, por meio do envio de mensagens pelo aplicativo Telegram. Ao receber uma mensagem, um algoritmo criado especificamente para o projeto replica a matemática probabilística do Ifá, analisa semanticamente a consulta recebida e devolve uma mensagem para o consultante. Texto crítico de Hanayrá Negreiros. Em cartaz até 25/9 na Zipper Galeria. 

Paisagens d’Alma Enquanto Tento Parar o Mundo (1967-1976), de Wesley Duke Lee (Foto: Divulgação)

Linhas em Ruptura – Gravuras do Acervo
Gravuras dos principais artistas do modernismo brasileiro compõem mostra na no Museu FAMA, em Itu. A curadoria de Luiz Armando Bagolin selecionou gravuras matriz e impressões de representantes do movimento, como Flávio de Carvalho, Oswaldo Goeldi, Lívio Abramo e Maciej Babinsky, e de artistas com produções a partir dos anos 1960, como Mestre Noza, Edith Behring, Wesley Duke Lee, Regina Silveira e Anna Bella Geiger. Ao todo, a exposição reúne 113 obras. “A seleção foi feita com o intuito de evidenciar a diversidade de temas e de técnicas dentro da gravura”, comenta o curador. Agendamento de visitas pelo site. Mostra de longa duração.

Liverpool (2020), de Manuel Solano (Foto: Matthias Kolb / Cortesia Peres Projects, Berlim)

Heliplaza, de Manuel Solano
A primeira exposição no Brasil do artista mexicano é inspirada nas lembranças de Solano sobre um antigo shopping center localizado no subúrbio da Cidade do México. Heliplaza é o nome do shopping em Ciudad Satélite, desenvolvido na década de 1980, frequentado pelo artista na infância. Por meio de pinturas e instalações, a exposição explora a estética dos centros comerciais e noções de arquitetura e decoração, investigando como a personalidade pode ser expressa através da decoração. O projeto é um resultado direto das memórias de Solano e também de seu envolvimento com o edifício Copan – onde o Pivô está localizado – e sua arquitetura modernista. Abertura no domingo, 5/9, com visitação gratuita até 6/11.

Still de Ouaga Girls (2017), de Theresa Traore Dahlberg (Foto: Divulgação)

CINEMA
Luz da África
Começa nesta quarta, 1/9, a primeira edição no Brasil da mostra de cinema produzida por diretoras africanas ou afrodescendentes, de diferentes nacionalidades. Luz da África apresenta 13 filmes selecionados entre a produção cinematográfica recente premiada nas edições de 2017 a 2020 do célebre NYAFF (New York African Film Festival). O recorte curatorial se concentrou na cinematografia feminina e leva a assinatura de Maria Gal, Carina Bini e Alissa Sanders. A semana de abertura da mostra, 1 a 5/9, é marcada por eventos presenciais, como exibições ao ar livre no Cinema do CCBB Brasília, e atividades literárias e musicais. De 6 a 19/9, será exibida a programação em versão on-line, pela plataforma bb.com.br/cultura, onde também acontecem rodas de conversas virtuais com realizadoras e curadoras.

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