Agenda para adiar o fim do mundo (24/10 a 1/12)

Flip 2021 e outros destaques da agenda da semana

Da redação

Publicado em: 24/11/2021

Categoria: Agenda, Destaque

Between Two Worlds (2021), de Peter Halley | Foto: Object Studies, New York / Divulgação

“O início da Revolta da Chibata completou 111 anos nesta segunda-feira, 22 de novembro. Símbolo da luta antirracista, o episódio é mencionado nas escolas, mas a insurreição e o marinheiro que a liderou voltam agora com tudo à atualidade porque o Senado quer que João Cândido seja inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, para desgosto da Marinha, a mais conservadora das três armas militares. Mas também porque dois dos costurados pelo “Almirante Negro”, como passou a ser chamado na época, estão expostos na Bienal de São Paulo, dedicada nesta edição à resistência em tempos de escuridão.

Encarcerado depois da revolta, bordava durante horas. Os delicados pontos com que escreveu amor e desenhou um coração sangrando em tecidos expostos na Bienal se chocam com a brutalidade do mundo contra o qual se insurgiu. Mas, como ressalta Silvana Jeha, uma historiadora especializada na Marinha, a costura sempre acompanhou a navegação, porque não havia mulheres a bordo, mas sim roupa e velas para remendar durante a viagem. Na Marinha, além disso, havia muitas insígnias para bordar. E o uniforme deve estar imaculado.”

Naiara Gallarraga Gortázar, “João Cândido, o marinheiro (e bordador) revoltado que a Marinha não quer ver como herói”, artigo publicado no El País Brasil

Peter Halley
Um dos mais importantes expoentes do Neo-Geo, apelido dado ao movimento estadunidense de conceitualismo neo-geométrico dos anos 1980, Halley ganha a sua primeira exposição individual no Brasil, capitaneada pela paulistana Galeria Millan. A mostra reúne cinco obras inéditas, produzidas entre 2020 e 2021, que enfatizam a artificialidade das cores e o jogo abstração x figuração de seus famosos sistemas em grid inspirados em estruturas industriais (pense em tecnologias que vão de tubulações de ar condicionado a design de microchips). Uma publicação acompanha a individual, com texto de apresentação do crítico, poeta e curador Richard Milazzo. Segundo o autor, sua obra partiu de um caráter mais clássico para desenvolvimentos que buscam contrariar uma suposta opressão do esteticismo abstrato e do positivismo. Essa postura de Halley se evidencia na série Shaped Paintings [Pinturas Modeladas], iniciada em 2018, que se situa nesta fase mais recente (e rebelde) de sua trajetória, resultado de décadas de pesquisa. Até 18/12.

Divulgação

Flip 2021
Inspirada nas plantas e nas florestas, a 19ª FLIP, que começa neste sábado, 27/11, organiza-se em torno do conceito de Nhe’éry, denominação tupi para a pluriversalidade. Pela primeira vez, a curadoria é coletiva, formada por Hermano Vianna, Anna Dantes, Evando Nascimento, Pedro Meira Monteiro e João Paulo Lima Barreto. A edição do Festival Literário de Paraty busca derrubar a ideia cartesiana da centralidade humana para, assim, evidenciar o mundo vegetal, coletivo e interespécies. “A construção dessa programação foi uma educação pelas plantas. É sobre cuidado, acolhimento e cura”, afirma Anna Dantes. O programa principal é composto por 19 encontros que podem ser acompanhados online, no canal do Youtube da FLIP. A seLecT integra a programação da FLIP+, trazendo o debate Como Fazer a Crítica da Arte Indígena Contemporânea, em mesa composta por Denilson Baniwa e Lisette Lagnado, com mediação de Renato Menezes, no sábado, 4/12, às 11h. O evento também marca o lançamento da revista-livro seLecT Floresta, edição especial que celebra os 10 anos de jornalismo cultural da revista.

Performance Pajé Onça, de Denilson Baniwa | Foto Jose Moreau

ABERTURAS
Máscaras: Fetiches e Fantasmagorias
Neste sábado, 27/11, o Paço das Artes recebe mostra que propõe revisão acerca dos personagens e objetos da história da arte. Organizada a partir de eixos que se entrecruzam e se sobrepõem, as obras dos artistas Denilson Baniwa, Panmela Castro, Gustavo von Ha, Leonilson, Letícia Parente e Martha Araújo, entre outros, têm por objetivo desorganizar, desconstruir e questionar as representações e a finalidade de objetos do cotidiano. Por meio de pinturas, esculturas e instalações, a mostra transcorre pelos conceitos de Máscaras, Fetiches e Fantasmagorias. Curadoria de Mirtes Marins de Oliveira.

Vista de Os Ossos do Mundo | Foto Ding Musa

Os Ossos do Mundo, de Brisa Noronha
A individual da artista mineira apresenta diálogos de entre a pintura e a escultura, investigando as manifestações possíveis da repetição. Com interesse pela dupla Delicadeza-Fragilidade, Noronha desenvolve produção tridimensional a partir da porcelana e sua resistência material; já as pinturas, compreendendo os gêneros da paisagem e natureza morta, baseiam-se no universo cinematográfico de Andrei Tarkoviski. O uso da porcelana aparece nesta exposição como resposta ou manifestação tridimensional que se desenvolveu a partir de sua produção pictórica. “A pintura como ponto de partida foi mais do que uma escolha metodológica, se deu por desdobramentos de minha produção durante a pandemia”, conta a artista. Curadoria de Kiki Mazzucchelli. Abertura sábado, 27/11, na Sé Galeria.

Porta do Inferno, de Nina Lins | Foto Divulgação

EM CARTAZ
MITA: Cosmologias da Diversidade
Com curadoria de Felippe Moraes, a coletiva de 20 artistas discute mitologia e sagrado, apontando para relações de crença, espiritualidade e corpos não hegemônicos na arte. Instalações, pinturas, colagens e fotografias de artistas mulheres e pessoas LGBTQIA+ ocupam espaços do Centro Cultural da Diversidade, com destaque para Porta do Inferno, obra da artista Nina Lins que recepciona o visitante da mostra. “Essa é a curadoria de um artista em diálogo com outros artistas. A mostra se baseia nas cosmologias como forma de curar nosso inconsciente coletivo, tão violentado por noções equivocadas do mito”, afirma Moraes. Os artistas estão em diálogo por meio do encontro de suas mitologias individuais, que, no espaço, tornam-se coletivas. Até 20/12.

Tyler the creator [da série Pretos de Griffe] (2021), de O Bastardo

Pretos de Griffe, de O Bastardo
Em primeira individual na Casa Triângulo, o artista carioca exibe série de retrato

s inéditos sobre a necessidade da normalização do sucesso de pessoas negras. Sua produção discorre sobre o papel do negro na sociedade, reivindicando um lugar de existência e visibilidade. “Suas pinturas buscam normalizar o sucesso de pessoas negras por meio de suas conquistas. No entanto, os retratos criados pelo artista evidenciam códigos que colocam tal grupo identitário em lugares dos quais sempre estiveram ausentes”, escreve Carollina Lauriano no texto curatorial. O Bastardo coloca em perspectiva a própria inquietude de uma nova geração de artistas racializados que se forma e tem urgência nos processos de justiça e reparação histórica. Em cartaz até 29/1/2022.

Serie Nordestinês, de Reynaldo Candia | Foto Daler Rowney

Paratudo/Paratodos, de Reynaldo Candia
A Samba Arte Contemporânea realiza exposição com cerca de 60 obras inéditas do artista paulistano. A partir de referências do Nordeste, a produção em pintura, escultura, bordado e instalação transcorre sobre as tradições e riquezas da cultura brasileira. “Seu trabalho traz para o campo codificado das artes visuais distintas expressões da vida ordinária, instaurando uma concepção nova de conflito e de singularidade com implicações sobre as relações entre sujeito e sociedade”, escreve Bianca Dias no texto crítico. As obras de Candia também fazem referência a retratos de família por meio da pintura abstrata, criando um jogo de cores pelo contraste e índices de “destaque” nas molduras representadas. A mostra também fica disponível on-line, no site da galeria.

Sallisa Rosa em Montagem no MAM Rio | Foto Fabio Souza / Divulgação

América, de Sallisa Rosa
Está aberta a segunda exposição do projeto Supernova: a individual da artista goiana, com curadoria de Beatriz Lemos, apresenta produção em barro acerca da história nacional, desenvolvida especialmente para o MAM-Rio. “Sou neta de América. A minha avó nasceu em 12 de outubro, dia em que o italiano Cristóvão Colombo, enviado pela Coroa Espanhola, invadiu este continente e, por isso, chamaram-lhe América. Feita herdeira das histórias tristes e violentas, América é imensa, forte e farta. Vovó América é grande tal qual, imensa, continental”, afirma a artista. É a partir de sua trajetória pessoal que Sallisa esculpe as narrativas sobre o corpo e a ancestralidade, buscando evidenciar as relações entre colonialidade e memória. Ingressos pelo link. Até 13/03/2022.

Pesadona (2021), de Márcia Falcão

Márcia Falcão
Marcada pelo gesto e fisicalidade, a pintura da artista carioca articula relações entre o corpo feminino e a cidade, partindo de sua própria experiência na periferia do Rio de Janeiro. A primeira mostra individual de Falcão, na Carpintaria, apresenta composições figurativas em uma paleta de marrons e vermelhos que, entre a gestualidade e a narrativa, constrói uma pintura de forte impacto visual. Texto crítico de Raphael Fonseca. Em cartaz até 29/1/2022.

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ÚLTIMAS SEMANAS
Eu Não Ando Só – Mostra Joel Zito Araújo e Convidados
Não perca as últimas exibições da mostra, que ocorre nesta sexta, 26/11. Como parte da programação dos Diálogos sobre Educação, Arte e Cultura, o evento híbrido busca identificar percursos que operam na transformação da imagem do negro no cinema. Como convidado especial e curador da mostra, o cineasta Joel Zito Araújo apresenta cinco filmes de sua carreira: O Início do Fim e As Filhas do Vento encerram a programação. As exibições acontecem pelo canal do Youtube do CCVM, e presencialmente, no pátio do Centro Cultural Vale Maranhão, às 19h.

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ONLINE
Festival Zum
Marcando o aniversário de uma década da revista, o evento chega à sua 6ª edição com debates e mesas online. Organizado pelo Instituto Moreira Salles, o festival acontece até sexta, 26/11, nos canais de YouTube e Facebook da revista; na abertura, é lançada a 21ª edição da Zum. Durante a semana, artistas, curadores e intelectuais brasileiros e internacionais reúnem-se em conversas sobre temas como a reinvenção do ensaio de moda, a fotografia como denúncia das relações sociais de poder, a relação entre fotografia, identidade de gênero e democracia e as disputas em torno dos monumentos. Um dos destaques da programação é a aula-palestra do videoartista Isaac Julien, em que discorre sobre A vida e os Tempos de Frederick Douglass.

Carolina Virgüez em Vozes do Silêncio | Foto Fábio Ferreira

CINEMA
Vozes do Silêncio – Filme não Filme
O projeto, que reúne três curtas do dramaturgo Samuel Beckett, chega com nova temporada online e apresentações gratuitas. Os três filmes — Não Eu, Passos e Cadência são complementares e trazem referências do cinema experimental russo e da artesania teatral, com uma riqueza metafórica intensa. “Brinco com as possibilidades de registrar o momento com câmera por meio de fusões, inversões de sentido e articulações entre trilha e movimento”, revela o diretor Fábio Ferreira. As narrativas dão luz à vozes e personalidades femininas que foram apagadas e silenciadas, existências femininas marcadas pelo tempo histórico. Ingressos disponíveis pelo Sympla. De 25 a 28/11, às 20h, pela plataforma Zoom.

Coleção Arte Bra | Foto Gabi Carrera

LITERATURA
Plataforma Arte Bra
A nova plataforma online, desenvolvida pela Automatica Edições, tem o objetivo de reunir e disponibilizar seus títulos em uma só plataforma, multiplicando suportes de navegação e formatos para incluir filmes, trilhas sonoras e áudios. 10 títulos sobre a trajetória de artistas contemporâneos brasileiros são disponibilizados em PDF de acesso gratuito, além do lançamento de mais dois inéditos. Até 30/11.

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