Água mole, pedra dura

Exposição inaugural da nova sede da Galeria Casa Triângulo, SP, traz a obra de Sandra Cinto em rito de passagem

Paula Alzugaray

Publicado em: 08/03/2016

Categoria: Crítica, Da Hora

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Vista de um dos ambientes da nova Casa Triângulo, com exposição de Sandra Cinto

Acaso e Necessidade, a exposição individual de Sandra Cinto concebida para inaugurar a nova sede da galeria Casa Triângulo, em São Paulo, tem forte carga de simbologia relacionada a passagem e transformação (veja galeria de imagens). A começar pelo fato desta ser a primeira ocupação de um espaço novíssimo, recém-construído e ainda imaculado. O edifício da Rua Estados Unidos esquina com a tranquila Rua Cristóvão Diniz, é a terceira sede da galeria de Ricardo Trevisan em São Paulo, desde sua abertura em 1988. O imponente e belo cubo branco de 500 mts2, projetado pela Metro Arquitetos Associados e onde a Casa Triângulo inicia nova fase, é uma demonstração de pujança, coragem e, acima de tudo, muita fé no mercado de arte brasileiro.

O edifício é, segundo Sandra Cinto, o “quarto elemento” da instalação que ocupa a grande sala. Os três trabalhos que dialogam com as linhas retas e os planos translúcidos da galeria são duas pinturas monumentais de 7m x 3m e uma escultura em madeira, conectando-as. As pinturas trazem elementos inusitados que inauguram ciclo da obra da artista paulista. O mais marcante deles é o uso de pigmento azul diluído em água, aplicado à tela de forma a escorrer com a gravidade, assumindo fluxos imprevisíveis. Daí a primeira parte do título da exposição, “Acaso”. Sobre essa base fluida e transparente, nasce o desenho – o controle –, em contraponto ao acaso. A dualidade entre pintura e desenho se aplica também aos elementos naturais que eles representam: a água e a rocha.

Vista de um dos ambientes da nova Casa Triângulo, com exposição de Sandra Cinto

Vista de um dos ambientes da nova Casa Triângulo, com exposição de Sandra Cinto

Em texto compreensivo de toda a obra da artista, o filósofo Miguel Chaia aponta que, até 2015, a água aparecia como metáfora. Agora, existe uma presença física: “Agora, março de 2016, uma experimentação ocorre: a água e as ondas não são apenas metáforas nos trabalhos de Sandra Cinto, não apenas signos visuais – agora a água, enquanto elemento natural, é incorporado”.

O trabalho de Sandra Cinto entrou em rito de passagem durante uma residência no Aomori Contemporary Art Centre, no final de 2015, na cidade de Aomori, Japão. Lá ela aprendeu técnicas de tingimento e trabalhou com o pigmento azul que é extraído de uma flor da região e dá origem à cor índigo blue. “Aomori, em japonês, quer dizer floresta azul”, conta ela à seLecT. Os trabalhos realizados sobre papel durante a residência são as primeiras experiências que viriam resultar nas duas grandes telas expostas hoje em Acaso e Necessidade. Eles são mostrados na pequena sala contígua da galeria.

A temporada no Japão foi importante porque decorre do interesse da artista no desenho e na arte oriental. “Me interessa o desenho como linguagem, como ele é visto no oriente, e não como ferramenta e projeto. Para entender o desenho contemporâneo é preciso compreender a arte oriental”, diz.

Acaso e Necessidade, de Sandra Cinto

Acaso e Necessidade, de Sandra Cinto

Contenção, arrebentação e travessia

Se a pintura de Sandra Cinto mostra um jogo de intensidades – contenção (rocha) versus arrebentação (água) – a ponte, centralizada no espaço, faz a mediação. Esculpida em madeira, na forma curva de uma onda, a obra remete aos trabalhos que a artista realizou nos últimos dez anos: tormentas e mares furiosos, que partiram de uma associação realizada pela artista entre a pintura “A Balsa da Medusa” (1818-1819), representação de um naufrágio por Théodore Gericault, e a realidade sócio-política brasileira.

A onda atual, no entanto, é muito mais suave e se apresenta na forma de uma ponte, oferecendo chão e certa estabilidade ao olhar. Como uma linha do tempo elegantemente desenhada no centro da galeria, a ponte tem nas extremidades um brinquedo de criança e uma cadeira de balanço. “Aprendi com o Japão que todo momento da vida é precioso e deve ser reverenciado”, diz.

Os legados da viagem aparecem com clareza e delicadeza nas peças da exposição. Para o visitante, recolocam em cena uma prática que andava em desuso no modo de se relacionar com a arte contemporânea: a contemplação. Com seu convite ao olhar e à reflexão, Sandra Cinto nos ensina que contemplar também é interagir.

Acaso e Necessidade – Sandra Cinto/ Galeria Casa Triângulo, Rua Estados Unidos, 1324, SP, até 2/4

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