Ainda e sempre contra a invisibilidade

Exposições feministas no Masp reforçam a necessidade de dar seguimento a incipientes movimentos de revisionismo histórico

Luana Fortes
Interior de convento na Cidade do México (1896), de Maria E. Ibarrola (Foto: Luana Fortes)

O Masp inaugurou simultaneamente duas grandes exposições coletivas que orientaram o eixo temático do museu em 2019. Com curadoria de Julia Bryan-Wilson, Lilia Schwarcz e Mariana Leme, Histórias das Mulheres: Artistas Antes de 1900 traz, como o próprio título indica, produções de mulheres feitas antes do século 20. O recorte temporal foi feito como um esforço de revisão histórica para resgatar as produções de artistas que tiveram pouca ou zero visibilidade. A mostra reúne 60 pinturas, dois desenhos e 34 trabalhos têxteis. Sem exceção, todas as obras trazem legendas ampliadas, exprimindo o esforço da equipe de curadoria em verdadeiramente dar seguimento ou início às discussões sobre produções invisibilizadas pela própria história.

“De Maria E. Ibarrola não se sabe praticamente nada, nem mesmo quando nasceu ou morreu” é a frase que dá início à legenda de uma pintura feita no México, no século 19. Não é conhecida a autoria precisa de nenhuma das obras em tecido. E, como sabiamente apontam as curadoras em texto de parede, o Masp só possui em seu acervo duas pinturas feitas por mulheres até 1900.

A exposição é de causar mal-estar. Diante das cada vez mais abundantes iniciativas que buscam revisionismos históricos, e por mais que tratar sobre pautas identitárias tenha se tornado uma oportunidade marqueteira para instituições culturais, ainda é assombroso ver tantas artistas de qualidade técnica e discursiva que quase passaram em branco. Segue sendo necessário realizar exposições desse tipo e, provavelmente, seguirá sendo por muitos anos. Diante da magnitude do desconhecimento, são irrelevantes os comentários que polemizam o potencial comercial de mostras como esta, a fim de desestimular projetos com intenções semelhantes.

O Sorriso de Acotirene (2018), de Mônica Ventura (Foto: Daniel Javaloy)

Interessante é partir desta exposição para a segunda inaugurada pelo Masp. Com curadoria de Isabella Rjeille, a coletiva Histórias Feministas: Artistas Depois de 2000 pretende reacender debates sobre a relação entre arte e feminismo a partir do século 21, considerando também as interseções entre classe, etnia, geração, região e gênero. Para demarcar o incômodo que norteia a sala das Histórias das Mulheres, a exposição de arte contemporânea se propôs a incumbência de ser potente, agressiva e resistente. E, felizmente, ela é. Um grande destaque da mostra é o trabalho O Sorriso de Acotirene (2018), de Mônica Ventura. A artista rememora a história da personagem Acotirene do Quilombo dos Palmares em uma escultura feita de cabaças, objetos de usos e simbologias regularmente associados a religiões de matriz africana. O trabalho parece usar de processos semelhantes ao próprio ato de fazer exposições como Histórias das Mulheres: rememorar e perpetuar legados.

Serviço
Histórias das Mulheres: Artistas Antes de 1900
Histórias Feministas: Artistas Depois de 2000
Até 17/11/2019
Masp
Av. Paulista, 1578 – São Paulo
masp.org.br

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