Alex Červený – Hiperfluxos de uma mitologia real

Na 23a Bienal de Sydney, artista paulistano apresenta dois trabalhos que navegam por ecossistemas aquáticos do Hemisfério Sul

Mateus Nunes

N° Edição: 53

Publicado em: 23/05/2022

Categoria: A Revista, Destaque

Detalhe da obra Aquífera (2021) e de Atlântida (2021)

Alex Červený constrói um intrincado bordado mental de histórias e sistemas de imaginação, ocasionalmente materializados em rendilhados e filigranas que enriquecem os aspectos narrativos e visuais dos seus trabalhos. Artista brasileiro, nascido em 1963 em São Paulo, com uma sólida carreira de mais de quatro décadas em pintura, desenho, gravura e escultura em cera perdida, maiólica e bronze, Červený integra o corpo de nomes convidados para a 23a Bienal de Sydney, na Austrália, que acontece de 12/3 a 13/6. Esta edição do evento, com curadoria de José Roca, Paschal Daantos Berry, Anna Davis, Hannah Donnelly e Talia Linz, tem como título rīvus, com temática relacionada à água.

A proposta curatorial sugere uma leitura de rios e ecossistemas aquáticos salgados e doces como seres individuais, assim como animais, plantas, montanhas e corpos d’água já são individualmente tratados. Entende também os rios como sedimentos de cultura, provedores de vida, rotas de comunicação e espaços ritualísticos, mas também como esgotos e valas comuns. Desempenham tanto um papel testemunhal quanto arquivístico, memorial, sobretudo em países colonizados e explorados a partir das expedições por essas águas. Alinhado às diretrizes curatoriais da Bienal de Sydney, Alex Červený participa com duas obras: “Aquífera” e “Atlântida”, ambas produzidas em óleo sobre linho em 2021.

Aquífera (2021), de Alex Cerveny ́

AQUÍFERA
Esta obra começa, no seu topo, com a citação de um trecho da música Recuerdos de Ypacaraí, do cantor mexicano Javier Solís: Una noche tíbia nos conocimos / Junto al lago azul de Ypacaraí / Tú cantabas triste por el caminho / Viejas melodias em guaraní… Ypacaraí é o nome do segundo maior lago do Paraguai, aludindo diretamente aos corpos d’água do Hemisfério Sul. Nas traduções do guarani para o espanhol, o “y” geralmente significa “água”, justificando a escrita do nome do lado como “Ypacaraí”: nos céus, o artista pinta também outras palavras que remetem à água e se grafam com “y”, como ytu (“cachoeira”, “queda d’água”), ysyry (“rio”) e yrembe’y (“margem de rio”, “litoral”). Além do tom bem-humorado, por começar com uma balada quase kitsch, com famosas versões nas vozes de Perla, Julio Iglesias e Caetano Veloso, a música resgata uma latinidade popular amalgamada dos ritmos e entranhada nos amores inflamados que só acontecem por aqui.

No canto inferior esquerdo, entre as infinitas montanhas pintadas na paisagem, Červený representa jazidas de ouro, ferro, alumínio e cobre, que despejam seus resíduos metalúrgicos em um lago cercado de casas brancas com telhados cerâmicos de duas águas, semelhantes às edificações coloniais populares. Os outros morros são encimados por elementos diversos, desde personagens recorrentes na obra do artista, como “O Contorcionista” – extremamente vinculado com aspectos autobiográficos, de sua experiência circense no início da juventude –, personalidades famosas, como Elza Soares, Ramona Galarza e Helena Meireles, até um conjunto de edificações de diversos estilos arquitetônicos – obeliscos, templos barrocos, pequenas ermidas coloniais, igrejas com grandes torres com cúpulas em bulbos, mastabas e prédios com colunatas gregas. Nos céus, Červený grafa palavras em guarani, seguidas de suas traduções para o espanhol.

Atlântida (2021), de Alex Cerveny ́

ATLÂNTIDA
Em Atlântida, Červený lista vários rios do Hemisfério Sul tanto brasileiros, quanto australianos. Sob a lista dos “rios da Austrália”, figura um canguru, mascote do país, e na lista dos “rios do Brasil” o artista pinta uma anta, animal icônico da nossa fauna. Espalhados pelo quadro, seguem correntes de listas, desde lagos de Bariloche até represas e fontes de águas termais na América do Sul. O artista também representa uma fauna mais exuberante, tropical, juntamente com figuras de índios da América do Sul e da Oceania. Deitado sobre o mar central, observando as maravilhas encontradas em sua Atlântida, figura um autorretrato do artista nu – operação comum no repertório de Červený.

Por meio de exaustivas tarefas de execução, o perseverante pintor aprecia e aproveita o dispendioso tempo gasto na pintura de fundo dos quadros para desenvolver os detalhes das narrativas. Os complexos racontos amalgamam personagens, temporalidades e lugares ficcionais e históricos, e um domador de leões pelo qual o artista se apaixonou em um circo na floresta amazônica pode figurar, em suas obras, ao lado de um rei chinês da dinastia Zhou e uma diva de novela brasileira dos anos 1970. A sacralidade da plataforma canônica da tela mantida pela história da arte não é deturpada por Červený com suas imagens e histórias corriqueiras, mas presenteada com o maravilhamento encontrado nas coisas reais. Com obsessão arquivística, o artista compõe uma galeria de personagens, um livro-de-todos-os-nomes feito de uma perspectiva inventarial.

O aspecto do trabalho manual, tão importante na obra, distancia-se das estruturas de uma arte conceitual (afinal, há um conceito no desejo?). Na contemporaneidade, quando a replicação de trabalhos é feita em escalas algorítmicas, a manualidade empregada na pintura pode vir a ser, às vezes, negligenciada. Inteligências artificiais têm sido mais impressionantes que a inteligência humana, que fabricou as mais surpreendentes histórias e símbolos.

Resgatando essas narrativas singulares, Červený opera verbetes e atmosferas do livro Orbis Sensualium Pictus (O Mundo Visível em Imagens), escrito pelo educador morávio-alemão Ioannes Amos Comenius, publicado pela primeira vez em 1658. Trata-se de um livro infantil que inaugurou uma pedagogia particular de ensino de latim para crianças, amplamente difundido e reeditado para várias línguas. O livro começa com temas como o homem, Deus e os elementos, ampliando gradativamente para objetos, lugares cotidianos e animais. Červený deteve-se na seção respectiva à água, integrando elementos literários e imagéticos da obra ao seu sistema de pensamento artístico.

MANANCIAL DE REFERÊNCIAS
A transdisciplinaridade basilar à profunda erudição de Červený enxerta uma espessa camada de detalhes históricos em personagens (possivelmente) fictícios, tornando-os indistinguíveis de alguém que não foi concebido pela sua imaginação. A oscilação entre factualidade e fantasia transpõe-se na indistinção entre as histórias pintadas, escritas e faladas por Červený. Nos estudos que precederam a pintura das duas obras expostas em Sydney figuram diversas expressões em várias línguas que orbitam o tema da água (“Su”, em turco, como escreve em um dos estudos), lis- tando cores (“azul-cobalto”), praias (“Cassino” e “Palm Beach”), rios (“Negro”, “Bósforo”, “Xingu” e “Tapajós”), mares (“Cáspio” e “Adriático”), seres mitológicos (“sereia” e “Netu- no”), trechos de músicas (Like a Bridge Over Troubled Water) e até elementos arquitetônicos homônimos (“água-furtada”). Červený lista, de forma obsessiva e vasta, palavras e imagens que criam uma atmosfera densa sobre o tema.

Esse manancial de referências é operado no ateliê do artista, localizado no Largo do Paissandu, praça histórica do Centro da cidade de São Paulo, conhecida pela atmosfera do cinema e do circo, campos que orbitam as constelações mentais de Červený. O divertimento do circo e as narrativas visuais quase impossíveis do cinema foram significativos na formação do artista. Nessa corda bamba, que pode conduzir ao extasiado aplauso ou à morte súbita, Červený encontra uma fresta muito delicada por onde nascem seus trabalhos. Usualmente, a imagem de um artista é estruturada como um observador do tempo, das pessoas e do lugar que o cer- cam. Červený, entretanto, elevado pelas asas de sua erudi- ção e afundado pelo peso de suas paixões, é um pesquisador de todos os tempos, todas as pessoas e todos os lugares.

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