Amazônidas em cena

Projetos na SP-Arte Rotas Brasileiras traçam caminhos fora do eixo Rio-São Paulo, apostando em outras funções para a arte

Luana Rosiello

Publicado em: 26/08/2022

Categoria: Da Hora, Destaque

Atualização traumática de Debret (2020), de Gê Viana [Foto: Divulgação]

Em busca de atualizar seu modelo tradicional, a nova SP-Arte Rotas Brasileiras dá espaço para projetos institucionais, em sua maioria de fora do eixo Rio-São Paulo, que defendem, em meio a galerias e um ritmo acelerado de compra e venda, diferentes perspectivas dos modos de uso da arte contemporânea. 

Grande parte das instituições trazem ao galpão industrial, na Vila Leopoldina, questões relacionadas à Amazônia e sua pluralidade de seres, relevos, culturas e saberes. Uma delas é a Fundação Romulo Maiorana, que apresenta o conceito curatorial da 40ª edição do Arte Pará. No estande, a fundação destaca a produção de cinco artistas mulheres da Amazônia Legal: Yaka Huni Kuin (Acre), Elza Lima, Nina Matos e Nayara Jinknss (Belém) e Gê Viana (Maranhão). O conjunto de obras revela um discurso simbólico a partir de valores regionais, de pautas identitárias, ecológicas, socioculturais e do histórico conceito de “visualidade amazônica”. Evocar essa discussão, sobretudo no contexto de uma feira de arte em São Paulo, é uma maneira de recontextualizar problemas históricos e sociais silenciados. 

  • Nete Bekun (2021), de Yaka Huni Kuin, no estande da Arte Pará [Foto: Divulgação]
  • Obras da série Atualizações Traumáticas de Debret (2020), de Gê Viana, no estande da Arte Pará
  • Obras de Nina Matos
  • A Vendedora Josi Posa para a Série Última Ceia, de Nayara Jinknss

Além de a edição de 2022 promover um recorte significativo das mulheres artistas da Amazônia, o projeto de 2020, que não pôde ser realizado em função da pandemia de Covid- 19, também elabora novas diretrizes institucionais que objetivam ampliar a representatividade de gênero, raça, religião, orientação sexual e de grupos historicamente marginalizados. “A missão do 40º Arte Pará é romper com rótulos de uma visão única mediante a indicação de diferentes modos de ver e representar o mundo para, assim, desestabilizar processos ideológicos e estruturais, desconstruindo narrativas e pensamentos dominantes”, afirma a assessoria de imprensa à seLecT. Para Paulo Herkenhoff, curador geral da mostra há mais de 20 anos, trabalho que compartilha na edição deste ano com as curadoras adjuntas Laura Rago, Roberta Maiorana e Vânia Leal, o Arte Pará reaviva a tarefa de mobilizar a Amazônia em torno da produção simbólica da cultura e de suas possibilidades de pensar a sociedade. A iniciativa de parceria entre o Arte Pará e a SP-Arte Rotas Brasileiras se deu por meio de um compromisso mútuo de repasse de 100% do valor de cada obra vendida diretamente à respectiva artista.

Outro estande que chama a atenção é o do PREAMAR, movimento independente em prol da difusão e apoio à arte maranhense que inicia o segundo semestre de 2022 apresentando na SP-Arte uma articulação entre produções de Dinho Araújo, Márcio Vasconcelos e Silvana Mendes, com obras que abarcam temas ligados às questões raciais e políticas de afirmação, rituais de encantaria e festas do Bumba Meu Boi maranhenses. 

  • Afetocolagens - Reconstruindo Narrativas Visuais de Negros na Fotografia Colonial, Série II, (2022), de Silvana Mendes, no estande do PREAMAR
  • Estande do PREAMAR, na SP-Arte Rotas Brasileiras

O projeto surgiu após um primeiro ciclo de ações que ocorreu nos meses de abril e maio em São Luís, com a realização da exposição coletiva PREAMAR e de conversas abertas, simultaneamente, no Chão SLZ e na Lima Galeria, além de residências artísticas na Casa do Sereio, em Alcântara. O movimento tem intenção de fomentar o cenário artístico no Maranhão, formar público ativo e auxiliar na formação dos artistas locais. 

Na feira, a exposição tem curadoria colaborativa de Samantha Moreira, Frederico Silva, Yuri Logrado, Marco Antônio Lima e Germano Dushá, que buscam conectar a potência da arte maranhense aos demais pólos artísticos do Brasil e do exterior. Os trabalhos elaborados a partir de pesquisas e imersões em temas locais estabelecem relações espontâneas e ressonâncias entre as obras dos três artistas maranhenses, configurando um corpus importante para a compreensão da arte contemporânea deste estado da Região Nordeste.

  • Vistas do estande da Uma Concertação pela Amazônia

É destaque também o espaço dedicado a Uma Concertação pela Amazônia, rede criada em 2020 e, hoje, com mais de 500 lideranças – representantes dos setores público e privado, universidade, sociedade civil e imprensa – reunidas com o objetivo de promover o encontro de iniciativas em defesa da Amazônia para fomentar novas propostas em prol das florestas.

A exposição, com curadoria de Eder Chiodetto, convida os visitantes a pensar sobre a necessidade da preservação socioambiental. A escolha dos artistas, que inclui nomes como Rogério Assis e Marcela Bonfim, teve participação de um colegiado formado pelo curador, por fotógrafos e pelas equipes da SP–Arte e da Concertação. Ao final, com a definição das obras, cria-se uma constelação com forte viés documental sobre o momento distópico atual da Amazônia e dos povos originários. 

Grafismos Indígena Kulupeiyana

A arte indígena também se faz presente na feira. Com organização de Mayawari Mehinako, o Bancos Indígenas do Xingu apresenta uma seleção de obras feitas por artistas dos povos Kamayurá, Mehinaku e Waujá, ampliando o conceito de função para a dimensão simbólica. 

Os bancos são usados no cotidiano das aldeias e nas práticas culturais, como festas e rituais, possuindo uma dimensão cosmológica, sendo alguns deles usados por pajés para transcender ao mundo espiritual. Os modelos específicos indicam o uso exclusivo masculino, feminino, de pajés e de caciques. O banco Urubu-rei de duas cabeças é de uso do cacique, o banco feminino é baixo e talhado em buriti. Também existem modelos esculpidos em formas de animais da fauna brasileira, entidades míticas pintadas com grafismos tradicionais. O processo de produção acontece a partir de um único tronco de madeira, fazendo uso de piranheira, sucupira, moreira, itaúba, canela, pequi, jatobá, angelim, lixeira e ipê. A resina retirada do Ingá é a base para produção de tintas naturais – mistura-se ao pó de carvão para obter tinta preta e ao urucum para a tinta vermelha – usada nos grafismos tradicionais de peixes, pássaros e insetos. No final, o óleo de pequi é usado como verniz. 

Bancos Indígenas do Xingu, na SP-Arte Rotas Brasileiras

A divulgação da arte indígena cresce cada vez mais no circuito brasileiro de arte, sendo fundamental para as revisões históricas atuais. “É muito importante estarmos aqui, é a forma de conseguir retorno pelo nosso trabalho. Viemos de muito longe, usamos muitos recursos e estar aqui, hoje, com o interesse de todos, é muito gratificante”, conta Takula Diago Mehinako, à seLecT. O projeto Bancos Indígenas do Xingu é meio de geração de renda familiar e comunitária para melhorar a qualidade de vida nas aldeias, garantindo o fundo financeiro para os povos envolvidos. “É importante que os não-indígenas conheçam nossa cosmologia através da nossa produção, que representa a verdadeira arte brasileira e é um patrimônio histórico e artístico”, escreve Mayawari Mehinako no texto curatorial. 

Prêmio Museu é Mundo na SP-Arte Rotas Brasileiras [Foto: Divulgação]

OUTROS TERRITÓRIOS
É importante dar destaque ao Prêmio Museu É Mundo, projeto filantrópico que pretende chamar atenção de entusiastas da arte a outras formas de fomento relacionadas a ações artísticas de impacto social. O espaço na feira é dedicado à apresentação dos quatro projetos apoiados pelo seu primeiro edital – Muluca (RO), Respiradores (MG), O comum de nós (SP) e Constelar ancestral (PA) -, que teve mais de 800 inscrições de 24 estados e 234 cidades do Brasil, e busca captação de recursos para a segunda edição.

A participação na SP-Arte Rotas Brasileiras inaugura uma nova etapa de mobilização filantrópica por parte do projeto. Como via para apoiar essa proposta, estão disponíveis duas cotas de doação, de R$1.000 e R$5.000. Para cada uma delas é pensada uma contrapartida simbólica. Os doadores da cota menor receberão como agradecimento um kit composto de bolsa, cartaz e botton exclusivos.

Múltiplo de Marcelo Silveira

Já os doadores da cota maior recebem, além do kit, um múltiplo do artista pernambucano Marcelo Silveira, parceiro nesta edição na realização da obra de agradecimento do prêmio e um dos conselheiros do Prêmio. Todo valor arrecadado será revertido exclusivamente para a realização dos projetos selecionados pelo segundo edital do Prêmio Museu É Mundo. 

Outros caminhos também são propostos pelo projeto Novos Para Nós, criado em 2017 pelo ex-publicitário Renan Quevedo. O recorte curatorial é focado na produção de cerâmica do Vale do Jequitinhonha dos últimos 50 anos, apresentando grandes nomes da arte popular brasileira, como Ulisses Pereira Chaves, Izabel Mendes da Cunha e Noemisa Batista dos Santos. 

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