A ambiguidade da carne

Exposição coletiva discute o significado e a representação do corpo e inaugura nova galeria em Fortaleza

Ana Abril
Trabalho de Célio Celestino que integra a exposição (Fotos: Divulgação)

Desde a perfeição do quase divino David, de Michelangelo, até o violentado e fragmentado Guernica, de Picasso, o corpo tem sido objeto de devoção da arte. E isso não é diferente com as artes visuais contemporâneas, onde a figura humana é foco da exposição Em Desalinho, que inaugura nova galeria de arte em Fortaleza.

O novo espaço, situado no bairro central da Aldeota, foge de classificações: se chama Sem Título Galeria. Com trabalhos em fotografia, desenho e pintura, os dez artistas participantes mostram os diferentes escopos de um corpo em desconstrução.

Trabalho de Ingra Rabelo que integra a exposição (Foto: Divulgação)

Trabalho de Ingra Rabelo que integra a exposição

 

Tal e como Ana Cecília Soares afirma em entrevista à seLecT, “o corpo precisa ser considerado enquanto fato social, político, psicológico, cultural e pelas relações que é capaz de gerar”. A curadora foi convidada por Elizabeth Guabiraba, diretora da Sem Título Galeria, e junto com Júnior Pimenta, também curador da exposição, concebeu Em Desalinho. O nome da exposição indica a evasão da ideia de uma entidade carnal perfeita, como a de Michelangelo, e defende, em seu lugar, algo fragmentado, mutável e cheio de potencialidades.

Prova disso é a obra do artista Célio Celestino, onde os corpos se apresentam quebrados como se fossem um espelho feito de pedaços que foi recomposto. “Celestino reflete sobre as relações homoafetivas através de obras autobiográficas baseadas em suas próprias experiências amorosas”, explica a curadora.

Trabalho de Dalton Paula que integra a exposição (Foto: Divulgação)

Trabalho de Dalton Paula que integra a exposição

 

Gênero, identidade e negritude são discutidos na mostra. Sobre a condição do negro e os padrões normativos raciais, dedica-se Dalton Paula, também participante da 32ª Bienal de São Paulo. “Dalton é um artista negro que, na sua obra, cobre seu rosto por um band-aid cuja cor é desenvolvida para a pele branca. Assim, ele questiona de que maneira reproduzimos essas normas de cor da pele e outras excludentes que nos condicionam”, conta Soares.

Apesar de todas essas questões, a curadora refere-se a Em Desalinho como uma exposição “que discute a ideia de um corpo sem forma, sem gênero definido, numa busca por experimentações e que, ao mesmo tempo, visa a construção de uma identidade própria”.

Por outro lado, o artista Yuri Firmeza atreve-se a debater corpo e mente no trabalho Vida da minha Vida, composto por imagens de sua avó com Alzheimer, flutuando na água. Segundo Soares, “a desconstrução da carne acontece pelo apagamento”, não só da memória como também da própria fotografia.

Gilvan Barreto, Henrique Viudez, Ingra Rabelo, Jas-One, José de Arimatéa, Luiza Veras e Maurício Coutinho são os outros artistas que compõem Em Desalinho, em cartaz até dezembro.

Trabalho de Yuri Firmeza que integra a exposição (Foto: Divulgação)

Trabalho de Yuri Firmeza que integra a exposição

 

Serviço
Em Desalinho
Sem Título Galeria
Rua João Carvalho, 66 – Fortaleza
Até dezembro
Informações no site

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