Amor nas bordas do impossível

Marcel Duchamp e Maria Martins, seus trabalhos e encontros amorosos, sob uma ótica psicanalítica

Bianca Coutinho Dias
Étant Donnés (1946-1966), obra de Marcel Duchamp (Foto: Jon Seidman, Creative Commons)

No texto O Estranho, Freud afirma que o prazer estético sempre implica algo de estranhamento e, juntamente com ele, em reconhecimento, estranhar e entranhar. O encontro amoroso também atualiza, no embate com o outro, o encontro com a perda. É no conceito lacaniano de “ato” (aquilo que se produz ao redor do vazio instalado pela falta) que se encontram Marcel Duchamp e Maria Martins, em um caminho feito de lacunas e fissuras. 

Para o “ato” de Lacan está o “gesto” de Duchamp. No readymade, o gesto mostra-se mais fundamental que o produto. Octavio Paz insiste, em seu ensaio Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza, na força desse gesto: “Duchamp exalta o gesto, sem cair nunca, como tantos artistas modernos, na gesticulação”. 

Na entrega ao ato está o artista. As obras Étant Donnés, de Duchamp, e O Impossível, de Maria Martins, trazem em seu bojo a impossibilidade do encontro amoroso, a incompletude de cada sujeito em sua radicalidade e em seu imponderável. Para essa relação impossível Lacan propõe uma substituição possível – o amor. “Aquilo que dá suplência à relação sexual é precisamente o amor”, aponta o autor no Seminário 20. 

O amor entre Marcel Duchamp e Maria Martins começou na primavera de 1943, em Nova York. Em 1946, o relacionamento entre eles intensificou-se. Desse ano é a obra considerada uma das mais furiosas declarações de amor carnal que um homem poderia fazer a uma mulher: Paysage Fautif (Paisagem Faltosa). O crítico Francis Naumann, no catálogo Maria (2010), afirma que a obra Oitavo Véu (1946) também pode ser um resultado poético desse romance e aponta semelhanças entre a pose da mulher na escultura de Maria Martins e a figura nua do último trabalho de Duchamp, a assemblage Étant Donnés, que teve como modelo a própria escultora.

Na escultura Oitavo Véu, mãos, pés e cabeça da figura feminina estão estendidos em forma de planta retorcida, lembrando a fascinação da artista pela floresta amazônica, tema de seus primeiros trabalhos. Já O Impossível (1944-1949) apresenta um corpo marcado pelo desejo e bordeado pela falta, na figura de duas imagens surreais com cabeças esvaziadas, que parecem buscar um encontro sexual que não se efetiva, mas que é forte e potente em sua incompletude. 

A escultura O Impossível (1944-1949), de Maria Martins (Foto: Leimenide, Creative Commons)

 

Ao esculpir O Impossível, Maria Martins interpreta o desejo como um movimento insaciável, entre as garras de duas figuras confrontadas; e desnaturaliza o desejo, rompendo com a idealização do humano sexualmente ordenado e exaltando a pluralidade e a fluidez da sexualidade.

O Impossível e Étant Donnés – o quadro ilusório e paradisíaco que foi a última e secreta obra de Duchamp e à qual frequentemente ele se referia como “minha mulher com a vulva aberta” – expõem a falta lacaniana relacionada ao desejo. 

Na década de 1970, no seminário O Avesso da Psicanálise, Lacan propôs o estudo da função do “não-todo” do ponto de vista da mulher e sua relação com o falo. O mistério do feminino é pensado por Lacan para além da lógica fálica e ideia de castração. Aplicado ao feminino o “não-todo” refere-se a uma mulher que não tem como ser integralizada. Jamais compreendida em sua completude, ela se posiciona do lugar de puro enigma, como a mulher duchampiana que vemos através do furo no real. 

O nu feminino de Étant Donnés é uma citação explícita de A Origem do Mundo (1866), de Gustave Courbet. Se Duchamp nos obriga a atravessar o orifício de uma porta para ver uma paisagem, A Origem do Mundo é o nascimento do Olhar. Ambos os trabalhos interrogam a espessura do real – ponto de fuga e encontro com a dimensão ausente; lugar constantemente deslocado que abre as portas aos sentidos, invocando o “não-todo” da sexualidade feminina.

Na fenda aberta por Martins, Duchamp e Courbet há aquilo que na psicanálise se dá como falta. No lugar em que nunca haverá a justa relação, nem a perfeita acoplagem entre os amantes, é onde se dá a construção da fantasia. E então, no embate amoroso com o outro, em sua radical diferença, produzir alguma invenção.   

Bianca Coutinho Dias é psicanalista e crítica de arte.

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