André Penteado: entre memórias do futuro e projetos do fracasso

As séries fotográficas Cabanagem e Missão Francesa falam de processos de violência social do Brasil contemporâneo, da importação de modelos culturais e da forma como projetos são interrompidos e abandonados

Giselle Beiguelman
Foto da série Cabanagem (2015), em que o artista investiga evidências factuais e metafóricas da revolta social de 1835-1840 iniciada pelos cabanos (negros, índios e mestiços) (Fotos: Cortesia do Artista)

Foto da série Missão Francesa (2017), de André Penteado

André Penteado é um artista que evoca rastros perdidos. Seu território são os lugares abandonados, as perdas emocionais, as interrupções inexplicáveis. Formado em administração pública pela Fundação Getulio Vargas em 1989, estudou Ciências Sociais na USP, não terminou o curso e decidiu dedicar-se à fotografia em 1993. Atuou durante muitos anos apenas comercialmente. Os primeiros trabalhos artísticos coincidiram com a dor pela morte do pai. São eles os premiados O Suicídio de Meu Pai (2007-2011), série de fotos que registram do funeral a autorretratos com a roupa do pai, e Não Estou Sozinho (2009-2013), composto de retratos de participantes de grupos de apoio a pessoas que perderam familiares ou amigos por suicídio, entre outras coisas.

Penteado viveu em Londres de 2005 a 2012. Ao retornar, foi mobilizado pelas manifestações de junho de 2013. Envolveu-se em um longo processo de pesquisa que sistematizou como Rastros, Traços e Vestígios. No seu espectro propõe fazer uma reflexão sobre o Brasil de hoje por meio de uma investigação fotográfica sobre momentos da nossa história, anteriores à invenção da fotografia ou em locais onde a fotografia ainda não havia chegado, quando os fatos ocorreram. “Isso me permite não entrar em diálogo com uma iconografia de época. Acredito que a fotografia tem potência para discutir a história porque pode construir narrativas, sejam elas visuais ou historiográficas.” O primeiro fruto dessa investigação foi o livro Cabanagem (2015), seguido de Missão Francesa (2017). Ambos foram realizados com leis de incentivo. Na sequência virão Farroupilha, no qual está trabalhando, e Descobrimento e Independência.

Foto da série Cabanagem (2015), de André Penteado

Cabanagem empresta seu nome da longa revolta social, ocorrida no Grão-Pará, atual Amazônia, de 1835 a 1840. Em um primeiro momento, articularam-se na revolta dois confrontos distintos com o governo regencial.

O dos cabanos – negros, índios e mestiços–, que viviam na miséria, e o das elites brancas locais contra o monopólio português do poder. Contudo, à medida que a revolta se interiorizou, saindo da capital, Belém, evoluiu para uma luta de caráter social mais amplo, explica a historiadora Magda Ricci, com quem Penteado trabalhou.

Violentas, as batalhas resultaram em mais de 30 mil mortes e na repressão total do movimento. Apesar de ter sido uma das maiores revoltas da História do Brasil, a Cabanagem é pouco conhecida. Para realizar seu trabalho, André Penteado percorreu parte do estado do Pará, visitando, entre outras localidades, Belém, Acará, Vila de São Francisco Xavier, Cametá, Vigia e a Ilha de Tatuoca. Da sua busca por evidências factuais e metafóricas da revolta, somos confrontados com o abandono das instituições, a ausência das políticas públicas, os espaços em franco desmoronamento.

Na série Missão Francesa (2017), de André Penteado, que aparece acima e nas próximas imagens, reverberam as crises dos sistemas institucionais da arte, da cultura e da educação

 

Outra história
Não se trata de uma visão melancólica, romântica, que procura a nostalgia de um passado idílico que nunca tivemos. Tampouco uma “obra de denúncia” que aponta uma suposta incapacidade atávica de o Brasil cuidar do seu patrimônio. Penteado escreve, visualmente, outra história a partir dos seus ensaios fotográficos. Para tanto, insiste no uso de um vocabulário específico, que deixe claro a não neutralidade da cena retratada. “Acho que é exatamente esse o ponto que me interessa na fotografia. A descrição nos mínimos detalhes do real, que, na verdade, é uma construção absoluta do artista, mas que gera essa confusão do observador. Procuro fotografar tudo do mesmo jeito, que é sempre reto – câmera no tripé –, com uma fonte de luz só, para criar uma iluminação simples e direta. Porque acredito que o poder da fotografia já está no snapshot… Essa é a minha estratégia para lidar com questões que considero relevantes. É como se eu dissesse: é fotografia mesmo, não é verdade! No jornal também não é a ‘verdade’”, diz ele.

Desses procedimentos as imagens renunciam de contar a história do que ocorreu e interrogam as atualizações da Cabanagem nos processos de violência social do Brasil contemporâneo. Por outro lado, questionam como o descaso com a memória e com a história da produção social dessa violência contribui para sua reprodução. “Estamos falando de uma revolução vitoriosa que depois é massacrada e matam 30 mil pessoas na região…  A gente precisa falar disso, é assunto para um trabalho, mas como é que eu vou falar se ninguém fala disso?”, questiona.

Fragilidade das políticas públicas
Em Missão Francesa, o foco desvia-se para um capítulo menos apagado da história brasileira, mas também bastante revelador da fragilidade das políticas públicas nacionais. Se na Cabanagem o tema remete aos circuitos da memória e do patrimônio, aqui reverberam as crises dos sistemas institucionais da arte, da cultura e da educação.

Como o nome do trabalho diz, trata-se do grupo de artistas que, em 1816, durante a estada da família real portuguesa no Brasil (1808-1821), e logo após a queda de Napoleão Bonaparte (1815), chegou ao Rio de Janeiro, então capital do Reino. Integravam o grupo os pintores Jean Baptiste Debret e Nicolas Antoine Taunay, os escultores Auguste Marie Taunay e Zépherin Ferrez, além do arquiteto Grandjean de Montigny. O grupo era liderado por Joaquim Lebreton, ex-diretor do Louvre e secretário recém-destituído do Instituto de França. A “Missão” é relacionada à implementação do ensino formal das artes plásticas no Rio de Janeiro, com a fundação da Academia Imperial de Belas Artes, e responsável pela introdução da pedagogia neoclássica no Brasil. Descendentes desses artistas tornaram-se intelectuais e artistas importantes, como o historiador Afonso D’Escragnolle Taunay e o fotógrafo Marc Ferrez (filho de Zépherin Ferrez).

No campo da historiografia não são poucas as polêmicas que cercam a empreitada. Desde a organização da iniciativa (se teriam sido convidados ou vindos por conta própria) até o seu legado (na oposição ao estrangeirismo neoclássico/ barroco brasileiro, central no nosso modernismo). Mas não é especificamente da história da Missão que se fala no trabalho, e sim das heranças que se projetam no imaginário e nas políticas culturais. Para Penteado, importam a dependência da importação de modelos e a forma como os projetos são abandonados e interrompidos.

“Missão Francesa veio dessa coisa que se fala muito: quando o Brasil conseguir ser que nem os EUA, ter consumidores que nem nos EUA, ter mercado de arte que nem sei lá o quê… Sempre algo de fora! O projeto começou disso. Depois, visitando o prédio da Federal do Rio, me veio muito forte essa questão das coisas inacabadas. Ao lado de onde fica o prédio da Faculdade de Arquitetura e a Escola de Belas Artes tem um hospital inacabado. Nem terminou, mas já deu problema e vão destruir. E o prédio em si da Academia Imperial de Belas Artes, que hoje é um estacionamento? É uma forma de ver como lidamos com a nossa história. Passa um trator.” 

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