Antiretratos do cotidiano

Galeria Millan abre exposições com trabalhos antigos e inéditos de Regina Parra e Tatiana Blass

Felipe Stoffa
Pintura de Tatiana Blass (Foto: Divulgação)

Cada vez mais a violência se torna uma questão latente do mundo contemporâneo. E tem se afirmado também como temática na produção de muitos artistas como, por exemplo, no caso de questionamentos sobre o machismo no campo da arte, tentativas de dar voz a grupos marginalizados pela sociedade ou até mesmo denúncias sobre a grave crise imigratória que diversos países enfrentam atualmente.

Algumas destas situações serviram de inspiração para a exposição da paulistana Regina Parra, que abre sua primeira individual, Por Que Tremes, Mulher?, na Galeria Millan, em São Paulo. A mostra tem curadoria assinada pelo crítico e pesquisador Moacir dos Anjos, e apresenta trabalhos que discutem a temática da violência, mas longe do prisma banal que essa palavra ocupa nos noticiários. A ideia é organizar uma arqueologia da violência, como diz a a artista. Ou seja, um registro dos conflitos que mulheres, negros, índios e imigrantes, por exemplo, enfrentam, muitas vezes de forma velada, nas relações do dia-a-dia.

Trabalho de Regina Parra (Foto: Divulgação)

Trabalho de Regina Parra (Foto: Divulgação)

 

Ali estão pinturas e desenhos que criam uma narrativa ao avesso. Parra produz seus trabalhos a partir de uma relação entre natureza e cultura, que muitas vezes esbarra no famoso mito racista do bom selvagem. Ao mesmo tempo em que podemos ver pinturas de florestas inabitadas – parte da série que deu nome à exposição -, descobrimos depois que esse cenário retratado é lar de uma espécie de ave conhecida como Capitão do Mato. Esse pássaro, quando próximo a humanos, lança um canto estridente, o que serviu, em muitos momentos, para denunciar escravos que fugiam das fazendas de seus senhores, na época da escravidão. Além das cenas, cada pintura acompanha uma legenda, versos retirados do poema Tragédia No Lar, do poeta brasileiro Castro Alves (1847 – 1871).

Pintura da série Tragédia no Lar, de Regina Parra (Foto: Divulgação)

Pintura da série Por Que Tremes, Mulher?, de Regina Parra (Foto: Divulgação)

 

Retratos da escravidão parecem recorrentes na exposição. Já no vídeo Sim-Senhor, por exemplo, escuta-se todos os personagens repetindo a mesma e cansativa frase de obediência: sim, senhor. E em outra série de pinturas, eles são retratados como estátuas sorridentes e servis que compõem a paisagem de casas de fazenda e senzalas. Ao ver da artista, essa posição de passividade pode também revelar estratégias de sobrevivência, tornando-se um meio de resistência.

Talvez resistência seja uma palavra corrente na mostra. Ao mesmo tempo em que os trabalhos formam claramente uma denúncia da violência, eles também podem incitar formas de se pensar maneiras de sobrevivência, tarefa que a artista parece ter se incumbido.

Pintura de Regina Parra (Foto: Divulgação)

Pintura de Regina Parra (Foto: Divulgação)

 

Desprofissão
A galeria também apresenta em seu anexo a exposição Desprofissão, individual de Tatiana Blass, que reúne trabalhos inéditos e antigos. As duas exposições acabam por proporcionar um diálogo interessante ao apresentarem um antirretrato do cotidiano. Enquanto Regina Parra se interessa pela violência velada, Blass apresenta pinturas em guache sobre papel e vídeos que constituem sua série Desprofissão.

Pintura de Tatiana Blass (Foto: Divulgação)

Pintura de Tatiana Blass (Foto: Divulgação)

 

Na série que leva o título da mostra, o que interessou a artista foi um retrato satírico do mundo do trabalho, enquanto que a filmagem tenta trazer o ambiente da pintura em um meio digital, a partir de relações cromáticas com a imagem, além de apresentá-los no espaço em monitores emoldurados e fixados nas paredes como quadros. Cada vídeo apresenta um tipo diferente de profissional que aparentemente realiza seu trabalho cotidiano. Neles, figuram o lavador de carros, a manicure e o grafiteiro. Com o passar do tempo, percebemos que, na verdade, estão realizando o oposto de seus trabalhos: o lavador está jogando água suja de lama no veículo; a manicure pinta toda a mão de sua cliente, menos a unha; e o grafiteiro, na verdade, aplica um spray da cor da parede em outros grafites, como se estivesse apagando as intervenções.

Já sua série de pequenas pinturas foi inspirada em cenas de clássicas peças de teatro. As composições, entretanto, parecem fundir a presença humana no próprio espaço, na qual Tatiana Blass utiliza cores intensas, sem distinção exata dos diferentes planos da imagem.

A mostra também conta com a instalação Bocejo, originalmente produzida para a feira ARCOMadrid, na Espanha. Seguindo por um caminho similar de Desprofissão, o trabalho, neste caso, parece fazer jus à preguiça. São diversas telas em que diferentes personagens começam a bocejar. Assim que o primeiro realiza o ato, segue-se uma onda de bocejos, que se encerram apenas quando as telas ficam escuras e dormem.

As exposições seguem em cartaz na galeria até 20/8. Na ocasião, Tatiana Blass também lança o livro que tem seu nome como título e reúne alguns dos trabalhos de sua trajetória. O lançamento acontece em 6/8 (sábado).

Bocejo - Tatiana Blass (Foto: Divulgação)

Bocejo – Tatiana Blass (Foto: Divulgação)

 

Serviço
Por Que Tremes, Mulher? e Desprofissão
Galeria Millan
Rua Fradique Coutinho, 1360, Vila Madalena, São Paulo
De 22/7 até 20/8
De terça a sexta-feira, das 10h às 19h; sábados, das 11h às 18h
Tel.: (11) 3031 6007

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