Antropofagia no Afeganistão

Obras de Arthur Omar no Sesc Copacabana desconstroem toda a situação da obra fotográfica original para substituí-la pela superposição de seus cadáveres

Paulo Sergio Duarte

Publicado em: 14/11/2022

Categoria: Crítica, Da Hora, Destaque

Vista de Retorno à Imagem: Afeganistão, de Arthur Omar, no Sesc Copacabana [Foto: Divulgação]

Ninguém tem dúvida que um dos artistas que mais contribuiu com as mídias fotográficas e do vídeo para a arte contemporânea foi Arthur Omar; notem bem, não estou falando do Brasil, estou falando da arte contemporânea, aquela que acontece no mundo em nossos dias desde a década 1960. Não se trata de uma contribuição recente, tem várias décadas e sempre surpreendeu quem com ela se confrontou. O vídeo Triste Trópico, um longa de 1974, já vinha com uma contribuição inédita. Em 1998, na Bienal de São Paulo, sob a curadoria de Paulo Herkenhoff, que comemorava os 70 anos do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, o artista apresentou o mais formidável painel fotográfico: Antropologia da Face Gloriosa. Nada menos que 99 fotografias preto e branco em formato monumental de rostos de gente do povo brasileiro nos invadiam numa grande extensão espacial. Um dos momentos mais elevados daquela Bienal histórica.

Há inúmeras contribuições de Arthur Omar para a arte contemporânea que se somam a essas poucas que enunciei, mas existe uma experiência artística com contornos de aventura que foi realizada em 2002: a viagem ao Afeganistão conflagrado. Dessa viagem resultaram várias fotografias mostradas em exposições e o livro Viagem ao Afeganistão. Os restos da impressão desse livro são agora os protagonistas de uma surpreendente exposição. Na verdade, no Sesc Copacabana, no Rio de Janeiro, são apresentadas, até 18/12, 22 fotografias, apenas um subconjunto de uma série que soma 40 imagens. Mas essas 22 fotografias são o bastante para demonstrar que a obra de Arthur Omar continua sendo um dos mais elevados momentos poéticos da arte contemporânea.

Brinco Pérola, de Arthur Omar [Foto: Divulgação]

Chamo de restos da impressão do livro porque foi dali que o artista partiu para a construção das novas imagens, são, como afirmou o artista na conversa comigo, “resíduo da impressão do livro. (…) São testes: imagens sobre imagens. (…) Descarte – três dias de impressão a seis cores. (…) Pisoteadas, amarfanhadas, dez anos depois”. Mas essa revisita ao Afeganistão pelos restos do livro se transformam em imagens mais poderosas que as “originais” de 2002.

Em primeiro lugar, desconstroem toda a situação da obra fotográfica original para substituí-la pela superposição de seus cadáveres; são as imagens mortas, jogadas fora, que ressuscitam mais fortes do que quando estavam vivas nas páginas do livro original. Isso me lembrou da citação de Goethe, escolhida por Walter Benjamin, como epígrafe, para abrir sua tese O Conceito de Crítica de Arte no Romantismo Alemão: “Antes de tudo… quem compõe uma análise deveria indagar, ou melhor, dirigir a sua atenção sobre a questão de saber se ele tem realmente a ver com uma síntese misteriosa, ou se aquilo com o que se ocupa é apenas um agregado, uma justaposição… ou como tudo isto poderia ser modificado”.

Arthur Omar [Foto: Divulgação]

Pois bem, tenho um partido, Arthur Omar escolheu a síntese misteriosa de Goethe para essas obras. Essa perspectiva crítica está sempre embutida em todos os trabalhos de Arthur Omar, um artista extremamente reflexivo e absolutamente consciente de suas escolhas. Mesmo nessa revisita ao Afeganistão vai mais longe do que em toda sua obra. Pratica uma antropofagia como jamais foi realizada na arte brasileira. Devora a própria obra e devolve de modo potente e inédito aquilo que estava realizado e, de repente, temos imagens de uma invenção cromática surpreendente. Esse devorar as próprias imagens que já lhes pertenciam e nos apresentar completamente transformadas e, por quê não dizer, literalmente metamorfoseadas no sentido kafkiano do termo, é uma experiência inédita em nossa história da arte.

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Paulo Sergio Duarte é crítico, professor de história da arte e curador.

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