Anunciação (ou História do Futuro)

Silêncio Coletivo abre exposição em Lisboa sobre a queda de monumentos que homenageiam a história colonial. Leia ensaio do curador

Mateus Nunes

Publicado em: 29/05/2022

Categoria: artes visuais, Curadoria, Da Hora, Destaque

Vista da mostra Anunciação, do duo Silêncio Coletivo, em cartaz no Hangar, em Lisboa

Brasil: vermelho cor de brasa. Rompante de sangue à cabeça, estado de alerta e vigília, sangue que dá e tira a vida. Buscando reaver a memória dos que foram e serão deitados ao chão pelos que permanecem erigidos, o Silêncio Coletivo apresenta Anunciação, exposição-instalação inédita no HANGAR, em Lisboa.

O duo, formado pelos artistas brasileiros Jaime Lauriano e Igor Vidor, reveste as paredes do espaço expositivo com a repetição de fotos de levantes e de monumentos com filtro vermelho. Dispostos na instalação, há recortes de imagens planificadas de monumentos escorados, em posição dúbia entre a queda e a ascensão, além de um conjunto de cerâmicas religiosas do candomblé.

Para orquestrar a revisita ao episódio bíblico da Anunciação pelo Silêncio Coletivo, declaram-se obsoletos os modelos iconográficos proporcionados pela tradição cristã colonial. É importante começar ressaltando a complexidade temporal desse episódio: no mesmo instante em que acontece a cena plácida em que o arcanjo Gabriel anuncia a vinda do filho de Deus através do ventre imaculado de Maria, decreta-se também o estarrecedor apregoamento do corpo de Jesus na cruz, que pende morto, fincado pelas mãos atravessadas. A cruz, monumento de exibição pública da morte, torna-se símbolo de vida. Dessa forma, a anunciação da vida é a mesma que a da morte: nascerá o que morrerá por nós.

Nesse jogo de contradições, Lauriano e Vidor propõem a construção de um panteão condenatório, utilizando-se dos próprios mecanismos da memória para um planejado esquecimento – ou é este esquecimento planejado que consubstancia um calculado projeto de memória? Essa Anunciação, que profetiza ruínas e anuncia a chegada de cicatrizes já seculares, subverte a temporalidade convencionada e propõe a gênese futura de algo que já fora – ou deveria ser – aniquilado. Nesta instalação, a criação e a destruição não são forças que se anulam, mas vetores que questionam, em seu próprio choque, os motivos de algo ser criado ou destruído. A incontestabilidade desse tempo – numa resignação resultante em um problemático silêncio coletivo – se assemelha à da história colonial que, embora engendre múltiplas leituras, muitas delas contraditórias, se blinda a um revisionismo e dispara a narrativa como eterna, incólume e encapsulada.

O Silêncio Coletivo já expõe esse paradoxo pautado pelos ideais cristãos e coloniais na obra Do Pó ao Pó (2022), em sua última exposição em Portugal. Paradoxo esse minuciosamente analisado pelo padre português Antônio Vieira – de cujo livro póstumo é roubado parte do título do presente texto – em seu Sermão da Quarta-Feira de Cinzas de 1672. Vieira argumenta acerca da complexidade e da dificuldade de entendimento do texto bíblico que anuncia que do pó viemos, pó somos e ao pó retornaremos. Como, portanto, nos converteremos a algo que já somos? E de que forma compreender que somos pó no presente, quando o que os olhos denunciam é que somos carne?

Esse enigma temporal seria dado como caso resolvido pela cosmovisão yorubá do candomblé, que compreende as questões de ancestralidade como dispositivos de presença e de continuidade futura. A partir dessa matriz de pensamento, somos libertos por um alargamento das compreensões sobre temporalidade, ancestralidade e materialidade, em comparação às limitantes categorizações eurocêntricas que nos foram ditadas.

Uma das formas mais eficazes e provocativas de declarar a obsolescência de ideias e imagens não é descartá-las, mas virá-las do avesso. Na Anunciação, são repetidas imagens de monumentos controversos, esvaziando-os em sua materialidade e os dotando de outro sentido ao inserir suas representações em contexto questionador. Os artistas confrontam uma tradição eurocêntrica de que esvaziar a matéria é também esvaziar o sentido; enquanto na visão yorubá, a ancestralidade transborda o sentido da matéria, colocando-a em um espaço de potencialidade. Essa compreensão das relações entre o sentido e a matéria, portanto, pode nos esclarecer a leitura de que um ato aparentemente iconoclasta é, na verdade, a proposição de uma (nova) história há muito negligenciada, dissonante da que sempre nos foi imposta a contragosto. 

Nesse labirinto de imagens bidimensionais de fundo vermelho, há um conjunto de vasos religiosos em cerâmica crua, chamados de quartinhas e quartilhões. Esse corpo estranho às imagens que o cercam é aparentemente ingênuo, mas profundamente poderoso, como um cavalo de Troia: são objetos de cura do candomblé que trazem a própria pureza como elemento impuro numa cultura colonialista que se diz impoluta. Esses receptáculos contêm água – conteúdo e continente ao mesmo tempo –, que lentamente evapora pela porosidade da cerâmica e precisa de reabastecimento e atenção constantes. A água contida nas cerâmicas é lentamente bebida pelas entidades a que são ofertadas, sendo a evaporação um ritual de cura transbordante. Enquanto as imagens planas esvaziadas de volume dos monumentos pétreos almejam a robustez de uma história sólida, imbatível e perene, as quartinhas e os quartilhões relacionam-se às ideias de substância, elemento, fragilidade e efemeridade. Estrategicamente instaladas, colocam-se em território inimigo e promovem a cura, lutando armadas com outras epistemes.

A instalação se relaciona com a insurgente onda de contestação de monumentos que homenageiam eventos e pessoas com posturas hoje entendidas como criminosas, mas normalizadas por séculos através de um sofisticado dispositivo de manutenção de poder. Esse estratagema político insere uma cíclica conduta de permissibilidade perante essas homenagens brutais, que laureiam na terra ferida os incisores das próprias cicatrizes, em uma planejada geografia do poder da memória. A derrubada de uma série de monumentos pelo mundo catalisada pela morte de George Floyd, em 2020, e o ateamento da estátua dedicada ao bandeirante paulista Borba Gato pelo grupo Revolução Periférica, em São Paulo, são exemplos de vivos levantes. Essas insurreições não buscam remoer um passado colonial, inapagável e impagável, mas conter a presença sintomática desse violento passado no presente e no futuro – afinal, todo levante é uma queda.

Anunciação é assente em terras cuja história é inflamada mas não incômoda, onde a inércia do tempo e a dormência dos levantes permitem que centenas de pelourinhos continuem intactos em solo luso, rememorados como altivos patrimônios culturais da nação heroica em uma lógica celebrativa. Essas colunas em que escravos negros eram ufanamente amarrados e açoitados são, por vezes, travestidas como monumentos que homenageiam as navegações ou obeliscos régios, sem perceber que sua nova camuflagem, na verdade, é um balangandã que acentua e alerta para as dinâmicas macro-históricas que fincaram ali aqueles pelourinhos. Sem embargo, permanecem de pé. Enquanto isso, há poucos dias, integrantes da Polícia Civil do Rio de Janeiro demoliram um memorial às 28 vítimas mortas na chacina do Jacarezinho, invadindo a comunidade com veículos blindados e apagando a memória de quem já haviam aniquilado o corpo. Talvez a Anunciação seja um dispositivo último de reflexão: mostra-se apenas o que já é presente, sem alterar nada, e deixa-se encarar com seu próprio reflexo por tempo suficiente para que se torne insuportável.

“Anunciar” conecta-se semanticamente à ideia de futuro, de profetizar ou alertar sobre algo que está por vir; enquanto “denunciar”, nesse mesmo campo de batalha das palavras, atesta algo que já teve sua origem no passado. Lauriano e Vidor friccionam os atos de anunciar e de denunciar até que se tornem fenômenos híbridos: boa-nova e mau agouro, profecia e diagnóstico, bênção e maldição, anúncio e denúncia. São uma dupla e esse trabalho só pode acontecer em dupla, em diálogo constante, em dois tempos, hoje e sempre: na revisitação de uma história brasileira decolonial, é sempre impossível ser somente um.

SERVIÇO
HANGAR (Rua Damasceno Monteiro, 12 R/C, Lisboa, Portugal)
Abertura: sábado, 21/5, das 11h às 19h
Visitação: até 2 de julho, sem necessidade de agendamento
Dias de funcionamento: quarta-feira a sábado, 15h às 19h

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