Apagar e desarmar

Em Genocídio Simbólico, a reação à indústria bélica e à violência policial está no cerne do posicionamento político de Antonio Tarsis

Paula Alzugaray

Entre obras de cifras superlativas e artistas de destaque no mercado da arte, é gratificante encontrar no ambiente da ArtRio 2018 uma voz como a de Antonio Tarsis – com suavidade e potência suficientes para amplificar a gravidade dos problemas da comunidade negra e pobre do país. O mais jovem artista em exposição na feira de arte do Rio de Janeiro tem 22 anos, nasceu em uma comunidade de Salvador (BA) e abandonou a escola na 5ª série – tendo concluído os estudos mais tarde através do Enem, sem frequentar a escola formal.

O fato é que Tarsis escapa à perversa estatística social brasileira, que coloca o homicídio como a principal causa de morte de brasileiros entre 15 e 29 anos, negros, do sexo masculino, com baixa escolaridade e moradores das periferias (segundo relatório da CPI da Violência contra Jovens Negros, de julho de 2015). Ele é artista visual e usa seu trabalho como instrumento de transformação. Poderia estar na exposição Arte Democracia Utopia. Pois, como afirma Moacir dos Anjos no texto curatorial da mostra que está no MAR (Museu de Arte do Rio), “são muitas as maneiras de fabular outro lugar que possa existir no futuro, embora fazer política e fazer arte sejam as duas mais antigas e constantes”. Entre 26 e 30 de setembro, expôs seu trabalho pela primeira vez no Rio de Janeiro no stand galeria LF Landeiro Arte Contemporânea, de Salvador.

 

Chama a atenção a contundência do seu discurso.  “Genocídio Simbólico é uma serie de bordados que tentam desmembrar os emblemas dos órgãos de segurança pública do Brasil, até criar uma narrativa horizontal que vai apagando e retirando símbolos de morte e extermínio dessas instituições”, diz Tarsis à seLecT. “O trabalho tem essa perspectiva de apagamento”.

Outra série exposta é Trabuco, formada por objetos escultóricos em vidro soprado, preenchidos com pólvora, chumbo e cobre. Rementem a armas do século 16, mas a bala é colocada em posição invertida, subvertendo a lógica do disparo. O trabalho foi criado a partir de uma cápsula encontrada pelo artista na Ladeira da Conceição, a primeira ladeira construída por Tomé de Souza em Salvador, para isolar os índios tupinambás na parte baixa da cidade. “Essa ladeira tem uma representação muito forte de luta de classes no Brasil. Busquei uma estética que pudesse abarcar a violência tanto do período colonial até a contemporaneidade”.

Antonio Tarsis vive há seis meses no Rio de Janeiro e estuda na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, beneficiado com uma bolsa de estudos. Entre seus maiores interesses hoje está a literatura de Lima Barreto. Sua exposição na ArtRio integra o setor Brasil Contemporâneo, projeto recém-criado para valorizar e fortalecer uma rede de galerias sediadas em cidades fora do eixo Rio-São Paulo ou comprometidas com a pesquisa e a visibilidade de uma produção heterogênea e não vigente – caso da galeria Mapa, de São Paulo, que expôs obras do autodidata Valdeir Maciel, maranhense, e atuante nas bordas do Construtivismo brasileiro. Com curadoria de Bernardo Mosqueira, o setor reuniu cinco galerias: duas de Salvador, uma de Curitiba, uma de Goiás e a Mapa de São Paulo. A violência social é também tema da obra de Pedro Marighella, em exposição na RV Cultura e Arte, de Salvador.

Com valores como pesquisa e experimentação regendo seus critérios de seleção, o setor Brasil Contemporâneo é a melhor notícia desta ArtRio. Esperamos que cresça.

 

 

 

 

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