Aparelhamento: “Não temos governo, estamos à deriva”

Rede de artistas que surgiu em 2016 a partir de ocupação na Funarte SP, começou com manifesto "Fora Temer" e segue com "Fora Bolsonaro!"

Nina Rahe

Publicado em: 08/02/2021

Categoria: Da Hora, Destaque, Entrevista

Fumaça Antifascista SOS Cinemateca, 2020 (Foto: @FumacaAntifascista)

Em 2016, uma pequena multidão de 167 artistas realizou uma exposição de arte seguida de leilão na Funarte de São Paulo, que se encontrava ocupada em oposição ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. A ideia da iniciativa, que contava com obras de Bárbara Wagner, Lourival Cuquinha, Marcelo Cidade, Mônica Nador, Thiago Martins de Melo, Virginia de Medeiros, entre tantos outros, era viabilizar fundos – com peças vendidas por até um quarto do preço praticado pelas galerias – para a manutenção da própria ocupação, que contou com intensa programação cultural. Com a reintegração de posse efetivada, os recursos obtidos com a venda das obras foram revertidos para uma série de atos “contragolpe”, formando uma rede que passou a ser conhecida pelo nome de Aparelhamento. “O leilão funcionou como uma espécie de escudo para evitar os desmandos de uma reintegração de posse iminente. Pois para retirar os ocupantes seria necessário um seguro e a tutelagem para as obras expostas (o que implicaria assegurar R$1.4 milhão em valores do mercado)”, explicam os integrantes, que preferem se manter anônimos e, de lá para cá, estimam ter viabilizado mais de 50 ações. Entre elas, está a Galeria Reocupa, que se formou dentro da Ocupação 9 de Julho, em 2018, como um desdobramento das atividades do grupo e a Rádio Floresta, uma iniciativa do artista Gustavo Torrezan, financiada pela rede, que permitiu à comunidade ribeirinha de Careiro Castanho, no Amazonas, instalar e gerir sua própria rádio. “Em seu conjunto, as ações se configuram como críticas contundentes à lógica de retrocesso cultural e social percebida no Brasil desde 2016”, dizem os artistas do Aparelhamento, que começou com a campanha #Fora Temer e, há mais de dois anos, não arrefece no “Fora Bolsonaro”. Em entrevista, eles explicam por que a resistência agora deve ser mais contundente e radical.

“Nos pareceu prudente que várias das ações viabilizadas com os recursos gerenciados pelo Aparelhamento se mantivessem anônimas. Há muita insegurança e pouca justiça. Da mesma forma, o grupo optou por se colocar fora dos holofotes midiáticos”

seLecT: Quando o Aparelhamento se formou, a ideia foi promover um leilão e arrecadar verbas tanto para a manutenção da ocupação na Funarte como para ações contragolpe. Após esta iniciativa, no entanto, pouco se divulgou sobre o valor arrecadado e os projetos que se desdobraram a partir dele. Por que razão a rede decidiu agir sem aparecer publicamente?
Aparelhamento: O leilão funcionou como uma espécie de escudo para evitar os desmandos de uma reintegração de posse iminente. Pois para retirar os ocupantes seria necessário um seguro e a tutelagem para as obras expostas (o que implicaria assegurar R$ 1,4 milhão em valores do mercado). A afinidade necessária à participação vinha do reconhecimento explícito de que o processo pelo qual o vice-presidente Michel Temer assumiu a presidência se configurou de fato como um golpe parlamentar – mesmo que a maioria dos veículos tenha negado ou omitido isso. Mas após o leilão, a reintegração de posse foi efetivada e os recursos auferidos com a venda das obras foi destinado às urgências que se faziam. Parte foi destinada aos grupos artísticos ativos na ocupação Funarte SP, e parte foi reservada a atos político-artísticos que seriam discutidos em reuniões presenciais, grupos de e-mail e redes de aplicativos. A ideia que se levou adiante foi a de destinar recursos em ações coletivas no Brasil todo, da forma mais expandida possível. A escolha básica das ações vinha a partir de votação por maioria (através dos canais que estavam sendo utilizados) e todas as ações tinham a ideia de contragolpe como foco.
Explicitar o golpe ocorrido era uma das concordâncias tácitas. Apoiar sites, vídeos, manifestações, rádios, intervenções urbanas, oficinas de produção de material indutor de conscientização foi o que pautou muitas das ações iniciais. Fortalecer a expansão de atividades artísticas para além dos circuitos existentes, apoiar movimentos sociais de base, em apoio à moradia digna, foram ações subsequentes e que levaram ao fortalecimento da rede, em confluência com movimentos como o MSTC [Movimento Sem Teto do Centro]. Ao mesmo tempo, o governo direitista se “aparelhava” (no mau sentido, pois o nosso grupo utiliza do termo de forma ressignificada, irônica) agregando pensamentos e táticas propagandistas, manipuladoras, mentirosas e também autoritárias, de cerceamento de liberdades criativas e de expressão. Houveram prisões políticas que se seguiram à prisão de Lula, buscando criminalizar as lutas sociais, como aconteceu com Preta Ferreira e outras lideranças desses movimentos. Então, nos pareceu prudente que várias das ações viabilizadas com os recursos gerenciados pelo Aparelhamento se mantivessem anônimas, e ainda hoje é melhor que sejam mantidas assim. Há muita insegurança e pouca justiça. Da mesma forma, o próprio grupo optou por se colocar fora das evidências e dos holofotes midiáticos. O fim do governo Temer trouxe situações ainda mais complexas, e a arte e a cultura passaram a ser alvo predileto de ataques muito sérios por parte do atual governo.

Passados quatro anos, quais as principais ações realizadas e qual o balanço da atuação do Aparelhamento?
A: As ações que se seguiram aos acontecimentos de 2016 foram se adaptando aos novos contextos. A cada retrocesso cultural ou medida arbitrária foi necessário mudar o alvo e o método das ações. Em número, chegamos a produzir e/ou viabilizar mais de 50 ações, em cerca de sete estados do país. Algumas dessas ações se transformaram em infraestrutura para projetos permanentes, o que permitiu a continuidade de ações, às vezes de forma conjunta, às vezes de forma independente de uma assistência ou proximidade continuada do Aparelhamento. Exemplos disso são o coletivo Tupinambá Lambido, no Rio de Janeiro, a Rádio Floresta, na Amazônia, a Cozinha Ocupação 9 de Julho e a galeria Reocupa, ambas em São Paulo. Isso nos levou a pensar no Aparelhamento mais como uma rede incentivadora de outras redes de colaboração, e menos como um coletivo típico de arte – que normalmente adota uma linguagem ou uma mídia específica para suas ações. De todo modo, em seu conjunto, as ações se configuram como críticas contundentes a toda lógica de retrocesso cultural e social percebida no Brasil desde 2016 (apesar de muitos integrantes terem um histórico de atuação que antecede, em muito, essa data).

“Se retomarmos o que fizemos em 2016, diante do quadro de retrocesso que Temer representava naquele momento, talvez hoje nossas ações devessem ser um tanto mais contundentes e radicais”

Em 2016, o Aparelhamento defendia “um conjunto de ações a favor de uma ampla reforma política, a favor da democratização da mídia, pela luta contra a desigualdade social, em defesa das chamadas minorias sociais, das conquistas da mulher, dos povos indígenas, das periferias, pelas amplas conquistas trabalhistas e sociais”. De que forma esse grupo se posiciona em relação aos mesmos objetivos hoje?
A: O grupo é ainda hoje uma confluência orgânica de artistas que se articulam, em intensidades variadas, de acordo com as ações, contextos e momentos específicos. Muitos dos integrantes se desconectaram aos poucos da rede inicial. Outros se juntaram, a partir das ações desenvolvidas, em um processo de envolvimento contínuo e ocasional. Os participantes respondem espontaneamente tanto a demandas internas, quanto a convites dirigidos ao próprio grupo, assim como a convites diretos a alguns de seus membros que podem se estender e se desdobrar coletivamente. O manifesto que define as bases do Aparelhamento começa com “Fora Temer!” e termina com “Fora Bolsonaro, Fora milicianos!” e sugere que as ações se estendem a todo o espectro que envolve um bordão e outro, e toda a urgência política que emerge entre esses momentos/contextos. Claramente, não são ações partidárias, no sentido de não serem financiadas por um ou outro partido. No entanto, o grupo não é nem um pouco “isento ou neutro”, e atua em uma linha política explícita de endosso a políticas públicas de apoio aos desfavorecidos, que visam a distribuição de renda, moradia digna e são contra práticas de violação dos direitos de qualquer segmento cultural, raça, etnia, nacionalidade, língua, classe, religião, sexo e orientação sexual.

Placas nos Monumento (Foto: @aparelhamento)


Há quatro anos, o Aparelhamento engrossava o coro #ForaTemer, mas ninguém imaginava o que enfrentaríamos depois. Como a rede tem se articulado diante das ações do governo atual? Há uma preocupação sobre como se organizar para 2022?
A: Convivemos com um político medíocre no poder, que só foi eleito devido ao processo golpista que se iniciou lá atrás. O que se constata é que efetivamente não temos governo, estamos à deriva. São mais de 15 crimes de responsabilidade apontados por deputados, instituições, organizações sociais, advogados, juristas, ex-ministros. Há comprovação de prática de eugenia, de elogio à tortura, de ocultamento de crimes. Marielle Franco foi assassinada por pessoas próximas aos que estão no poder. Vereadoras recém-eleitas vêm sofrendo ameaças dos próprios colegas. Se retomarmos o que fizemos em 2016, diante do quadro de retrocesso que Temer representava naquele momento, talvez hoje nossas ações devessem ser um tanto mais contundentes e radicais.

“A contemplação da Reocupa pelo Prêmio seLecT de Arte e Educação, além de um reconhecimento importante sobre nossa atuação educativa junto ao público da mostra O Que Não É Floresta É Prisão Política, trouxe também um auxílio estrutural”

 

Carro do Ovo, 2020 (Foto: @aparelhamento)


De que maneira a arrecadação para o financiamento de novas ações está sendo realizada?
A:
A Galeria Reocupa vem tendo um papel importante nesse novo contexto. Temos alguns parceiros do mercado da arte que tanto doam dinheiro quanto compram e ajudam a comercializar obras, que são geralmente doadas por artistas. Quando ê artista não pode ou deseja doar integralmente o valor de seu trabalho, elu recebe a quantia que estabelece. É uma negociação caso a caso, mas normalmente ês artistas doam o valor integral, seja porque acreditam na efetividade das nossas ações, seja porque sentem este desejo de retornar à sociedade parte de uma espécie de “mais-valia” corrente no mercado de arte. Acontece também de ê artista definir uma ação a ser realizada a partir da venda de seu trabalho, em ações pontuais e específicas. A contemplação da Reocupa pelo Prêmio seLecT de Arte e Educação, além de um reconhecimento importante sobre nossa atuação educativa junto ao público da mostra O Que Não É Floresta É Prisão Política, trouxe também um auxílio estrutural importante, pois permite que a galeria continue existindo e gerando atividades culturais e ações. Nós também comercializamos produtos como bandeiras, pôsteres, adesivos e carimbos, que são uma espécie de subproduto das nossas ações ou de ações de parceiros. Além disso, começamos a receber cada vez mais convites para participações em mostras e eventos que eventualmente rendem algum recurso, que são aplicados em continuidade de ações.

Há algum projeto em andamento que possa ser compartilhado? Quais são as ações em curso atualmente?
A: Estamos em atividade, inquietos com o contexto atual. A Reocupa participa hoje de uma versão virtual da exposição O Que Não É Floresta É Prisão Política, no âmbito das comemorações dos 120 anos de Mário Pedrosa, promovidas pela Fundação Perseu Abramo.
Recentemente, também colocamos nas ruas de São Paulo o Carro do Ovo, uma van que vende ovos de qualidade, de galinhas livres de cativeiro, mas que, em vez de apenas anunciar o produto, incita um debate público por meio de perguntas de cunho político e de relevância nacional. Em um trocadilho com “ovo”, evocando o bordão “O povo quer saber”, as perguntas são questionamentos comuns que circulam pelas mídias, mas que não encontram respostas plausíveis, como por exemplo: “Por quê Queiroz estava escondido na casa do advogado da família Bolsonaro?” Sofremos o contexto e essa é a urgência do trabalho que vem sendo feito. Os abalos de contexto, que tornam cada vez mais crítica a sobrevivência de artistas e agentes culturais, refletem as ações que estão sendo pensadas.

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