Apontamentos para uma cartografia

O cuir/queer como território em expansão

Guilherme Altmayer
Bandeira BAFO 1, 2015, de Tertuliana Lustosa, na mostra Os Corpos São as Obras, curada por Guilherme Altmayer e Pablo León de La Barra no espaço de arte Despina, no Rio de Janeiro, em 2017 (Foto: Guilherme Altmayer)

Em tempos em que o termo queer ganha maior visibilidade, este breve texto se aproxima de algumas vertentes de práticas políticas cuir/queer a partir de enunciados de autores do Norte e do Sul globais, provendo o leitor de alguns subsídios para aprofundamento nas leituras e práticas cuir/queer.

No fim da década de 1980, sapatões, bichas, travestis e feministas, acadêmicas e ativistas, provenientes de movimentos tais como o ACT UP, de luta por políticas públicas diante da epidemia de Aids, descontentes com as políticas identitárias normativas então em curso, dedicaram-se a expandir um campo que veio a ser chamado, por teóricos estadunidenses, de estudos queer.

Um campo pensado para a crítica e desconstrução de mecanismos discursivos identitários e binários, propagados por dispositivos cisheteronormativos; e como lugar possível onde múltiplos corpos desclassificados e historicamente marginalizados produzam saberes a partir de suas próprias práticas e existências.

Trata-se, portanto, do engendramento de estratégias de contraconduta e de enfrentamento à sistemática dos discursos de promoção de um sujeito “normal”, heterocapitalista, estruturante da hierarquização socioeconômica, a partir de binarismos de gênero e sexo indissociáveis de práticas que perpetuam também violentas desigualdades sociais e raciais.

Podemos entender os estudos queer como um campo estético, político e teórico de rompimento com lógicas de dominação, invisibilizadoras de corpos, sexo e gênero dissidentes: a categoria de gênero, segundo Judith Butler, trata-se de um constructo histórico e social – performativo – que deve, portanto, questionar seus enunciados de coerência entre sexo, gênero e desejo.

Guacira Lopes Louro, uma das precursoras dos estudos queer no Brasil (aportados aqui no início deste século via Academia), defende que, em vez de buscar uma nova identidade, as práticas queer pretendem afirmar-se na diferença. Por meio da resignificação de injúrias, como bicha, sapatão e travesti, configuram-se estratégias de resistência e sobrevivência, como se deu com o próprio termo queer, de origem anglo-saxã, igualmente de cunho depreciativo.

Uma empreitada transdisciplinar impregnada por aportes oriundos do Norte, tais como a desconstrução de verdades por Jacques Derrida, a história da sexualidade de Michel Foucault, a performatividade de gênero em Judith Butler, a epistemologia do armário por Eve Sedwigk e a contrassexualidade de Paul B. Preciado; mas não só, também atravessada pelo pensamento pós-colonial em Stuart Hall e Gayatri Spivak, críticas ao queer colonizador de Hija de Perra, investigação de territórios marginais de Nestor Perlongher, devassos no paraíso de João Silvério Trevisan, proposição transviada de Berenice Bento, inflexões decoloniais de corpos de Viviane Vergueiro e redistribuição desobediente da violência de gênero de Jota Mombaça, entre muitos outros.

Cuir, escrito com “c”, é uma tradução de como se lê queer em castelhano, propositalmente mal-acabada, descompromissada com sua forma original nos trabalhos de autorxs latino-americanxs dedicadxs ao tema, que buscam maior proximidade com as realidades do Sul global, e de sua farta produção acadêmica e estético-política, algumas das quais mencionadas no parágrafo anterior.

Cuir, quando lido em português, também remete ao cu, como acesso àquilo que é mantido escondido. É nesse sentido que Larissa Pelúcio sugere tratar os estudos queer como estudos cu, em uma tradução provocadora, pouco palatável, para que o campo se abra para novas possibilidades de contestação.

Ao ser reiteradamente tornado abjeto, um lugar intocável para muitos, o cu (privado) se tornaria uma das bases de sustentação de um sistema de sexualidades que, segundo Guy Hocquenghem, seria um motor central de produção de subjetivações capitalistas centrado no falo (público).

Refletir a partir de práticas anais seria, para Paul B. Preciado, uma forma de dissolver a oposição entre hétero e homossexual, entre ativos e passivos, deslocando a sexualidade a partir do pênis que penetra o cu receptor, como forma de borrar as linhas que segregam gênero, sexo e sexualidades, que expõe as fragilidades constitutivas do sujeito tradicional heteronormativo.

Levando-se em conta que o Brasil lidera o extermínio sistemático das populações LGBTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais) no mundo, é mais do que urgente pôr foco sobre esse debate, porém, com o intuito de articular estratégias de fato eficazes para a sobrevivência de uma multiplicidade de corpos dissidentes. Sendo assim, não basta se apropriar do termo queer, muito menos por meio de alegorizações distanciadas dxs sujeitxs transviadxs.

Pessoas estas fetichizadas por uma intelectualidade colonizadora, capitalizadas pelo sistema operativo das artes e objetificadas pelo shopping queer: processo de gentrificação de comportamentos e desejos que se apropria das subjetividades desses corpos, usurpando seus lugares de fala e ocupando seus espaços de autorrepresentação.

É preciso entender cuir/queer não como uma identidade fixa, mas como um campo de articulação política de alteridades e de práticas de descolonização do próprio corpo, sobretudo em tempos de violentos processos de normatização de comportamentos em uma sociedade de controle – com evidente viés classista, racista, patriarcal, machista, homolesbobitransfóbico, autoproclamada neoliberal e neopentecostal – que insiste em controlar nossos afetos, bucetas e cus.

seLecT expandida: Conheça bibliografia sobre o cuir/queer como território em expansão em bit.ly/bibliografia-cuir-queer

Guilherme Altmayer é pesquisador e doutorando em design na linha de comunicação, cultura e artes pela PUC-Rio. Foi um dos curadores da mostra Os Corpos São as Obras, em 2017, dentro do ciclo de arte e ativismo promovido pelo espaço Despina, no Rio de Janeiro.

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