Aprecie o silêncio

Juliana Monachesi

Publicado em: 28/04/2012

Categoria: Ensaio, Reportagem

Robert Wilson no Brasil em cinco atos: de Beckett a obra inédita em 2014

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Legenda: Robert Wilson em cena da peça A Última Gravação de Krapp, de Samuel Beckett (Foto: Lucie Jansch/Divulgação)

Iº ATO – Esperando Wilson

Sesc Belenzinho, sexta-feira, 13 (de abril). Coletiva de imprensa com Robert Wilson marcada para as 11h. Meio-dia e o diretor ainda não chegou. Preso no trânsito? Perdido na Zona Leste? Jornalistas se impacientam. Danilo Santos de Miranda inicia a coletiva mencionando que o aguardado dramaturgo e encenador teria sido acometido de um acontecimento beckettiano no caminho para o Sesc. O diretor regional do Sesc no Estado de São Paulo inicia a apresentação da ambiciosa parceria entre a instituição, a Change Performing Arts e o Watermill Center, centro de pesquisa em artes teatrais fundado por Wilson em Southampton, Long Island.

Bob Wilson chega, se desculpa pelo atraso, e relata o acontecido, recorrendo a um antigo episódio de sua vida: “Um vez, estava em Teerã, a caminho de Beirute, nos anos 1970, e decidi telefonar antes de viajar. Avisaram que a situação lá estava perigosa, já que a guerra civil tinha acabado de estourar, e me disseram para não ir. Eu insisti em fazer a viagem, já que havia trabalhado durante muito tempo na peça que seria apresentada no festival de teatro da cidade. ‘Então venha, mas não temos como garantir a sua segurança’, foi a resposta. No dia seguinte eu embarquei e no aeroporto de Beirute alguém me esperava com uma plaquinha onde se lia Sr. Wilson. Fui levado a um hotel ‘muito modesto’, alertou o motorista, onde seria mais seguro me hospedar. Uma vez no hotel, meu cicerone disse que viriam me buscar às três da manhã”. 

– Três da manhã? Por que tão cedo?
– Você é o Sr. Wilson, não?
– Sim, sou o sr. Wilson. Mas por que tão cedo?
– É o melhor horário para atravessar a fronteira do Líbano.
– Mas por que vamos cruzar a fronteira do Líbano se acabei de chegar aqui?
– Você é o Sr. Wilson, não?
– Sim, eu sou.
– Sr. John Wilson?
– Não! Robert Wilson!

“Tivemos que voltar ao aeroporto, onde fomos devidamente destrocados. E hoje de manhã, acreditem ou não, aconteceu a mesma coisa no aeroporto de São Paulo. Eu entrei de novo no carro errado”, divertiu-se Bob Wilson no início da entrevista coletiva.

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Legenda: Robert Wilson, sentado entre Danilo Santos de Miranda (à esquerda) e o tradutor, durante a coletiva de imprensa

IIº ATO – Nova York é uma cidade provinciana

Antes de responder às perguntas dos jornalistas, o diretor teceu fartos elogios à iniciativa do Sesc de financiar um projeto novo dele. Depois da encenação de A Última Gravação de Krapp, de Samuel Beckett, que ocorreu entre os dias 14 e 20 de abril na unidade do Belenzinho, o projeto trienal do Sesc dedicado a Robert Wilson – que inclui artes cênicas, exibições multimídia e uma nova obra teatral criada e produzida no Brasil com profissionais brasileiros – vai trazer à unidade de Pinheiros, no segundo semestre deste ano, montagens das peças A Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht, e Lulu, de Frank Wedekind, ambas com elenco da companhia alemã Berliner Ensemble e direção de Bob Wilson.

“Voltar a atuar no Brasil [A primeira vez que Robert Wilson se apresentou no país foi com a obra A Vida e a Época de Joseph Stalin, durante o Festival Internacional de São Paulo, em 1974, no Teatro Municipal. Em pleno regime militar, o espetáculo, com 12 horas de duração, teve o nome do ditador soviético substituído por Dave Clark] e ter a oportunidade de fazer A Última Gravação de Krapp, e depois dirigir outras duas peças em novembro e ter também a chance de montar, a partir de 2013, um trabalho novo com brasileiros é como fechar um ciclo 40 anos depois”, continuou o diretor.

“Algo que me interessa aqui é que São Paulo é uma cidade internacional, que congrega culturas diferentes. O teatro é um fenômeno internacional. Para que o Brasil seja um centro cultural para o mundo, é importante que as pessoas saibam o que está acontecendo culturalmente no mundo. Em Nova York, acreditem ou não, estamos isolados culturalmente. Nós somos tão provincianos lá em termos de teatro. O que se vê em Nova York é feito por e para americanos. O Arts Council de lá não pode dar um centavo para alguém de fora do Estado de Nova York. Que provincianismo, não? Para sermos cosmopolitas, precisaríamos saber o que está acontecendo no Brasil, com os esquimós, na China, na Bahia. Mas isso não acontece. Vocês têm sorte por ter uma programação cultural realmente internacional em São Paulo”, desabafou.

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IIIº ATO – O diagrama do teatro clássico 

A primeira pergunta para Bob Wilson é como ele vê o epíteto de “maior nome do teatro experimental da atualidade”, sempre associado a ele. O diretor reflete um pouco e afirma: “Na verdade, minhas obras seguem uma estrutura bastante clássica”. Ele então se levanta e vai até um bloco de papel disponível em um cavalete, desenha um diagrama do teatro shakespeariano para, em seguida, fazer uma demonstração de quão semelhante a Rei Lear pode ser uma peça dele, como Einstein on the Beach [ópera criada com o compositor Philip Glass], por exemplo. “Dizem que a vanguarda nada mais é do que redescobrir os clássicos. Então cada geração redescobre o que a gente nasce sabendo. Sócrates diz que o bebê nasce sabendo tudo e que o desvelamento do conhecimento é que constitui o processo de aprendizado”, depois de esmiuçar o complexo diagrama e concluir, diante de um grupo atônito de repórteres: “Não há nada de novo aqui”.

Outras lições de Robert Wilson durante a coletiva:

– Ser artista é uma forma de escuta.
– Antigamente, quando eu ia para a sala de ensaio sem um preparo anterior, achava que era perda de tempo. Com a idade percebi que se tenho muitas ideias antes de iniciar o trabalho, eu perco meu tempo. Criar uma obra para o teatro pode ser mais interessante quando você primeiro vê o que as pessoas têm a oferecer – estes dois homens são muito diferentes entre si; estas duas mulheres têm certas semelhanças, o que aconteceria se os colocasse juntos em cena? – e partir daí. É como descascar uma cebola: você tira uma camada, tira outra e outra, até que não haja mais nada.
– Muitas vezes começo os ensaios de uma peça no silêncio absoluto: sem texto, sem música. Só me preocupo em ter uma visão geral da obra depois de algum tempo.
– Dirigir uma peça é como preencher uma estrutura.

IVº ATO – Como agradar Barbara Brecht

Sobre sua concepção para encenar A Ópera dos Três Vinténs, de Bertold Brecht, Bob Wilson contou que foi o filho do dramaturgo quem primeiro o convidou para dirigir a peça. Ele acabara de estrear sua primeira obra para o teatro, The King of Spain (1969), obra que se passava quase toda em silêncio e espantava praticamente todos os espectadores da platéia: “Stefan Brecht foi um dos poucos permaneceu até o fim da segunda apresentação de Rei da Espanha, e veio conversar comigo após a peça, me convidando para uma conversa. Ele disse que estava com A Ópera dos Três Vinténs em cartaz na Broadway, mas que a direção era completamente equivocada, e então me convidou para dirigi-la”.

Por ser um diretor estreante na ocasião, Robert Wilson não quis aceitar o convite. “Eu já tinha me esquecido do episódio com Stefan quando, há cerca de dez anos, o Berliner Ensemble me sondou, pois pretendia encenar a obra e queria saber se eu gostaria de assumir a direção. Acontece que Stefan e a irmã, Barbara, são rivais. Ela tem os direitos da obra do pai na Europa e ele tem os direitos nos Estados Unidos. E, para esta montagem do Berliner Ensemble na Alemanha, Barbara queria que sua filha dirigisse a peça. Além disso, ela se recusou a ceder os direitos a uma montagem minha, já que essa tinha sido uma ideia de seu irmão”, contou ele. Ocorreu, entretanto, que a direção da filha de Barbara Brecht foi um fracasso e ela acabou liberando os direitos para a encenação de Bob Wilson.

Durante os ensaios, ele manifestou a vontade de convidá-la para assistir aos trabalhos, mas foi desencorajado por membros da companhia, que lhe contaram da fama da filha de Brecht: “Ela era famosa por criticar todas as montagens da obra do pai e inclusive por cancelar algumas montagens, desaprovação que vinha sempre na forma de um temido ‘Papa wouldn’t approve’ [Papai não aprovaria]. Então, quando chegou o dia da estréia, eu escrevi a ela perguntando se gostaria de assistir à peça, e recebemos como resposta um pedido de alguns convites para a noite de estréia. O dono do teatro, que também conhecia a fama de Barbara, se negou a enviar o número de convites solicitados por ela e eu então comprei os ingressos e os mandei. Depois do espetáculo, ela não foi ao camarim, deixando todos os integrantes da companhia muito nervosos. No dia seguinte eu telefonei para ela aflito e perguntei ‘E então, Barbara? O que você achou?’, ao que ela respondeu ‘Papa would approve’ [Papai aprovaria].”

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Legenda: Robert Wilson em cena da peça A Última Gravação de Krapp, de Samuel Beckett (Foto: Lucie Jansch/Divulgação)

Vº ATO – Apreciando o silêncio

Sesc Belenzinho, quarta-feira, 19, 21h. A Última Gravação de Krapp começa com uma estrondosa chuva. Os efeitos sonoros, somados à visualidade da chuva criada com efeitos de luz sobre o cenário, colocam o personagem da obra de Samuel Beckett, o septuagenário Krapp – interpretado por Bob Wilson – em um contexto sombrio. A solidão é acentuada por um ambiente quase vazio e burocrático (pilhas de papéis, caixas, arquivos e fitas; uma mesa com um gravador), de tons frios e impessoais. Os primeiros 20 minutos de peça se passam inteiramente em silêncio.

Krapp se prepara para gravar mais uma de suas fitas, ritual que executa anualmente, no dia do seu aniversário, deixando registrados os pensamentos e acontecimentos do ano anterior para futuras consultas. Neste ano, entretanto, o acaso faz com que escute trechos de uma de suas fitas antigas, de 30 anos atrás, em que narrava momentos de paixão e entrega. Ao se confrontar com a descrição descomprometida do amor e escutar, cristalina, a prova de que teve uma chance concreta de felicidade na vida – que perdeu, obviamente – Krapp oscila entre o cinismo e a compaixão.

Quase tudo é dito com os silêncios, as expressões faciais, com o corpo – que ora se contorce em dor, ora dança distraído de si no fundo da sala. Uma hora e 20 minutos de espetáculo se vão sem que a voz de Robert Wilson tenha sido pronunciada muito mais que dez vezes. Mas a sensação, ao deixar o teatro do Sesc Belenzinho, é a de que a voz do artista deixou uma marca profunda e permanente em todos que apreciaram o silêncio de Beckett aquela noite na atuação de seu melhor intérprete. 

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