Ardor e Fricção: experiência Amazoniana

A prática conjunta e o desejo de criar juntes como embriões de um acervo de arte das múltiplas Amazônias

Keyla Sobral, Orlando Maneschy

N° Edição: 49

Publicado em: 09/02/2021

Categoria: A Revista, Destaque

Midas (2009), de Armando Queiroz (Foto: Cortesia do artista)

É preciso ter conhecimento para adentrar a floresta. Respeito e cuidado. É preciso pedir licença, mesmo em um país colonizado e em chamas, precisamos ter respeito! Tudo parece muito distante e, ao mesmo tempo, tudo tão próximo. A física quântica já explicou. E nos deslocamos no espaço-tempo cruzando territórios, sempre a iminência do impacto final. Dos primeiros viajantes aos megaincêndios de 2020, a Amazônia atravessou diversos ciclos de “modernidades”, que transformaram decisivamente os locais em que ocorreram.

As estratégias do capitalismo têm seu requinte de sedução e sedação. Ambas seguem aliadas às práticas colonialistas. Por vezes é necessário dormir, dormir, dormir para acordar desse longo sono disposto à transformação, à luta para modificar e construir outras práticas; tentar estabelecer novas formas de existência, de permanência, de resistência. Caminhos de construção estando juntas, juntos, juntes.

Jurema, uma proposta de bandeira para o Brasil (2019), de Luciana Magno (Foto: Cortesia da artista)

É nesse cenário de sucessivos ciclos coloniais que a Coleção Amazoniana de Arte da UFPA nasce e se enraíza. Fruto de pesquisas na academia e de experiências estabelecidas na prática cotidiana, calcada em diálogos e trocas forjadas em processos coletivos e dialógicos, a Amazoniana encontra sua gênese em percursos empreendidos por distintos artistas e pesquisadores, que somam forças para potencializar seus desejos e viabilizar seus projetos. Talvez essa prática conjunta seja o embrião desta coleção: o desejo de criar juntes.

A prática de agrupamentos de artistas é uma estratégia política para a realização e acaba por contribuir para o debate e o aprofundamento do pensamento. Assim foi com a FotoAtiva, oficinas de fotografia idealizadas pelo fotógrafo e educador Miguel Chikaoka nos anos 1980, que com o tempo foi agregando diversos fotógrafos em suas experimentações em Belém. Mais do que ensinar a fotografar, Chikaoka estimulava o participante a descobrir sua linguagem por meio da imagem, da luz e do envolvimento coletivo. Esse tipo de experiência será determinante na adesão de diversos artistas ao projeto que constituiria a Amazoniana e em várias ações correlatas.

Em Hagakure, de Miguel Chikaoka, obra que abria a primeira mostra da Amazoniana: uma caixa de luz com três negativos transpassados por espinhos da palmeira tucumã, que atravessam as imagens dos olhos do fotógrafo em um convite para rever modelos e práticas

Fruto de um desejo de manter na região obras que nascem de exercícios significativos ao fazer de artistas, a coleção é resultado de processos de reflexão e acompanhamento da produção de arte, sedimentada na academia e subvencionada por agências de fomento. Ela pretende consolidar conhecimentos e conservar obras nesse território, empregando recursos públicos no bem público. E, claro, seu nome instiga se pensarmos em brasilianas em terras estrangeiras e aciona questões diversas sobre agenciamentos de poder e de construção de discursos.

Como sua origem é a pesquisa, relacionamos diversos processos que culminaram na sua constituição, desde projetos de iniciação científica desenvolvidos com estudantes universitários com recursos da UFPA, CNPq e Fapespa, até os subvencionados pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), sobre fotografia; e pela Fundação Nacional de Arte (Funarte), sobre videoarte. Estes alimentaram o desejo de pensar a produção e constituir um acervo de arte na Amazônia, que foi ganhando contornos por meio de pesquisas, curadorias e projetos até chegarmos ao Prêmio de Artes Plásticas Marcantonio Vilaça/Prêmio Procultura de Estímulo às Artes Visuais 2010, da Funarte, que viabiliza, por meio da exposição Amazônia, Lugar da Experiência, a elaboração do conjunto de obras que iniciaria a coleção Amazoniana e estabeleceria um campo de diálogos e trocas, com site e seminários, potencializando novos processos de enunciação. No ano seguinte, a partir da premiação do edital Conexões Artes Visuais (MinC/Funarte/Petrobras), em parceria com a UFPA, foi editado o livro Amazônia, Lugar da Experiência, trazendo não apenas as reproduções das obras e imagens das exposições, mas um conjunto de textos de artistas, pesquisadores que pensam a existência artística na região. Em 2014 criou-se a Seção Moda da Amazoniana, com a doação de obras e documentos do estilista André Lima e o ]Arquivo[ viria tempos depois.

Aqui não há romantismo
O que opera na constituição dessa coleção é a compreensão de que os artistas existem-resistem nesse ambiente de complexidade histórica, pois outrora éramos muitos, éramos outra coisa. Não éramos Brasil, mas sim o Estado do Grão-Pará e Maranhão (1751). Impossível não pensar como teria sido se…
Toda essa complexidade histórica, social, localizada ao pé do Equador, na periferia do Brasil, entre calor e água, com esses artistas que empreendem suas práticas através da sua vivência na região. Aqui não há romantismo, mas o embate diário com a vida, na fricção com o mundo, com o intuito latente de exercer esse protagonismo, o direito à fala. Apesar de tudo, apesar do outro, junto com o outro. Somos todos iguais, mas diferentes, mas para alguns ainda somos a parte dita-e-redita exótica do Brasil. A parte que incomoda, como uma porta que range.
Através do exercício de diálogo constante, desenhamos uma coleção que está em movimento, em expansão, arregimentando obras potentes que ativam discussões e reflexões sobre este território, construídas através de protagonistas em meio à travessia. Entender, escutar e trocar com os artistas e suas pesquisas fizeram e fazem a base desta coleção. Estar sempre atento às pulsões que pululam feito vagalumes a iluminar a densa e úmida floresta, atentos àquilo que faz sentido à existência em um mundo no qual tudo é mercadoria.

Precisamos aguçar os sentidos, abrir os olhos, rasgar o véu que nos impede de ver mais além. Perfurar a menina dos olhos como em Hagakure, de Miguel Chikaoka, obra que abria a primeira mostra da Amazoniana: Amazônia, Lugar da Experiência (2011). Na obra, uma caixa de luz com três negativos transpassados por espinhos da palmeira tucumã, que atravessam as imagens dos olhos do fotógrafo em um convite para rever modelos e práticas, focando em conduta ética, partindo da entrega daquele que serve. “Furar meus olhos, gentilmente fotografados por Alberto Bitar, foi uma experiência emblemática, um rito de passagem para seguir com luz, além da imagem”, atesta o artista.

Muitas das obras presentes na Amazoniana se concretizam ao olhar com agudeza para essa região. Paula Sampaio é uma artista que há décadas cruza a Amazônia por suas estradas, tantas e quantas vezes documentando a vida dos habitantes, com seu olhar requintado, em que pessoas e natureza estão em complexas relações. São muitos os Antônios e Cândidas que têm sonhos de sorte, frustrados e iludidos pelos inúmeros projetos de desenvolvimento. São famílias que Sampaio encontra e reencontra ao longo dos anos, em um grande retrato dos brasileiros entregues à própria sorte.

Tatiane Nascimento – Rod Belém – Brasília, São Miguel do Tocantins TO, Exposição Amazônia (1998), de Paula Sampaio (Foto: Cortesia da artista)

Em sua fundação, a Coleção Amazoniana constituiu-se com a participação de 31 artistas, divididos em duas mostras, duas intervenções urbanas, como a de Lucas Gouvêa e Éder Oliveira. Eles, para além das obras no museu, ocuparam pontos da cidade. Oliveira realizaria pinturas murais e numa delas figura Quintino, gatilheiro famoso nos anos 1980, que finda por se aliar aos excluídos, sendo chacinado. Misto de bandido e herói, ele é símbolo da complexidade que envolve a questão agrária na região. Também com forte tônica de crítica social, Lúcia Gomes vai contribuir, em performances e intervenções urbanas contundentes sobre as questões sociais. Em Nem Que L. Faça 100 Anos, um tufo de cabelo repousa em uma colher, em alusão à jovem presa em uma cela com homens no Pará; em outra obra, a artista desloca um barco típico da região para o aterro sanitário de Belém e ali desenvolve ações com a comunidade de catadores e convidados. Armando Queiroz, ao integrar este primeiro momento, faz um recorte do seu projeto sobre o garimpo de Serra Pelada e aparece em sua performance para vídeo Midas, cheia de metáforas. Devorando e devorado, como as bocas banguelas nos moldes das arcadas dentárias dos garimpeiros presentes em Ouro de Tolo, douradas com ouro falso.

Belém ululante
Múltiplas narrativas contra-hegemônicas figuram nestes e em outros trabalhos presentes na Amazoniana, como na Coleta do Orvalho e em outras performances do Grupo Urucum, de Macapá; e ainda nas obras de Thiago Martins de Melo, Dirceu Maués, Patrick Pardini, Raquel Stolf, Victor de La Rocque, Rubens Mano e Roberto Evangelista, este último com seu manifesto fílmico ecológico Mater Dolorosa – In Memoriam II, vai abordar ancestralidades e violência – esta que nunca deixou de acontecer nesta zona equatorial. Alexandre Sequeira, Maria Christina, Jorane Castro, Cláudia Leão, Luciana Magno, Patrick Pardini, Rubens Mano, Danielle Fonseca e Oriana Duarte partem de vivências em lugares específicos para construir suas narrativas no mergulho da experiência. Duarte montará sua instalação Barco em plena feira do Ver-o-Peso e tomar sua sopa de pedra. Assistir ao vídeo da performance no Gabinete de Souvenirs, Sopa de Pedra nos dá a dimensão de uma Belém ululante dos anos 1998.

O Açogueiro – Auto retrato com alcatra (2013), de Victor de La Rocque (Foto: Cortesia do artista)

Numerosos experimentos em que a imagem ainda aciona afetos, memórias e histórias. Melissa Barbery constrói um jardim de objetos luminosos para discutir o consumo e o descarte da natureza; Roberta Carvalho projetará os rostos dos ribeirinhos na paisagem, paisagem atravessada e também ressignificada em imagens como nas desenhadas por Acácio Sobral sobre fotografias e em mini-instalação de Val Sampaio, O Jogo, ou Para Que Servem os Amigos? Talvez uma dica esteja no objeto, copo americano de Armando Queiroz, que convida o visitante com seu título: Aparelho para Escutar Sentimentos, que eclodem nas imagens de Elza Lima, Octávio Cardoso e Luiz Braga, que revelam facetas diversas dos povos deste lugar em imagens que implicam respeito e cumplicidade. Finalizavam esse conjunto de mostras as sessões de Invisíveis Prazeres Cotidianos, de Jorane Castro, no Cinema Olympia – o mais antigo em funcionamento no País. O filme reuniu blogueiros para, através de seus olhares, tentar recompor uma cidade da memória por meio de fragmentos e pedaços de olhares alheios.

Afinal, Somos Todos Invisíveis, clama o led em vermelho de Keyla Sobral, não somos?! Agora não dependemos mais de olhos para nos protagonizarem, fazemos nós mesmos o nosso levante, nossa visibilização. Silenciosa, a frase ecoa e reverbera no rebatimento de sua luz vermelha sobre outras imagens que gritam como as obras de Milton Guran, Anna Kahan, Sávio Stoco, Paula Sampaio, Éder Oliveira e Nayara Jinknns, que reencontram outras de Victor de La Rocque, Nina Matos e Luciana Magno, que revisitam as imagens de viajantes; Danielle Fonseca, que surfa num piano, e Paulo Meira, que atravessa ilhas e costura memórias em cabeças de peixe. Podemos ver como Marise Maués surge imponente no meio de um igarapé, onde fica imóvel durante cerca de sete horas, testando ali o limite do próprio corpo, acompanhando o ritmo da cheia e da vazante, seu corpo-rio, seu corpo-floresta, seu corpo-tempo; ou como Juliana Notari também apresenta esse corpo-limite numa performance realizada na Ilha de Marajó, onde é amarrada num búfalo e segue sendo arrastada por ele numa praia e, no dia seguinte, como momento mais pungente, come o testículo cru do animal que foi castrado. Também em situações que tensionam limites, temos Rafael Matheus Moreira, com seus retratos de travesti, e Giuseppe Campuzano e Carlos Pereyra, com performance orientada para a fotografia Dolorosa, para além do corpo normatizado, o re-corpo.

Ainda há a participação de obras bastante significativas para a construção de narrativas, como o trabalho de Oswaldo Goeldi, Kurt Klagsbrunn, Aloísio Carvão, Osmar Dilon e Jair Júnior, chegando ao Zero Cruzeiro, de Cildo Meireles e O NÃO PAÍS – Adita-Adura, de Cristovão Coutinho, que emociona, porque é forte e atual: uma bandeira brasileira onde se nota a ausência do círculo azul que representa os estados, juntamente com a frase Ordem e Progresso, como se anunciando tempos sombrios, tempos cheios de tensão, tempos irreversíveis?! Trata-se de um chamamento para um despertar, para uma reação, um vestígio de um levante futuro em uma obra concebida em 1985. Nestas obras, diversas facetas de olhares para a região em imagens, que implicam respeito, cumplicidade, tomada de posição.

Há artistas colaboradores cujas presenças se repetem, seja em novas proposições, seja em obras, como Armando Queiroz e Marcelo Rodrigues, Jair Júnior, Nayara Jinknns, Luciana Magno, Marise Maués, Octávio Cardoso, Paula Sampaio e Keyla Sobral, dentre outros, bem como novos participantes, entre os quais Pablo Mufarrej, Margalho, Marcone Moreira, Bené Fonteles, Flavya Mutran, Emmanuel Nassar e Marinaldo Santos, que se dedicam a pensar intensamente sobre memória, história e cultura neste território.

Intervenção na Rua da Marinha, dentro do Projeto Amazônia, Lugar da Experiência (2012), de Éder Oliveira (Foto: Cortesia do artista)

Existência-resistência
O corpo e suas distensões performativas aparecem ainda nas obras da Cia. Moderna de Dança, nas de Emerson Munduruku, com sua Uýra Sodoma (link para matéria), ente drag ecológica e nas Sereias Superzentai de Rafael Bqueer (link para matéria). Allyster Fagundes, Bianca Levy e Edivânia Câmara Ilundê performatizam e transcendem criaturas míticas. Guy Veloso traz com suas imagens insurgentes fé e fantasia, tal qual a fantástica história do pássaro de Walda Marques, com seus personagens de uma Amazônia surreal. No Deslendário Amazônico, múltiplos olhares somam-se em revisões e críticas e nos deparamos com o nosso próprio retrato, como no busto de Elieni Tenório, Eu, índia, em que a artista subverte a importância desse tipo de objeto escultórico para, em seu autorretrato, elevar a identidade de tantos indígenas e mestiços que habitam este ambiente.

O que se pretende com esse ambiente que ainda está fragmentado, dividido, é buscar unir-se em um lugar para tentar comportar algo que escapa, que não se comporta, que não cabe em arquivos digitais

A Amazoniana abarca entrecruzamentos, perspectivas e visões heterogêneas de uma região que é múltipla. Esse pluralismo que afirma a existência-resistência de um fazer artístico dentro da Amazônia, das variadas Amazônias. O que nos importa é esse fluxo e trocas de saberes, de um olhar pictórico, um olhar performático, como no trabalho de Rafael Matheus Moreira, que retorna à Amazoniana como outros, constituindo fluxos em seus processos de criação, a partir da reflexão sobre a emblemática pintura da Fundação de Belém. Nela, o artista apresenta o colonizador morto nos braços das Iaras, atingido pela flecha de uma nativa do paraíso em chamas, apresentando um corpo desobediente e político que tensiona o agora.

O que faz com que essas obras tenham em comum com as teses, fotografias, livros de artistas no ]Arquivo[ Amazoniana? O que significa a Pedra de Raio, livro de artista de Ionaldo Rodrigues, que olha atentamente para estas bandas desta terra incógnita? Talvez nos lembre que é preciso arar o solo. O que se pretende com esse ambiente que ainda está fragmentado, dividido, é buscar unir-se em um lugar para tentar comportar algo que escapa, que não se comporta, que não cabe em arquivos digitais, mapeamentos e plataformas, e que é pensado para o outro, para o debate, a troca, a pesquisa.

Isso passa por um processo coletivo de qualificação museológica por meio de parceria com o Projeto Tainacan e toda a sua equipe. Nesse contexto, ampliando a perspectiva, temos a museóloga Paola Maués, bem como os estudantes Guido Elias, Moema Correa, Thais Palheta, Joel Silva e Letícia Carvalho, que se somam a tantos outros parceiros pesquisadores com quem estabelecemos trocas, como Bernardo Baía, Christian Bendayan, Carmen Palumbo, Marcela Cabral, Marisa Mokarzel, Paulo Herkenhoff, Rosangela Britto, Sávio Stoco, Susane Pinheiro, Tadeu Costa e Yorrana Maia.

São diversos os ângulos em diversificadas visões sobre a Amazônia. O Bom Selvagem cansou de ser servil. Queremos apenas existir em nossos modos de vida. Os caraíbas pouco entenderão. O capitalismo não permite.

Talvez fique aqui uma interrogação, o desejo de ligar, de pensar em toda essa potência de construção nas bordas do poder, para quebrar as práticas coloniais cotidianas, em um lugar que já teve poder, que não era Brasil e que precisa se descolonizar. Assim, desnortear é preciso; afirmar que não há um único centro, e em meio a aproximações e discordâncias encontrar, entre fazeres e fricções, este lugar, com estas múltiplas Amazônias e construir um Comum. Quem sabe esse local de trabalho brabo e de sonho afetuoso seja a Amazoniana, um lugar do pensamento estando juntes.

Uiaras Defendendo o Paraíso (2019), de Rafael Matheus Moreira (Foto: Cortesia do artista)

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