Arqueologia do presente

Luciana Pareja Norbiato

Publicado em: 21/02/2014

Categoria: Crítica, Review

O norte-americano Daniel Arsham, da dupla de designers Snarkitecture, exibe trabalhos que dialogam com a arquitetura e com a voracidade da obsolescência tecnológica

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Legenda: Obra que utiliza carro queimado faz alusão às manifestações recentes na mostra Volcanic Ash, Rusted Steel

E se a Terra tivesse acabado na virada do século 21 em meio a lava vulcânica, o que encontrariam os arqueólogos do futuro? É essa a questão que fica ao fim da visita à exposição Volcanic Ash, Rusted Steel, do norte-americano Daniel Arsham. Artista e designer, integrante da dupla Snarkitecture, Arsham exibe em sua versão solo um vídeo, pinturas e esculturas que exploram a relação com a arquitetura e com a tecnologia já obsoleta.

É o caso das câmeras Hasselblad e Polaroid feitas com gesso, cinza vulcânica e toques de vidro e quartzo rosa, em cores mais ou menos escuras de acordo com a concentração de cinza utilizada (veja galeria). Junto delas, esculturas de televisões, laptops e celulares imprimem uma nostalgia do tempo recente, que consome suas próprias descobertas com velocidade recorde e voracidade implacável. Objetos quase natimortos na corrida pela tecnologia mais inovadora.

Esse estado de espírito dá o tom do vídeo Future Relic 01, protagonizado por um arqueólogo hi-tech em uma era muito além da atual. Segundo o artista, o personagem foi criado nos moldes de Laurence da Arábia, aqui em versão cool e moderna. 

As implicações arquitetônicas figuram nas pinturas p&b em guache, paisagens em que surgem deslocadas, como que submersas, partes de construções. Também no relógio que escorre pela parede aparentemente derretida, e no Opala 1976 queimado, que alude às manifestações do ano passado. O veículo surge no meio do galpão da Baró soterrado por partículas de cristal, em um diálogo com as ferragens da própria estrutura que o abriga.

Esse conjunto de elementos, sejam os objetos já inutilizados por novos adventos, sejam as construções que ali aparecem sempre onde não são necessárias, remetem a uma leitura sutil do tempo presente. São o rastro que testemunha a impossibilidade de satisfação contemporânea, na busca pelo recurso ou espaço que seja a resposta redentora a um mundo cada vez mais múltiplo e aberto.

Daniel Arsham – Volcanic Ash, Rusted Steel, até 29/3, Baró Galeria, R. Barra Funda, 216, SP

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