Arquitetura da destruição

Guilherme Kujawski

Publicado em: 04/03/2014

Categoria: Crítica

Declaração de Zaha Hadid coloca em questão os limites e deveres morais de um arquiteto

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Legenda: Indígenas constroem a maquete de uma moradia tradicional Kamaiurá na UNB (foto: Rachel Mortari)

Uma notícia na semana passada manchou um pouco a imagem dos chamados starchitects: Zaha Hadid, arquiteta iraquiana de renome internacional, afirmou que a morte de mais de 500 trabalhadores indianos na construção do estádio de futebol de Qatar, um de seus últimos projetos e símbolo arquitetônico mundial da próxima Copa do Mundo de 2022, não era um problema de sua alçada: “Não tenho nada a ver com os trabalhadores”.

Pode-se argumentar que um arquiteto não tem como controlar todas as variáveis de seu projeto, principalmente as que envolvem a fase da concretização. Mas será mesmo? Será que a senhora Hadid já ouviu falar de Lina Bo Bardi, ser humano maravilhoso que procurava considerar o contexto geral de seus projetos arquitetônicos (leia o ensaio Não há projeto sem programa, de Lisette Lagnado)? Claro que a função de um arquiteto não é ser um mestre de obras; mas um profissional que se preze, ao ser informado sobre as condições desumanas em que os trabalhadores de seu projeto estão sendo submetidos, deveria no mínimo se sentir ultrajado. E, se as notícias forem de mortes reais, tal profissional poderia ao menos conduzir a opinião pública a investir em um desagravo moral planetário. Deveria também cobrar indenizações. Enfim, poderia fazer qualquer coisa, menos revelar uma imoral e monstruosa insensibilidade.

Portanto, um thumb down à Sra. Hadid. Ademais, o design paramétrico na arquitetura já teve seu tempo, não é mais relevante, que o diga outro starchitect que segue essa linha, Santiago Calatrava (o excesso de geometria de seus projetos parecem não relevar um aspecto fundamental da engenharia civil: a resistência de materiais). Portanto, que as Hadids, Calatravas e Gehrys peçam para sair de campo. E que aprendam conceitos como “living architecture” e tecnologia de construção kamayurá. Também louvável é o prêmio oferecido pela Fundação Holcim aos melhores projetos de construção sustentável (dica da colaboradora da seLecT Mariel Zasso).

Apesar dos pesares, nem tudo está perdido…

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