Arquitetura Genérica

Niemeyer tornou-se grife e refém da sua equipe

Angélica de Moraes

N° Edição: 1

Publicado em: 30/11/2011

Categoria: A Revista, Crítica

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Projeto da nova catedral de Belo Horizonte, assinada por Niemeyer. (Foto: Croqui enviado pela Fundação Niemeyer)

Estão produzindo genéricos de Oscar Niemeyer. O princípio ativo parece o mesmo, o balconista da farmácia diz que o efeito é igual, mas não adianta: uma coisa é a fórmula original e outra coisa a sua diluição mercantil. Um dos mais recentes genéricos de Niemeyer foi aprovado pela Cúria Metropolitana de Belo Horizonte e pelo papa Bento 16: uma “nova” catedral para a capital mineira. A atual, concluída em 1932, em estilo neogótico-Disneylândia, certamente é bem pior, claro. Mas a atribuída a Niemeyer é feita de pedaços clonados da catedral de Brasília mixada com a calota da Oca do Ibirapuera, em São Paulo. Um susto.

Dois clássicos da arquitetura, recortados e colados sem um pingo de invenção, geraram um monstrengo indigno da assinatura Niemeyer, um dos mais importantes arquitetos brasileiros do século 20 no cenário internacional. Mas a assinatura está surpreendentemente lá. Niemeyer é refém da equipe de seu escritório de arquitetura? É roda de engrenagem que não pode parar, movida pelo fluxo de encomendas oficiais? Difícil afirmar. Certo mesmo é que a demanda incessante pela grife Niemeyer está produzindo banalidades impensáveis no currículo do autor da Pampulha.

A insistência em aviar contrafações grotescas para demandas da sinuosa e elegante obra de Niemeyer deve-se, em parte, à desinformação dos que fazem essas encomendas. Certamente, ignoram os rumos da arquitetura contemporânea no País e no mundo. Niemeyer é, hoje, um fato histórico. Algo assim como o glorioso Biotônico Fontoura ou o óleo de fígado de bacalhau. Sua obra mais importante já foi realizada e bem realizada há décadas, antes do fim do milênio. Aperto o botão delete para essa diluição da qualidade estética e da relevância criativa do legado de Niemeyer. É um legado de arquitetura moderna que não consegue nem precisa se mostrar vital na contemporaneidade. Precisa é ser protegido.

Publicado originalmente na #select1.

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