Arte, ciência e tecnologia na revista ARS

Conjunto de textos da edição 35 da revista permite uma leitura social e cultural dos usos da tecnologia e suas consequências na vida social

Leandro Muniz
Capa da edição 35 da revista ARS pelo artista José Dario Vargas Parra

A edição número 35 da revista ARS, editada pela professora e artista Silvia Laurentiz, investiga o limite das práticas de artistas que trabalham entre a arte e a investigação científica, discutindo a poesia própria dos métodos científicos e a ampliação de seus usos na produção cultural.

Com o objetivo de relacionar os campos da arte, ciência e tecnologia, a edição trabalha sob o conceito de “membrana” – forma mutável, que define elementos, mas permite trocas e interações entre o interior e o exterior de seus campos. Outra imagem utilizada pela autora como metáfora e estrutura para o pensamento sobre as membranas é a grade, citando o célebre texto Grids da crítica norte-americana Rosalind Krauss, publicado na revista October, em 1979. Como forma capaz de se expandir infinitamente, o grid é totalidade e fragmento, racionalidade e absurdo, sustentando polos opostos e ainda assim impossíveis de serem anulados. No editorial da edição, Laurentiz reconhece, no entanto, que em pouco tempo esses conceitos não terão poder explicativo para discutir os avanços da tecnologia e seus efeitos sobre as novas formas de subjetividade e de relações humanas. Para a editora, arte, ciência e tecnologia fazem parte de um mesmo fluxo cultural que deve ser atualizado, contextualizado e criticado. A precisamente este fim é que se dedica esta edição da revista do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA USP).

A capa, uma proposta de José Dario Vargas Parra, pós-doutorando em Geografia Urbana pela FFLCH, mostra uma imagem diagramática de linhas sinuosas, que ganha sonoridade e movimento por meio de um dispositivo de realidade aumentada, que o leitor pode baixar no celular. Parra também contribui com um ensaio visual baseado nos fluxos migratórios entre México e Estados Unidos, África e Europa, Venezuela, Colômbia e Brasil.

O editorial enfoca casos icônicos, como a Bienal de São Paulo de 1983, com curadoria de Walter Zanini, que já trazia diversas experimentações com vídeo, textos digitais e novas tecnologias, assim como a produção de teóricos, artistas e pesquisadores inaugurais desse campo como Julio Plaza, Georges Landow e Theodor Nelson e as mudanças de paradigmas trazidos pelas novas formas de produção e circulação de informação.

A edição conta com contribuições de um time internacional e heterogêneo de autores que, selecionados ou convidados para escrever sobre as relações entre arte, ciência e tecnologia sob o conceito de membranas, apresentam visões complexas, transdisciplinares e, por vezes, contraditórias dessas dinâmicas no momento atual.

Gonzalo S. Aguirre, professor e pesquisador da Universidade de Buenos Aires, apresenta uma atualização do conceito de técnica como produção discursiva técno-estética. O autor produz um diagrama conceitual das implicações estéticas da normatividade. Andrés Burbano, professor associado da Faculdade de Arquitetura da Universidade dos Andes, analisa alguns escritos do francês Hércules Florence para realizar uma arqueologia das mídias, resgatando os primórdios das relações entre arte, ciência e tecnologia nas expedições do século 19.

Em um texto a seis mãos, Fernando Luiz Fogliano, Daniel Malva e Melina Cesar Furquim discutem os usos e consequências da tecnologia na arte contemporânea. Já Sergio José Venancio Júnior discute como as ideias de autonomia, autoria e criatividade se transformam em um contexto de inteligências artificiais.

As mudanças tecnológicas geram mudanças em pontos fundamentais da experiência humana – da percepção às formas de relacionamento. Uma contribuição destacada é a da endo física, ciência que estuda sistemas nos quais o espectador participa ativamente dos processos de interação. Longe de estruturas onde emissor e receptor têm lugares fixos, há uma lógica de interfaces que gera novas dinâmicas sociais mais descentralizadas. Outros assuntos tratados são os impactos da mídia na experiência individual e coletiva, a neurociência, a percepção e a cultura do remix.

Um tópico interessante – já recorrente em um imaginário ficcional, explorado em filmes como Ela (Spike Jonze, 2013) por exemplo – é como o desenvolvimento das inteligências artificiais poderia superar a natureza humana, não apenas na análise de dados, fatos, estatísticas etc, mas também na expressão de emoções. Se o cérebro humano decifra alterações de expressão, odores ou gestos como códigos de um determinado sentimento, não é difícil que em breve as máquinas também atuem nesse campo.

O processo de institucionalização da relação entre arte, ciência e tecnologia, conhecida nos Estados Unidos e na Europa como ACT, é analisado mais detalhadamente no ensaio de German Alfonso Nunez, historiador da arte pela University of the Arts London. Se considerarmos os inúmeros festivais e eventos dedicados exclusivamente ao tema, seriam questionáveis e contraditórias as separações desse tipo de produção do restante da arte contemporânea, o que o autor atribui aos contextos políticos de onde emerge essa produção.

Nunez enxerga os antecedentes históricos da ACT no pós-guerra, em inevitável associação entre os desenvolvimentos tecnológicos decorrentes da Guerra Fria, a pesquisa acadêmica e as possibilidades de ampliação de mídias para a comunicação, para a imprensa e para a arte. O texto também analisa os desdobramentos dessa produção em países na periferia do capitalismo, como o Brasil.

Os padrões impostos pelas mídias – consequentemente uma normatização da percepção e das relações – são discutidos no ensaio de Gabriel Menotti, professor no Departamento de Comunicação na UFES (Universidade Federal do Espirito Santo). Ele aborda a naturalização do formato horizontal do vídeo, enquanto as projeções e telas verticais encontram limites em seus próprios dispositivos, uma convenção que se reflete em práticas curatoriais e nas próprias estruturas dos discursos: a linguagem determinando formas e conteúdos.

Textos como os de Luisa Paraguai, pesquisadora e docente, e da artista Loren Bergantini, estão entre os poucos que analisam obras propriamente ditas, extrapolando uma leitura puramente formal, sem transformar o objeto ou a proposta artística em ilustração de um conceito ou pura especulação teórica.

Longe de uma abordagem positivista e mecanicista, o conjunto dos textos permite uma leitura social e cultural dos usos da tecnologia e suas consequências na vida social, promovendo uma leitura de sistemas complexos que envolvem tanto os dados quantitativos, quanto históricos e subjetivos dessa produção.

As relações entre arte, ciência e tecnologia não se dão apenas pelos modos de apropriação mais diretos de um campo sobre o outro, mas também por relações indiretas, como transposição de conceitos ou metodologias que acabam por desconstruir o mito de uma objetividade absoluta.

A revista ARS é uma revista acadêmica de profundidade de pesquisa, que articula a reflexão crítica, própria à universidade, com o interesse pelas questões mais prementes no mundo da arte e sua relação com o contexto social. Esta edição fornece um panorama de questões que permite entender as relações entre arte e tecnologia, não apenas em suas formas instrumentais, mas em seus desdobramentos no corpo, na economia e na sociedade.

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