Arte contemporânea afrodescendente

Tadeu Chiarelli fala sobre a aquisição de obras de artistas contemporâneos afrodescendentes para o acervo da Pinacoteca de São Paulo

Tadeu Chiarelli
Linguagem (2015), de Bruno Baptistelli, novo trabalho do acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo (Foto: Gui Gomes)

Durante minha gestão como diretor-geral da Pinacoteca de São Paulo (2015-2017), a entrada de obras de artistas contemporâneos afrodescendentes para o acervo teve, de início, duas justificativas que se complementavam. Por um lado, o interesse de – no âmbito das comemorações dos 110 anos da Pina – prestar uma homenagem a Emanoel Araujo (primeiro diretor negro da instituição). Em suas atividades como diretor da Pinacoteca, Emanoel enfatizou bastante o crescimento da coleção de artistas afrodescendentes dentro do acervo e queríamos enaltecer esse seu feito.

Por outro lado, sempre tive um interesse grande pela produção de artistas contemporâneos afrodescendentes, que acompanho há décadas, porque penso ser, no mínimo, hipócrita qualquer reflexão sobre arte contemporânea no Brasil sem levar em conta essa produção. (Só para lembrar: primeira exposição mais significativa que Rosana Paulino participou foi A Fotografia Contaminada, no Centro Cultural São Paulo, em 1994, a meu convite; fui o primeiro a escrever sobre a produção de Sidney Amaral no início de sua carreira; quando diretor do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP), entre 2010 e 2014, entraram para o acervo daquele museu obras de Rommulo Vieira Conceição e Flávio Cerqueira.)

Da confluência desses dois interesses surgiu a ideia da mostra Territórios – Artistas Afrodescendentes no Acervo da Pinacoteca, ocorrida na Pina Estação em 2015, sob minha responsabilidade. Naquela ocasião entraram para o acervo do Museu obras de Sidney Amaral, Flávio Cerqueira, Rommulo Vieira Conceição, Jaime Lauriano e Rosana Paulino.

Territórios, mesmo circunscrita a um interesse fundamentalmente institucional, foi a primeira mostra que reuniu um núcleo significativo de artistas contemporâneos afrodescendentes num museu mainstream paulistano, em muitos anos (é claro que excetuo aqui o Museu AfroBrasil).

Fora do âmbito de Territórios, entraram para o acervo da Pina, mais recentemente, obras de Bruno Baptistelli e Sidney Amaral, recém-falecido. As pinturas e os objetos de Amaral, por sua vez, integram a mostra Metrópole: Experiência Paulistana (em cartaz na Pina Estação até setembro), em que as obras de artistas afrodescendentes, como as dele e as de Renata Felinto, Jaime Lauriano, Flávio Cerqueira e Moisés Patrício, são dispostas em diálogos com produções de artistas de outras origens. É dessa maneira, na verdade, que gosto de ver essas produções, embora nunca descarte a possibilidade de refletir especificamente sobre elas, como foi o caso de Territórios.

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