“Arte contemporânea vai virar favela”

Profecia de Maxwell Alexandre se realiza plenamente na ArtRio 2022

Juliana Monachesi

Publicado em: 17/09/2022

Categoria: Crítica, Da Hora, Destaque, Mercado de Arte

Vista do projeto SOLO do artista Maxwell Alexandre na ArtRio 2022 [Foto: Cortesia Galeria A Gentil Carioca]

A afirmação do artista carioca em transmissão pelos stories de seu perfil no Instagram poucos dias antes da abertura da ArtRio ocorreu no contexto de um debate que já vinha se desenrolando há pelo menos dois meses na rede social, envolvendo críticas feitas por outro artista do Rio de Janeiro, o polemista Álvaro Seixas, e o próprio Maxwell Alexandre. Em resposta a uma série de postagens repercutindo a discussão, Maxwell explica que a questão central não é sobre uma pessoa em particular: “É sobre vocês. É sobre a branquitude”.

No vídeo, entrecortado por printscreens que mostram diferentes opiniões e posicionamentos postados nas redes, o artista comenta ponto a ponto as controvérsias. “Vocês acham que racismo é só quando o mano chama o outro de macaco. Todo racismo velado, a sutileza estrutural que acontece, vocês não conseguem ver que é racismo.” Depois de mostrar a imagem de um textão que pede que os dois se sentem para conversar, Maxwell prossegue: “Esse lugar de ficar numa mesa debatendo, esse é um choque de realidade que vocês vão começar a tomar agora, é completamente acadêmico, é o mundo das ideias. Quem é que pode esperar que as ideias encontrem a prática? São vocês, brancos. Pra gente, isso não chega. Pra gente, na prática, é morte.”

Maxwell Alexandre argumenta que o choque de contexto sendo criado no presente tem relação com a bolha em que grande parte dos agentes da arte vivem, pouco acostumados com a violência. Conta que foi procurado por gente que se queixou de que “a coisa tá ficando feia”, mas que não é mesmo pra ser bonito, “distribuição de violência”, afinal por que a narrativa hegemônica sempre atribui a violência aos negros? “Quem fica bolado é porque deve estar doendo. E dói mesmo. Vocês se vêem no cara. Parece que estão quebrando as pernas, enxergando uma real que é intragável. O mundo foi prometido pra vocês e quando a gente começa a ter oportunidade e a igualar, e a superar, deve ser desesperador mesmo.”

Entre os comentários e reclamações do “tá ficando feio”, o artista destaca a recorrência do argumento de que a arte é “o lugar das ideias”, ao que responde sem cerimônia: “Vai virar favela. Arte contemporânea vai virar favela. Vai ficar feio, porque vai ficar de verdade. Aí, quem sabe, vai começar a mudar.” A “treta” ficou nos trending topics dos corredores da ArtRio nos dias de montagem e na inauguração. Assunto incontornável, urgente, que está escancarado em inúmeras obras expostas na feira, a começar pelo projeto solo do próprio Maxwell, que veda a entrada ao espaço expositivo com portas que o artista usou como suporte para retratar policiais. As outras pinturas, lá dentro, podem ser entrevistas pelos vãos entre as portas, e uma fresta um pouco maior possibilita a entrada.

As violências veladas sobre as quais o artista fala, que carregam de racismo a experiência cotidiana da população negra no Brasil, só vão acabar quando o debate mudar: o debate da arte precisa ser racializado, a branquitude deve ser racializada, é urgente racializar o privilégio, discutir todas as coisas do ponto de vista racial e entender que ser branco no Brasil é habitar o lugar do racismo. Brancos não vão deixar de ser brancos e negros não vão deixar de ser negros, mas poderíamos todes deixar de ser hipócritas e começar a falar sobre a violência que nos atravessa e instaura essa guerra civil que perdura há 522 anos. É sobre isso. E na ArtRio deste ano cabalístico o tema está evidente para quem quiser ver.

Santo (2022), de Miguel Afa, exposto pela Danielian Galeria

No estande da Danielian Galeria, a pintura Santo (2022), de Miguel Afa, retrata um senhor negro descendo uma escadaria em uma favela. Ele carrega uma porta, que não consigo não associar às portas pintadas por Maxwell Alexandre, expostas no pavilhão ao lado. Afa é um pintor que vive no Complexo do Alemão. A Danielian é vizinha da Simões de Assis na feira. Pretos e Pardos na Piscina (2022), de Zéh Palito, é uma das obras que a galeria de Curitiba/São Paulo levou para a ArtRio. A pintura é apresentada ao lado de uma escultura de Mestre Didi, na parede externa do estande. Lá dentro, outra parede é dedicada a obras de Emanoel Araújo, o artista e curador que dedicou a vida a empretecer os museus por onde passou, do MAM da Bahia à Pinacoteca de São Paulo, culminando na criação do Museu Afro Brasil.

Um pouco mais adiante, no estande da Galeria Inox, trabalhos de Brendon Reis e Jefferson Medeiros mostram dois aspectos complementares da arte preto-brasileira: a crítica social, contundente nas esculturas de Medeiros, e a autorrepresentação, diáfana e bela nas pinturas de Reis. A galeria vizinha de frente à Inox, a brasiliense Karla Osório, expõe um grupo de obras de Matheus Marques Abu, artista autodidata que vem colocando em primeiro plano em seus trabalho bi e tridimensionais a relevância cultural dos Adinkras, adornos de matriz africana usados para transmitir conhecimentos ancestrais de forma codificada pelos povos escravizados, um símbolo da resistência afrodiaspórica.

A Aura Galeria, em parceria com a MT Projetos de Arte, realiza mostra solo do cuiabano Gervane de Paula. A Rodrigo Ratton dá aula de curadoria fazendo uma aproximação entre as pesquisas de Manuel Carvalho, Jaider Esbell, Maria Lira Marquês e Ana Paula Sirino; enquanto a Galeria Movimento aposta na assertividade política da arte de Marcos Roberto, Pedro Carneiro e Hal Wildson. No segundo corredor da seção Panorama, mais encontros felizes: o estande d’A Gentil Carioca reúne obras do Novíssimo Edgar e de Marcela Cantuária; a estreante Galatea promove mostra solo de Allan Weber; a Sé apresenta trabalhos recentes de Edu de Barros e Davi de Jesus do Nascimento; lá no final, a Galeria Radiante realiza a expo Pororoca, do duo Brendon Reis & Julio Cesar Aristizabal.

Este percurso pela ArtRio é um roteiro possível, entre outros. Mas ele aponta uma transformação na arte contemporânea brasileira que veio para ficar e, no marco desta edição da feira, com o posicionamento contundente de Maxwell Alexandre, demonstra ser um caminho sem volta. Oxalá!

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