A perseguição de Segall

Museu Lasar Segall e MAC USP revisitam as repercussões da Exposição de Arte Degenerada no Brasil

Ana Magalhães
Eternos Caminhantes (1919), pintura de Lasar Segall (Fotos: Divulgação)

Há pouco mais de 80 anos, em plena era nazista na Alemanha, Munique recebia a chamada Exposição de Arte Degenerada. Aberta logo em seguida à inauguração da Exposição de Arte Alemã, reuniu algumas centenas de obras de arte moderna, confiscadas pelo regime nazista no intervalo de pelo menos três anos, dispostas juntamente com obras produzidas por pacientes psiquiátricos, de modo a condenar toda sorte de experimentação, autonomia e liberdade de criação artística.

Essa combinação revestia-se de requintes de perversão… Primeiro, porque a comparação entre a arte moderna e as imagens produzidas dentro de hospitais psiquiátricos por pacientes mentais era usada como um fator de condenação da produção moderna. Se a vanguarda artística dos anos 1910 e 1920 tinha se aproximado das teorias psicanalíticas e tinha se fascinado com a chamada arte do inconsciente, vendo aqui uma potência criativa e outras chaves de acesso ao conhecimento, a comparação proposta pelos nazistas baseava-se em teorias de eugenia e remetia aos discursos cientificistas tacanhas que fundamentaram uma visão hierarquizada de “raças humanas” e de seres mais ou menos capazes, com mais ou menos direitos. Em segundo lugar, porque as obras modernistas ali presentes tinham essencialmente duas procedências. Parte delas tinha sido coletada nos museus públicos alemães. Mas em grande parte eram oriundas do confisco promovido com o aprisionamento e confinamento de famílias judias, entre outros inimigos do regime, em campos de extermínio. Portanto, a presença mesma daquelas obras sinalizava para um genocídio em proporções jamais vistas na história da humanidade – e de uma humanidade supostamente civilizada. Por fim, as obras de arte de autoria dos pacientes psiquiátricos provinham de uma das coleções mais importantes do gênero na Europa: a coleção do psiquiatra e historiador da arte Hans Prinzhorn, que desde a década de 1890, vinha reunindo objetos e imagens produzidas por seus pacientes, de clínicas da Suíça, Áustria e Alemanha, e cujo livro A Arte dos Doentes Mentais (originalmente publicado em 1922) foi marco fundamental na pesquisa e análise dessa produção. Prinzhorn teve estreita ligação com os surrealistas e suas teorias foram disseminadas em vários países, inclusive no Brasil, onde o psiquiatra Osório César (atuante no Hospital do Juqueri, crítico de arte e, por um período, marido de Tarsila do Amaral) também procurou promover a reflexão crítico-estética das imagens do inconsciente. Prinzhorn não teve controle sobre essa usurpação de suas coleções, pois havia morrido em 1933.  

Autorretrato III (1927), de Lasar Segall

Do outro lado da rua, a Exposição de Arte Alemã estabeleceria os parâmetros classicizantes a partir dos quais a arte da “Nova Alemanha” deveria se pautar. A mostra foi abrigada num edifício construído para tal finalidade, que até a queda do Regime Nazista abrigou mostras anuais da dita “Arte Alemã”. Adotando os padrões de um templo grego, o edifício viria a ser a “Casa da Arte Alemã”, e nas décadas seguintes redimiu-se de seu papel original renomeando-se como “Casa da Arte”, tendo hoje à sua frente o curador africano Okwui Enwezor. Foi assim, portanto, que a Alemanha do pós-guerra, e sobretudo aquela que emergia do processo de reunificação, nos anos 1990, fez com que a “arte degenerada” literalmente atravessasse a rua e subvertesse os sinais, cicatrizando as feridas abertas de um país sobre o qual pesava a grande tragédia do holocausto.

Arte degenerada em discussão
Toda essa discussão poderia parecer para nós, aqui no Brasil, muito distante, não fosse por dois aspectos. O mais imediato deles é o fato de que estamos em meio a ataques violentos contra a arte e as instituições artísticas, numa forma assustadoramente parecida com aquela estratégia nazista. Conceber uma exposição que recoloque em discussão a Exposição de Arte Degenerada é imperativo em nosso momento atual. Mas para além disso, a exposição A ‘Arte Degenerada’ de Lasar Segall: Perseguição à Arte Moderna em Tempos de Guerra, com curadoria de Helouise Costa e Daniel Rincon, traz material inédito sobre a presença de obras de Lasar Segall na mostra alemã e sobre as repercussões da exposição no Brasil. Numa parceria entre o Museu de Arte Contemporânea da USP e o Museu Lasar Segall, a exposição que fica em cartaz até 30 de abril foi possível graças às pesquisas que Costa e Rincon vêm desenvolvendo dentro de suas instituições. Helouise Costa já havia se interessado pelo tema, ao ser chamada a curar uma das edições de Obra em Contexto, no MAC USP, em 1998, ao analisar a gravura “A santa da luz interior”, de Paul Klee, do acervo do museu, e sua participação na Exposição de Arte Degenerada, em 1937. Daniel Rincon está desenvolvendo seu mestrado na FFLCH USP, sob orientação de Francisco Alambert, sobre a exposição que é um dos motes da mostra agora no Museu Lasar Segall: a chamada Exposição de Arte Condenada pelo III Reich, promovida pela Galeria Azkanazy, na Casa do Estudante, no Rio de Janeiro, em 1945. As atividades do galerista por trás da Galeria Azkanazy, bem como a descoberta de fotografias de paradas anti-nazistas no Rio de Janeiro, realizadas pelo imigrante judeu Kurt Klagsbrunn são novas fontes que emergiram em torno do papel do Brasil no cenário internacional durante da II Guerra Mundial. Elas também são reveladoras da atuação da propaganda nazista entre nós, durante a Era Vargas, e da mudança de clima a partir do momento em que o Brasil entrou na guerra ao lado dos Aliados.

Homem e Mulher (1917) litografia de Lasar Segall

 

De 25 a 27 de abril, o MAC USP abrigará o Seminário Internacional “Arte degenerada – 80 anos: repercussões no Brasil”. Coordenado pelos dois curadores da mostra, sua programação contará com a presença dos pesquisadores alemães Olaf Peters (Martin-Luther-Universität Halle-Wittenberg) e Meike Hoffmann (Freie Universität Berlin), que falarão, respectivamente, das pesquisas de procedência que a Alemanha e a União Europeia tem levado adiante e processos de repatriamento de obras de arte, e sobre a famosa coleção de Hildebrand Gurlitt. Ao lado deles, especialistas brasileiros abordarão o contexto brasileiro e suas relações com o antissemitismo, a imigração, o ativismo anti-nazista por parte de intelectuais e artistas brasileiros, nos anos 1930 e 1940.

Trazer esse debate para o Brasil, quando o Museu do Louvre acaba de abrir um espaço para expor obras que foram saqueadas durante a ocupação nazista na França (1940-44), é da maior relevância. Nossos principais museus de arte, principalmente no caso paulista, adquiriram obras que não fosse essa circulação forçada em massa, promovida pelos nazistas, de coleções inteiras e de pessoas, simplesmente não estariam à disposição para venda e para virem parar entre nós. A mostra no Museu Lasar Segall e o seminário de abril, no MAC USP, são, portanto, muito oportunos para se discutir questões jamais tratadas pela nossa historiografia da arte.

Fotografia de Kurt Klagsbrunn que registra manifestação antifascista no Rio de Janeiro em 1945

 

Serviço
Exposição A “Arte Degenerada” de Lasar Segall: perseguição à arte moderna em tempos de guerra
Museu Lasar Segall
Rua Berta, 111 – São Paulo
Até 30/4/2018
museusegall.org.br

Seminário Arte Degenerada – 80 Anos: Contexto e Repercussões no Brasil
MAC – USP
Av. Pedro Álvares Cabral, 1301 – São Paulo
25 a 27 de Abril de 2018
mac.usp.br

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