Arte do vil metal

Zeitgest, instalação de Lourival Cuquinha na Baró Galeria, espacializa a complexidade das relações entre arte e mercado

Ana Maria Maia
São Paulo, SP,08.03.2013, Rickshaw obra do arista plástico Lourival Cuquinha, no Jack Pound Financial Art Project, exposta na Galeria Baró em São Paulo.Foto : Ricardo Lima/Photografie

A individual de Lourival Cuquinha adota a estratégia do acúmulo para falar de extinções. No galpão da Baró Galeria, na Barra Funda, em São Paulo, estão reunidas obras realizadas desde o início dos anos 2000, quandoo artista ainda morava em Olinda, sua cidade natal, e participava de coletivos anárquicos como o Molusco Lama e o Telephone Colorido.

Hoje, ele vive em São Paulo, tem obras em importantes coleções no Brasil e no exterior e é representado por três galerias comerciais: a Baró, a Gentil Carioca e a Amparo 60, de Recife.Apesar de corresponder a esse percurso de mais de dez anos, a mostra não se comporta exatamente como uma retrospectiva. Sua montagem de intensa contaminação visual, em que trabalhos pontuais são amalgamados em uma única instalação, desfaz a lógica de uma retomada imbuída de situar e por vezes didatizar as etapas de uma trajetória.

Zeitgeist

Detalhe da instalação Zeitgest (2013), de Lourival Cuquinha (Foto: Fabian Aicrag/Cortesia Baró Galeria)

 

Em vez disso, Cuquinha parece aproximar seus projetos antigos para experimentar a mistura entre eles e correr os riscos da diluição de todos os referenciais geográficos, econômicos e políticos até então postulados. Todas as obras presentes em Territórios e Capital: Extinções têm a ver com dinheiro, seja porque são feitas com moedas e cédulas ou porque nascem de uma observação sobre as relações de trabalho e a construção de valores simbólicos e monetários no campo da arte.

A biografia de Cuquinha costuma ser o ponto de partida para tais observações. Usando registros em foto e vídeo, sua caligrafia e a ironia expressa sempre em primeira pessoa, o artista faz comentários que abrangem desde o subemprego que exerceu como imigrante em Londres até a sua presença no mercado de arte, que, embora provocadora, é crescente.

O largo espectro compreendido entre o trabalhador mal remunerado e o autor e acionista de obras postas em leilões internacionais caracteriza, mais do que a biografia de Cuquinha, a própria ambiguidade do lugar social do artista, cercado pela precariedade dos meios e pela contraprodutividade do seu ofício dentro de uma escala industrial e, num outro extremo, pela adequação do que produz (as obras de arte, mesmo as imateriais, das quais muitas vezes só restam vestígios ou histórias) à dinâmica do capital especulativo.

12 Bandeiras

Detalhes das 12 bandeiras que integram a instalação Zeitgest (Foto: Fabian Aicrag/Cortesia Baró Galeria)

O artista contemporâneo transita entre a matéria vulgar e a de alto valor agregado, as rodas de discussão sobre arte e os pregões de comercialização da mesma. Ele viaja o mundo e aguça o seu poder de se adaptar a diferentes contextos, se possível, respondendo a cada um deles com presteza. Teor subversivo da produção O conjunto de obras da exposição nasce da vivência de Lourival Cuquinha nas cidades onde morou e em outros lugares onde trabalhou em curtas temporadas de passagem, como o Rio de Janeiro e Aix-en-Provence, na França. Olinda e a vizinha Recife suscitaram o seu pensamento sobre a economia informal e as alternativas de sobrevivência na periferia do circuito brasileiro de arte. Londres, lugar em que viveu entre 2007 e 2011 para acompanhar sua esposa em período de pós-graduação, tornou-o estrangeiro numa sociedade estratificada, que paga um dos custos de vida mais altos do mundo.

São Paulo, para onde se mudou quando da sua volta ao País, aproximou-o de uma infraestrutura de trabalho que, por um lado, dá ritmo e, por outro, testa o teor subversivo da sua produção – afinal, como subverter se não há (ou há pouca) resistência? A obra O Trabalho Gira em Torno (2009) rememora a atividade de Cuquinha como motorista de rickshaw, transporte turístico londrino movido por bicicleta, com capacidade para levar até três passageiros.

Na obra que abre a mostra, três desses veículos são conectados entre si, perfilados em um círculo fechado e chumbados no chão. O público é convidado a pedalar para ativar essa engrenagem. Se o faz num primeiro carrinho, aciona a projeção de imagens feitas pelo artista em seu rickshaw pelas ruas de Londres. O movimento do segundo veículo faz soar o áudio desse registro; o terceiro provoca a rotação das imagens pelas paredes da sala, a partir de um eixo central.

A instalação demanda seus cúmplices, seu total funcionamento depende de três visitantes, que, como Cuquinha em seu ofício temporário, exercem o trabalho em sua dimensão concreta. Nela, a gratificação equivale à energia física empregada, o excedente da produção nunca ultrapassa o mínimo necessário para continuar. Em 2007, o artista usou dinheiro arrecadado nas corridas de rickshaw para começar o Jack Pound Financial Project. Com 122 cédulas de 5 libras e 39 de 10 libras, costurou uma bandeira do Reino Unido que totalizava o investimento de mil libras.

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A instalação O trabalho gira em torno (2009) rememora a atividade de Cuquinha como motorista de rickshaw, transporte turístico londrino movido por bicicleta. (Foto: Ricardo Lima/Cortesia Baró Galeria)

O artista reconheceu seus clientes e interlocutores como acionistas e incluiu a si próprio nessa lista como sócio majoritário, com 505 libras investidas. Em 2009, a bandeira foi leiloada na Frieze, principal feira de arte de Londres, por 17 mil libras, comprovando a alta rentabilidade do empreendimento. Desde então, Cuquinha continuou dedicado a essa pesquisa, que inclui operações de apropriação de moeda como suporte para interferências artísticas (o que pode ser visto como depredação de patrimônio do Tesouro Nacional), venda de ações e organização de leilões em eventos comerciais de arte contemporânea.

Dessa maneira, concretizou 12 bandeiras, ou seja, 12 versões do seu projeto financeiro. Apesar de hoje integrarem coleções de diferentes países, todas elas estão presentes na mostra, como parte de Zeitgeist (2013). Feita de hastes de aço recobertas por moedas de 5 e 10 centavos – milhares delas, que totalizam a quantia de 7 mil reais, a instalação site specific atravessa o vão da galeria de um canto a outro, em diversas direções e alturas.

Sua estrutura torna-se display para o conjunto de bandeiras e define a ambiência da exposição, marcada pela beleza plástica das hastes entrecruzadas e por alguns riscos de tropeço do visitante desatento. Fascinante e perigosa, monumental e precária, institucional e em muitos sentidos ilegal ou incorreta, a obra espacializa a complexidade das relações entre arte e mercado e postula a opção de Cuquinha por pensá-las de dentro do sistema, construindo e simultaneamente tentando implodir tudo aquilo que (o) aceita e celebra.

A seção Vernissage é um projeto realizado em parceria com galerias de arte, que prevê a publicação de um texto crítico sobre a obra de um artista que estará em exposição durante os meses de circulação da edição.

*Publicado originalmente na #select11.

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