Arte e destruição na Floresta da Tijuca

Márion Strecker e Gustavo Fioratti

Publicado em: 28/08/2015

Categoria: Reportagem, visuais

Com instalações de artistas como Lygia Pape e Hélio Oiticica, o Museu do Açude falha em catalogação, conservação e no atendimento ao visitante; obra de José Resende desabou em 2010 e até hoje não foi restaurada

Iole 01 Credito Vicente De Mello

Legenda: Dora Maar na Piscina (1999), instalação de aço inox e policarbonato de Iole de Freitas para o Museu do Açude, que teria caráter permanente mas foi soterrada durante uma tempestade em 2010 (Foto: Vicente de Mello / Divulgalção Museu do Açude).

No bairro do Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro, há um pequeno museu com instalações ao ar livre de artistas como Hélio Oiticica, Lygia Pape, Anna Maria Maiolino, Iole de Freitas, Nuno Ramos e José Resende. Poucos conhecem, já que o museu fica longe das praias famosas da zona sul e, para chegar lá de Copacabana, por exemplo, é preciso tomar dois ônibus e fazer uma pernada, num trajeto que dura mais de duas horas, num hipotético e utópico dia sem trânsito no Rio.

Chegando lá, em um dia de expediente normal, prepare-se para ser recebido com surpresa, como seLecT foi. Luzes apagadas na entrada da construção principal, nenhum prospecto ou mapa das instalações disponível para os visitantes. Nenhum guia de plantão.

Com boa vontade, um guarda-noturno, que havia passado a noite sozinho, vigiando o local, foi escalado para tentar mostrar o que há de arte contemporânea ali, já que não havia profissional gabaritado disponível para tanto. A propriedade foi casa de campo do empresário Raymundo Ottoni de Castro Maya (1894-1968), antes de se transformar em museu de artes decorativas, entidade irmã da Chácara do Céu, que herdou seus Debrets. Ambas as instituições foram transferidas da Fundação Castro Maya para os domínios da União, ou seja, do Ministério da Cultura, na alçada atualmente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).

Castro Maya havia sido incumbido pela prefeitura de remodelar a Floresta da Tijuca como um parque nos anos 1940, dando continuidade a um projeto de recuperação da natureza, iniciado quando o Rio começou a sofrer com a falta d’água, por ter antes transformado a floresta e seus mananciais em plantações de café.

Ze_15 Credito Vicente De Mello

Legenda: Obra de José Resende em mármore e aço de 2002 (Foto: Vicente de Mello).

Diálogo com a floresta 

O Espaço de Instalações Permanentes do Museu do Açude foi inaugurado em 1999 e não é um romântico jardim de esculturas que poderiam estar em qualquer lugar, ressalta Marcio Doctors, idealizador do projeto. É um espaço de obras contemporâneas site-specific em diálogo com a floresta, quando não em embate físico direto, que pode resultar em interferências definitivas ou até mesmo em destruição. Essa é a sua proposta, que, para ser completamente realizada, exige a contínua documentação do processo.

Vejamos o caso da instalação de José Resende. Criada em 2002, com ajuda do engenheiro Ary Perez, a instalação de mármore e aço de 19,5 metros de comprimento foi derrubada por uma forte tempestade em 2010. O que se imaginou era que o mármore sofreria interferências cromáticas da floresta, mas o que aconteceu foi algo mais radical. A fixação da obra rolou morro abaixo. “E a instalação foi junto, lógico”, conta Resende. “Na ideia do Marcio, havia o pressuposto de que faria parte do trabalho a documentação do processo de transformação que o trabalho sofreria. Como o material utilizado ficou lá, seria até possível fazer uma espécie de arqueologia do trabalho. O que seria ele a partir desse tombo que sofreu?”, completa.

A ideia era que esse mármore “sofreria com o tempo uma espécie de absorção das intervenções que ali ocorressem, como se fosse o suporte de uma aquarela que seria pintada pela natureza”, diz o artista. “As réguas pareciam ficar soltas no ar, e havia uma estrutura de ferro por trás que iria oxidar e ganharia outro colorido.”

Resende conta que alguns anos atrás retomou contato com o museu. “Eles pediram que eu pensasse algo alternativo, no sentido de que estariam recuperando a situação do museu, não só do meu trabalho, mas do trabalho da Iole (também afetado), das dependências. Eu imaginei, dentro das possibilidades que eles tinham, fazer um trabalho semelhante. Só que depois não fui mais procurado.”

Essa documentação não foi priorizada pelo museu. A instalação não foi restaurada nem substituída até hoje, embora o Museu  do Açude tenha recebido, em 2011, 1,626 milhão de reais do BNDES, como apoio não reembolsável, para obras de contenção e recuperação das instalações, segundo informou a assessoria de imprensa do banco. 

Obras emblemáticas 

A instalação de Iole de Freitas, destruída na mesma ocasião, foi substituída por uma nova, da mesma artista. “Quando percebi que o compromisso seria mantido somente com Iole de Freitas e que não seria cumprido com José Resende, senti que não seria ético da minha parte ser conivente com essa situação e me afastei”, conta Doctors, que nos últimos anos integrou uma comissão curatorial do museu que fez apenas uma reunião, em 2013, e nunca mais foi chamada. 

“Soube recentemente que, apesar de todos os meus esforços, as obras nunca foram catalogadas como acervo”, revela o curador. “Acho grave, na medida em que não fazerem parte do acervo desobriga a instituição de mantê-las e divulgá-las. É importante destacar que é um acervo precioso, com obras emblemáticas. O museu passa a sensação de abandono e o visitante que chega se sente sem referência, mal acolhido e sem informação”, diz Marcio Doctors. 

Questionada por seLecT, a diretora do museu, Vera de Alencar, reconhece que as instalações permanentes não foram catalogadas como acervo, mas diz que estão em “processo avançado de discussão interna” sobre o assunto. Diz mais: “Tendo captado os recursos, a prioridade é realizar o novo projeto de José Resende, já entregue a nós, pois sua obra foi destruída e me sinto na obrigação de fazer essa reparação”. Só que não há data para isso e o artista não foi comunicado.

Oiticica em duas versões

Já no final da vida, Hélio Oiticica (1937-1980) projetou um conjunto de seis trabalhos denominado Magic Square, com anotações, maquetes, diagramas, amostras e desenhos. Em inglês, square significa “quadrado” e “praça”. Os dois aspectos são explorados nesses projetos, em que as cores ganham escala espacial em ambientes penetráveis, para usar outro conceito caro ao artista. Hélio pretendia erguer uma praça mágica no Parque Ecológico do Tietê, na Grande São Paulo, o que não se concretizou. No ano 2000, o Museu do Açude resolveu construir de forma definitiva Magic Square nº 5 – De Luxe, como única instalação permanente de seu espaço que fugiria do conceito de site-specific e mesmo assim com enorme potencial de se tornar a obra-símbolo do lugar.

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Legenda: O penetrável Magic Square no 5 – De Luxe, projeto de Hélio Oiticica do fim dos anos 1970, foi montado em caráter permanente pelo Museu do Açude em 2000. Nessa versão, no Rio de Janeiro, a obra aparece sobre terra batida e com teto de acrílico, como pedia o artista. (Foto: Cesar Oiticica Filho / Divulgação).

Para o curador Marcio Doctors, o “nível secreto” dessa obra está em revelar que a trajetória de Oiticica é a de um pintor, e que o conjunto dos Magic Square é “a culminância de um processo que, ao contrário de querer acabar com a pintura, pretendia conservá-la”. Ele opina também que o Museu do Açude seria um proto-Inhotim, inspirando a instituição mineira não apenas a montar a mesma obra de Oiticica, como também a comissionar artistas contemporâneos para criar site-specifics junto à natureza, longe do cenário urbano. Rodrigo Moura, curador do Inhotim, recusa essa ideia. “Pode haver alguma afinidade, por causa da paisagem e da aproximação com a natureza, mas influência não há. As obras do Inhotim têm mais relação com a arquitetura, com a ideia de pavilhões, de galerias, enquanto o Museu do Açude toma como base a possibilidade de a natureza interferir em trabalhos artísticos, transformando-os”, diz.

Marcio Doctors acredita que no Inhotim existe “um sentimento de deslumbramento, não pela beleza ou potência da natureza selvagem, mas pelo impacto que a magnitude gigantesca de um enorme jardim e parque bem trata- do, e com boas obras, proporciona. Já o Espaço de Instalações Permanentes do Açude não se propõe a domar ou domesticar a natureza”.

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Legenda: O penetrável Magic Square no 5 – De Luxe pelo Inhotim em 2007. A versão “limpinha” usa vidro em vez de acrílico e pedriscos no lugar de terra batida, para evitar a formação de poças d’água (Foto: Rossana Magri / Divulgação).

Sobre as diferenças das duas montagens de Magic Square nº 5, Rodrigo Moura reconhece que, nas instruções deixadas por escrito, Hélio Oiticica dizia que a instalação pressupõe manter o solo do local tal qual ele se apresenta, mas que o Inhotim optou por colocar pedriscos para facilitar a conservação e evitar a formação de poças d’água. Para Marcio Doctors, entretanto, o Inhotim descaracterizou a obra original, substituindo a cobertura de acrílico por vidro e introduzindo pedriscos onde deveria haver terra batida.

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