Arte e Política: Manifesto 1

Está no ar a edição #53 da seLecT, primeira dedicada ao tema arte e política

Paula Alzugaray

Publicado em: 15/03/2022

Categoria: A Revista, Destaque, Editorial

Descolonizar é romper os limites da linguagem;
Descolonizar é desconstruir termos e modos de fazer e operar;
Descolonizar é insurgir sobre marcos históricos, alegorias do trauma colonial, que perpetuam o imaginário do poder ocidental no espaço urbano;
Descolonizar é recuperar aspectos históricos de um processo colonial predador, elaborando limites jurídicos para o diálogo com comunidades espoliadas, diz Mirtes Marins de Oliveira na Coluna Móvel sobre o papel colonialista dos museus;
Descolonizar é derreter delírios autoritários e tensionar hegemonias;
Descolonizar é um processo no qual indígenas se veem imersos desde 1492, marco zero da história oficial eurocêntrica, escreve a pesquisadora macuxi Julie Dorrico;
Descolonizar é olhar para os apagamentos da produção de mulheres, artistas pertencentes a povos originários, afrodescendentes e não ocidentais, grupos não inseridos na normatividade hegemônica;
Descolonizar é reantropofagizar;
Descolonizar é entender que a antropofagia, celebrada enquanto elemento estético do Modernismo, foi usada como retórica para a apropriação dos territórios indígenas e para a “integração” de suas identidades, continua Julie Dorrico;
Descolonizar é entender os rios como sedimentos de cultura e favorecer a leitura de ecossistemas aquáticos como seres individuais, como propõem as diretrizes curatoriais da 23a Bienal de Sydney;
Descolonizar é recapitular os parâmetros para a formação de coleções públicas e privadas;
Descolonizar é posicionar duas entidades-cobras diante de uma estátua de Pedro Álvares Cabral;
Descolonizar é conhecer “uma infinidade de Amazônias incalculáveis”, diz a artista Flavya Mutran em entrevista;
Descolonizar é reconectar as formas tradicionais de cura ao corpo feminino, os rituais, os direitos à terra e as comunidades autossustentáveis, como fazem coletivos de mulheres e movimentos anarcofeministas da América Latina;
Descolonizar é fomentar a formação de novos corpos políticos;
Descolonizar é despersonalizar;
Descolonizar é tensionar as políticas da memória, dizem os integrantes do projeto demonumenta;
Descolonizar é ocupar palcos, festas, salas de leitura e pistas de dança, espaços potenciais para revoluções do pensamento;
Descolonizar é proteger os Direitos Humanos e Não Humanos e operar pela lógica da confluência, não da competição, entendendo que estamos todos – humanos, plantas, animais e minerais – conectados;
Descolonizar é devolver o pertencimento de Macunaíma “de Mario de Andrade” aos povos que habitam o Monte Roraima (Macuxi, Taurepang, Wapichana, entre outros), e seu nome à grafia Makunaima ou Makunaimî;
Descolonizar é fazer gráfica ativista e dar continuidade ao projeto Floresta Protesta, iniciado em 2021;
Descolonizar é a primeira das quatro edições da seLecT dedicadas à Arte e Política, em 2022, que vão buscar responder uma série de questões que confluem em uma: qual é o papel de uma revista de arte no contexto da crise política, humanitária e ambiental de hoje?

Paula Alzugaray
Diretora de Redação

Capa seLecT #53

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