Arte e solidariedade após o dilúvio

Um dos curadores da Bienal de Arte Contemporáneo SACO 1.0, em Antofagasta, no Chile, reflete sobre exposições e catástrofes

Marcio Harum

Publicado em: 02/12/2021

Categoria: Crítica, Da Hora, Destaque

Bienal de Arte Contemporáneo SACO 1.0 (Foto: Divulgação)

As semanas passam tão rápido, ainda mais quando estamos trabalhando fora do contexto brasileiro, este que vai ficando cada dia mais tenso e denso. A impressão que se tem é a de que podemos perceber com nitidez como a situação geral oscila tanto no Brasil, se temos a chance de nos afastar, nem que seja apenas por uma curta temporada. O recente falecimento do artista indígena Jaider Esbell é uma simbólica tragédia representando a crueza de nossa dura realidade.

Um país reconstruído após um devastador terremoto, o Chile acaba de fundar uma bienal em meio à pandemia controlada pelo Ministério da Saúde, fora de sua capital e prestes a decidir suas eleições presidenciais no segundo turno em dezembro. Por enquanto, a estrutura federal conta com três ministérios integrados: da Cultura, das Artes e do Patrimônio. Não obstante, a realidade brasileira infelizmente é o radical oposto do panorama chileno.

O tema inaugural dessa Bienal é o Aluvión – um fato bastante trágico e importante para a memória nacional, que ocorreu na região há exatos 30 anos atrás. Uma enchente causada por chuvas torrenciais fez desabar casas nos morros da área desértica onde está situada Antofagasta. Com o desmoronamento de grande volume de terra, ruas foram soterradas sob o barro que desceu da serra que circunda a cidade. Houve mais de uma centena de vítimas fatais como resultado do desastre natural ocasionado pelo fenômeno El Niño, sendo percebido nos dias de hoje como um indício precoce de mudanças climáticas.

Antofagasta é por excelência o epicentro da mineração no país, o que torna impossível não traçarmos um paralelo com a paisagem que conhecemos tão bem de montanhas perfuradas, o ar pesado e a erosão poluidora dos rios de Minas Gerais. A iminência constante de testemunharmos mais um mar de lama proveniente do rompimento de alguma barragem, a destruição que leva embora famílias, animais, vegetação e cultura ribeirinha.

A primeira edição da Bienal de Arte Contemporânea SACO apresenta 14 exposições gratuitas voltadas a debater a região do deserto no norte do Chile como lugar de realização, pesquisa, visibilidade, circulação e legitimação artística. O pier marítimo histórico de Melbourne Clark, para onde todo o lamaçal do desastre escorreu dos morros em direção ao mar, este equipamento portuário vinculado à exportação de salitre e ao conflito da guerra do Pacifíco entre Bolívia e Reino Unido, é o coração de Aluvión. A seleção dos trabalhos site-specific para o local se deu por convocatória internacional ao longo do primeiro semestre do ano. Foi formada uma comissão julgadora estrangeira para os trabalhos de escolha das proposições outdoors que mais articulassem e trouxessem sentido a uma atualização da noção do fenômeno do aluvião nos dias de hoje. Foram selecionados projetos de sete artistas – Aimée Joaristi, Carolina Cherubini, Julio Palacio, Marina Liesegang, Martina Mella, Miguel Sifuentes, Rita Doris Ubah, oriundos de Brasil, Chile, Cuba/Costa Rica, México, Nigéria e Venezuela/Espanha.

Bienal de Arte Contemporáneo SACO 1.0 (Foto: Divulgação)

A montagem coletiva a céu aberto durante a pandemia no pier converteu-se em um espaço de relações de troca e colaborações, uma ponte que rememora a convivência orientada pela solidariedade típica de momentos em que cidadãos de uma mesma comunidade fortalecem laços de união após uma devastação. A exposição no pier remonta a um lar que foi defenestrado e apenas começa a recuperar sua forma – os trabalhos em exibição tecem críticas esclarecedoras acerca dos sistemas de mercado e recursos de segurança de bens materiais aos quais estamos sujeitos vivendo em centros urbanos. O espírito de reconstrução ao dia seguinte de uma tragédia igualmente está posto entre algumas das obras. Mudanças de perspectiva de status também aparecem no diálogo entre as peças, como um reposicionamento sensorial diante da paisagem natural e urbana em permanente transformação. A percepção do câmbio de tempo e paradigmas artísticos é a tônica em uma real localização cercada de lobos marinhos.

Museo Sin Museo é um eixo da programação da bienal que ocupa espaços que possuem outras finalidades. Ativa o convívio comunitário, reformulando elementos de integração social pelo diálogo. Escuela Sin Escuela é outro eixo da programação e constitui uma coluna mestra de funcionamento da bienal, pois, voltada à educação, concretiza e aprofunda diversos aspectos do campo da formação e profissionalização de seus participantes. Desde 2012, há um impulso e fomento na direção do avanço artístico na região, o que contribuiu intensamente com a cena de produção cultural local. Foram realizados cursos, oficinas, palestras, seminários com profissionais e artistas do Chile e do exterior, criando novos públicos de artistas, educadores, professores, mediadores e outras audiências com alta fidelidade e crescente engajamento.

São doze locais expositivos que sediam 14 exposições, incluindo uma que chama particularmente a atenção, a do artista chileno Sebastián Riffo, realizada na sala da Fundação Minera Escondida, em San Pedro de Atacama, no deserto. No eixo da programação da bienal Territorio/Residencia, Riffo esteve em residência no La Tintorera, Atacama, pesquisando pigmentos naturais para tingimento sob o acompanhamento de sua fundadora, a artista e diretora da residência artística, Veronica Moreno. A corporação SACO mantém em Antofagasta a residência artística ISLA (Instituto Superior Latinoamericano de Arte), que vem apoiando projetos nas seguintes frentes de pesquisa artística: arqueologia, astronomia, geologia e indústria. Foi organizado em Santiago, concomitantemente à Bienal, o primeiro encontro da rede de residências artísticas do Chile, em que seus diretores e fundadores puderam apresentar publicamente programas e canais de patrocínio, captação de fundos e apoios institucionais nas mais variadas esferas e geografias do Chile.

Vista da exposição (Foto: Divulgação)

Este deserto, lugar mítico, de onde saiu Alejandro Jodorowsky (Tocopilla, 1929), que filmou lá o seu genial A Dança da Realidade (2013), onde Patricio Guzmán filmou o magnífico Nostalgia da Luz (2010), é agora cenário de um lixão de roupas usadas em escala global e de manifestações de xenofobia contra trabalhadores imigrantes de países da América do Sul. Sim, este mesmo deserto em que estão instalados os mais potentes telescópios do planeta, onde a investigação do solo baseia a estação da NASA com pesquisas sobre Marte e, na atualidade, a maior usina solar de energia fotovoltaica em funcionamento na Terra.

Na era pandêmica que estamos atravessando, só mesmo a fundação de uma plataforma expositiva, dialógica, séria e aberta, na qual prevaleça a qualidade da sobreposição múltipla de vozes, lugares e origens, pode nos trazer uma certa tranquilidade para o encontro cooperativo para além de nossos traumas de confinamento. O espaço público ao ar livre junto ao som do mar, o azul do céu, o voo das aves e o calor do sol do deserto prateando o Oceano Pacífico é o maior exemplo disso.

ALUVIÓN – FLOOD
Bienal de Arte Contemporáneo SACO 1.0
Antofagasta – Chile 30.9 – 15.12.21

https://bienalsaco.com/
@bienal_saco

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