Arte indígena contemporânea e o grande mundo

Não há como falar em arte indígena contemporânea sem falar dos indígenas, sem falar de direito à terra e à vida

Jaider Esbell

N° Edição: 39

Publicado em: 22/01/2018

Categoria: A Revista, Destaque, Reportagem

Obras da coleção It Was Amazon (2016), de Jaider Esbell (Fotos: Marcelo Camacho)

Ao longo deste texto devemos passear por territórios distintos do pensar e logo nos remeter ao pensar extrapolado. Para maior sentido, começamos a nossa abordagem por ressignificar conceitos básicos. Antes, devo dizer que, como autor, me construo de representatividade; e a socialização desse pensamento compreende bem mais que a minha posição individual sobre tão vasto universo. Não há como falar em arte indígena contemporânea sem falar dos indígenas, sem falar de direito à terra e à vida. Há mesmo que se explicar o porquê de chamarmos arte indígena contemporânea e não ao contrário. Na história da literatura especializada sobre arte contemporânea produzida no Brasil, não temos autores artistas indígenas. Nesse sentido, o componente novo surpreende por seu protagonismo histórico. Convidamos a um inteiro desconstruir para outros preenchimentos.

Reestruturação conceitual
Indígena e arte são de origem comum e indissociável. Aceitar essa sentença adianta o entendimento. O sistema de arte é algo paralelo e hoje eles se tocam, envolvendo-se para além das percepções dos especialistas. A arte indígena contemporânea seria então o que se consegue conceber na junção de valores sobre o mesmo tema arte e sobre a mesma ideia de tempo, o contemporâneo, tendo o indígena artista como peça central. Um componente trans-tempo histórico e trans-geográfico é requerido. Falamos de ideia de país, mas a arte entre os indígenas hoje brasileiros vem desde antes de tudo isso.

A imagem sugere o encontro da relação de valores que têm os indígenas brasileiros (sic) com a arte e com os valores do sistema clássico europeu. Uma leitura corriqueira é percebida: como é o encontro, ou como é o acesso da arte indígena contemporânea ao sistema de arte geral?

Refazendo o caminho da pergunta, ressignificamos as respostas. Entende-se com essa pergunta que o sistema de arte seja algo que realmente não compreende, no sentido de não conter, a arte dos indígenas. Percebe-se também que o sistema de arte de natureza ocidental não vê, não percebe e não faz qualquer relação com seu próprio paralelo: o sistema de arte indígena, digamos assim. O sistema de arte europeu desconhece e, portanto, não reconhece que entre os indígenas há um sistema de arte próprio, com sentidos e dimensões próprios.

A arte indígena contemporânea seria essa força-poder de atração, ou mesmo atracação. Uso um termo-metodologia empregado pelos europeus e que ainda hoje é utilizado para atrair aquele intocável selvagem desconhecedor misterioso para um encontro futuro decisivo. Colocamos um pote de mistério na borda da floresta escura e esperamos que alguém venha buscar e paulatinamente vá adquirindo confiança para um encontro pessoal à luz da arte maior. Vivemos com a arte indígena contemporânea um real encontro com o Brasil do momento em relação ao sistema de arte prevalecente. Ao receber o convite para escrever sobre o assunto para esta revista, eu não poderia começar com outra abordagem. Digo que isso significa um avanço dentro de uma lógica de resistência e de uma lógica de legitimidade que a arte indígena obtém por força própria. Minha contribuição é no sentido de oferecer ao leitor-pesquisador uma visão panorâmica do momento grandioso em que estamos envolvidos.

Hoje, no Brasil, posso bem representar o encontro do sistema de arte entre os indígenas com o sistema de artes global no contexto contemporâneo. Falo do reconhecimento que tenho a partir de minha identidade indígena. Falo com a potência que tem a força do meu trabalho. Falo desse boiar no agora com toda essa conquista e partilha abertas. Hoje sou um artista reconhecido com prêmios. Hoje posso dizer que o sistema de arte global já me absorveu. Hoje tenho tudo o que precisa e a que se propõe a indústria cultural. Hoje escrevo a partir de uma experiência de vivência profissional nos Estados Unidos, além de experimentar a função de galerista. A exposição midiática máxima de um trabalho artístico em ambientes polivalentes me dá surpreendente vantagem. Atuar na internet e ir pessoalmente ao encontro do povo me possibilita ler realidades e estratificá-las em possibilidades de análises sobre um Brasil em si, um Brasil em relação à América Latina e em relação ao planeta.

Nessa leitura de realidade atual, a arte entre os indígenas representa em sua máxima capacidade o acesso ao mundo complementar que representa a falta de sentido que há no mundo moderno, no mundo-força que dominou e em que se evidencia o colapso. A arte indígena contemporânea nesse sentido está para muito além das molduras e estruturas. A arte indígena contemporânea purifica-se filtrando em si mesma com a força da espiritualidade, seu núcleo. A arte indígena encosta na arte geral enquanto sistemas próprios, mas elas não se fundem nem se confundem totalmente, a priori.

Os propósitos da arte indígena contemporânea vão muito além do assimilar e usufruir de estruturas econômicas, icônicas e midiáticas. A arte indígena contemporânea é, sim, um caso específico de empoderamento no campo cosmológico de pensar a humanidade e o meio ambiente.

O elemento colonizador
Como pensar a arte indígena
em contato com a ideia de cultura brasileira? Arte e indígenas é um passar performático ao longo do tempo e da geografia e para esses sentidos temos de abordar o elemento colonizador.

O indígena aparece primeiro nas cartas enviadas para a Europa, logo após a chegada dos primeiros navios. Ele aparece em representações de artistas europeus numa cena de primeira missa. Assim é o encontro do sistema de artes europeu com os artistas selvagens. Para os nativos, a arte sempre será outra coisa além. O indígena é posto a cantar na catequese, é posto a ilustrar documentos de pesquisadores das mais diversas áreas do conhecimento. Sobre esses artistas pouco é falado.

Devemos atender a um sentido a mais. Quando a arte indígena encontra o sistema de arte global, a assinatura do artista ou do coletivo de artistas é requerida. É requerido algo emoldurável para o que nunca caberá em molduras. Esse atributo de valor influencia e faz toda a diferença no contexto contemporâneo.

O tempo passa e o sentido da arte entre os indígenas sofre severas influências da colonização. Aqui devemos pensar o conceito de arte indígena contemporâneo como algo estendido para todas as realidades que temos hoje no Brasil. Como pensar esse conceito sem compreender e aceitar que ainda hoje nas florestas remotas da Amazônia brasileira há “tribos selvagens” sem qualquer contato com essa ideia de mundo? Que, entre elas, a arte tem seu sentido próprio?

Em certo ponto, sinto-me em atuação performática para além do figurativo. Não seria exatamente uma total abstração, mas um sentido corpóreo e bem definido para o que é exigido da arte indígena contemporânea para o tempo agora.

A arte indígena contemporânea chega em ícones corporificados e depurados em uma trajetória de representação até um estado pleno de identidade cosmo-consciente. De Chico da Silva, artista mestiço, já temos mais energia que em Tarsila do Amaral. Nossa literatura já não é mais tão colonizada e hoje somos vistos como autores em salões nobres. Não é possível concluir este texto sem abordar Macunaíma e logo chamá-los para conhecer meu avô Makuniamî. Aqui temos outro paralelo multidimensional para todos que se aventurarem a abordar um assunto tão alheio como a arte indígena contemporânea. A consciência de um buscar além das referências habituais.     

Desenhando a política
Definitivamente, a juventude indígena artista do Brasil vem com todas as forças a que acessam ao entregarem seus talentos sem reservas a uma sabedoria maior. Hoje surgimos desenhando a política tão bem ilustrada por Ailton Krenak em sua performance de pintar o rosto com jenipapo no Palácio do Planalto, ao defender o indígena na Constituição de 1988.
A arte indígena contemporânea vem juntamente com tudo o que há de tecnologia. O livro de Davi Kopenawa Yanomami – A Queda do Céu – é uma bíblia. Temos o Coletivo Maku, com exposição na Fundação Cartier, em Paris. No salão da Bienal de Arte Naïf do Sesc Piracicaba-SP, o maior do País, temos Carmézia Emiliano como a mulher artista mais premiada. Carmézia é indígena Makuxi e está totalmente absorvida pelo sistema de arte internacional. Embora seja grande em seu fazer, a artista é pouco conhecida e mesmo a arte naïf continua em uma posição periférica em relação ao eixo do sistema. Em 2016, tivemos três artistas indígenas indicados ao Prêmio PIPA. Desse feito temos eu, Jaider Esbell, como vencedor do Prêmio PIPA Online 2016 e Arissana Pataxó em segundo lugar. Também foi indicado Ibã Sales Hunikuin representando o Coletivo Maku. Essas evidências são pontos fundamentais para todos os atentos que buscam estar a par desse encontro de sistemas. Devo dizer que meu atuar ecoa para um sentido da arte que puxamos para nós indígenas em relação ao grande mundo. Fazemos política de resistência declarada com a arte em contexto contemporâneo aberto. Em contexto fechado, ressignificamos nossas estruturas culturais e sociais com arte e espiritualidade em um mútuo alimentar de energias para compor a grande urgência de sustentar o céu acima de nossas cabeças. 

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