Arte na Era Antropocena

Ida Yang, de Taipé (Taiwan, China)

Publicado em: 02/01/2015

Categoria: Crítica, Review

Bienal de Taipé, que termina dia 4 de janeiro, pergunta se a obra de arte pode transcender os valores de troca do consumismo e existir de forma independente

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Legenda: Desacelerador Formosa (2014), de OPAVIVARÁ (foto: cortesia OPAVIVARÁ)

Com o início do período Antropoceno, a atividade humana transformou de maneira irreversível todo o ecossistema global. Apesar de seu prefixo, o termo Antropoceno na verdade indica o fim do antropocentrismo, em vez de tentar atribuir a animais, plantas e minerais posições iguais como sujeitos. No entanto, como disse o curador Nicolas Bourriaud em uma entrevista para a revista Leap, “esta exposição não existe pelo bem das águas-vivas ou das árvores; a arte é uma atividade que pertence ao reino dos relacionamentos humanos”. Portanto, substituo o termo geológico, cunhando o título Antropocena: a cena humana a partir da qual podemos refletir sobre a arte nesta era de grande aceleração.

Ao entrarmos no saguão do museu, Desacelerador Formosa, de OPAVIVARÁ!, nos convida a deitar em redes e preparar um chá usando as 16 ervas medicinais colocadas sobre uma mesa octogonal taoista em forma de Ba guá. As ervas evocam o colonialismo que se seguiu ao comércio de especiarias, ligando assim as histórias de Taiwan e do Brasil. Em outro local, Slide, de Roberto Cabot, refere-se à extensão ilimitada da web, usando a multiperspectiva para gerar o infinito. Embora a pintura seja o meio mais antigo, Cabot consegue incorporar o conceito contemporâneo de “tempo não linear” em sua arte, incitando-nos a questionar se a aceleração dramática imposta pela internet está na verdade estreitando ou ampliando a distância entre os seres humanos. Premiada com o Leão de Prata, Camille Henrot ofereceu blocos de terra retangulares para massoterapeutas tradicionais moldarem uma série de esculturas que lembram a espinha dorsal humana. Se elas permanecerem intactas após a extinção humana, as criaturas que nos sucederem certamente acreditarão que são os fósseis da humanidade.

Assault, de Matheus Rocha Pitta, que cola recortes de jornais rasgados com imagens de pessoas protestando a uma placa de cimento, projeta nossas mentes ao recente movimento estudantil Girassol, em Taipé, onde uma parede do prédio ocupado foi forrada de slogans detalhando as diversas reivindicações dos manifestantes. Terrarium, de Luo Jr-Shin, anima um espaço que se projeta e se estende para fora da lateral do Museu de Belas Artes, como uma sala celular que existe organicamente. Desde a Revolução Industrial, impiedosamente decidida a produzir maiores lucros, a humanidade tornou-se progressivamente distante de si mesma e da capacidade de coexistir harmoniosamente com a natureza. As obras de arte como produto humano podem transcender os valores de troca do consumismo e existir independentemente? Seja no Antropoceno, seja na Antropocena, podemos usar a criação artística para nos reconectarmos com a natureza e o planeta?

Bienal de Taipé até 4 de janeiro de 2015, Taipei Fine Arts Museum, 181, Section 3, Zhong Shan N. Rd, Taipei 10461, Taiwan

*Review publicado originalmente na edição #21

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