Arte para quem?

A trigésima edição de seLecT aprofunda-se nas relações entre arte e sociedade tomando como ponto de partida o universo popular

Paula Alzugaray

Nos últimos anos de vida, o crítico Mario Pedrosa apontou que, “na realidade cotidiana, as massas não mostram nenhum interesse pelas artes. Aliás, as chamadas elites também não”. Foi Aracy Amaral quem se lembrou do desalento de Pedrosa diante da “desfunção social da arte”, no primeiro capítulo do seu definitivo Arte para Quê? A Preocupação Social na Arte Brasileira 1930-1970 (São Paulo: Itaú Cultural/ Studio Nobel, 2003), editado originalmente em 1984.

Neste maio de 2016, quando a cultura brasileira correu o risco de perder voz política, com a ameaça de rebaixamento do Ministério da Cultura a secretaria, a pesquisa de Aracy Amaral sobre as relações entre arte e sociedade – e os artistas que colocam o seu fazer a serviço de uma sociedade que gostariam de transformar ou que advogam politicamente pela “desnecessidade” de seu ofício – tornou-se subitamente esclarecedora.

Questões lançadas ali – para que e para quem o artista trabalha – rebatem diretamente aqui nas páginas desta trigésima edição de seLecT, dedicada à arte popular e à popularização da arte.

Ecoam com força nos porões de uma importante instituição de arte francesa, que convidou a dupla OSGEMEOS para elaborar um trabalho nas paredes de um túnel que jamais será aberto ao público. “Há grafiteiros que fizeram coisas extraordinárias nas ruas e ninguém sabe e ninguém viu”, diz Hugo Vitrani, curador do projeto, na reportagem exclusiva de Adriana Ferreira da Silva.

Por escapar dos circuitos institucionais da arte – quase sempre segregados e frequentados por uma comunidade de “iniciados” –, o grafite e a arte urbana são tidos como manifestações pop. Mas as pinturas nas galerias secretas do Palais de Tokyo, que foram usadas como depósito de pianos roubados, durante a ocupação nazista de Paris. São feitas para quem? Para a memória, para a posteridade, para a humanidade, ou para ninguém.

Entre o silêncio dos subterrâneos e a chuva de selfies nas megaexposições, a questão lançada em nosso Fogo Cruzado para artistas, curadores e diretores de museus é: a arte contemporânea é popular?

Entre o sim, o não e o talvez, esta edição #30 enumera algumas iniciativas notáveis. Como o programa de exposições da Galeria Estação, que promove a aproximação entre a crítica erudita e a arte popular; ou o núcleo educativo do Museu de Arte Moderna de São Paulo, que quebrou um muro entre dois mundos: o público da arte e o público do Parque do Ibirapuera, ao criar uma programação sob medida aos interesses do “outro” público.

Ser pop e não ser é uma ambiguidade sugerida nas performances e instalações de Bruno Faria, cujo trabalho se situa em algum lugar entre o caos da realidade e a ordem da instituição; e de Rodrigo Andrade, capa da edição com a pintura Preto Velho Cubista III (2015). Com esse trabalho, Andrade desconstrói um ícone da cultura popular brasileira utilizando um procedimento que já foi erudito, mas hoje é pop. Com o pincel cubista, Andrade chega a um Preto Velho picassiano. E existe alguma coisa mais popular que a Mona Lisa?, indaga Emmanuel Nassar no Fogo Cruzado. Existe sim: Picasso e o Preto Velho.

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