Arte pela reconfiguração social

A artista Renata Felinto, vencedora do Prêmio seLecT na categoria Arapuru, discute questões raciais sob múltiplas perspectivas

Leandro Muniz

Publicado em: ANO 09, Nº 48, Set/Out/Nov 2020

Categoria: Destaque, Prêmio seLecT

Amor-Tecimento (2019), de Renata Felinto (Foto: Cortesia da artista)

Em uma série de autorretratos de Renata Aparecida Felinto, a pintura tem um tratamento próximo ao grafitti. Alguns de seus desenhos têm traços delicados, mas retratam a hipersexualização de corpos femininos. Em uma performance de tom crítico, a artista cria um white face (tipo de performance em que uma pessoa negra usa maquiagem teatral para parecer uma pessoa branca)para ironizar os comportamentos afetados de uma elite branca, enquanto em outra, a situação de afeto e contato entre pessoas pretas, busca criar um contexto de autocuidado e cura. A diversidade de recursos formais, de linguagens e posturas – do conforto à acidez – utilizados na produção de Felinto demonstram que o debate racial e suas intersecções no campo artístico estão na ordem do inquieto e do insubordinado, como reflexo de diversas tensões sociais. 

História
Nascida em 1978, na Zona Norte de São Paulo e criada na Zona Leste da cidade, Renata Felinto é doutora em artes visuais, testemunha e agente das transformações dos debates sobre raça, gênero e classe no sistema da arte ao longo dos últimos 20 anos. “Estudei na Unesp no final dos anos 1990 e uma das poucas pessoas negras que estudavam arte lá, na época, era a Janaína Barros. Outras pessoas negras não continuaram porque o sistema impede que elas possam acessar esse lugar”, diz Felinto à seLecT

Estimulada pela família a buscar no estudo uma forma de transformação social, Felinto participou desde a adolescência em diversos cursos de desenho, realizando inclusive um curso técnico na área na ETEC Carlos de Campos, na região do Brás, o que ampliou sua circulação e compreensão da cidade. Na época, a artista fazia fanzines sobre o neonazismo, que era muito forte na São Paulo dos anos 1990. 

“As questões raciais não eram uma discussão na minha família como é hoje, porque estava dado que somos pessoas pretas, que ouvem samba, vão em baile black, só se relacionam com pessoas pretas, e até discutem as experiências de racismo que sofrem, mas não do mesmo modo politizado como é hoje, era orgânico”, diz. 

Quilombos urbanos
As configurações da cidade também fazem parte de sua formação e produção. “Com o tempo entendi a zona norte como um quilombo tradicional de São Paulo, principalmente para pessoas pretas com fenótipos marcados. Minha família não é parte de nenhuma escola de samba, mas acho que é uma forma negra de viver a vida que faz parte da minha história” continua. “A Zona Leste também é um quilombo, que tem no pagode e no hip-hop formas de expressão. Isso é importante, porque existem as periferias precárias, mas existem várias que são espaços de criação, e estou me referindo inclusive ao Brasil como uma periferia do mundo.”

Em meio às adversidades da cidade e do próprio sistema de arte, as relações entre arte e educação foram não só uma alternativa para a sobrevivência – trabalhando em educativos e depois trilhando uma carreira acadêmica –, mas também sedimentou a compreensão de que o trabalho de arte tem uma dimensão formadora. “Para mim é fundamental pensar arte como educação, como um lugar de criação de novos mundos e reconfiguração social”, afirma. “A carreira acadêmica passou a me interessar também pela possibilidade de liberdade artística, sem precisar me submeter a determinadas situações que são muito violentas para quem quer sobreviver de arte. É uma disputa muito desleal.”

Performar a vida
Desde 2016, Felinto é professora na Universidade Regional do Cariri, adicionando uma nova camada de questões sociais para sua prática e pesquisa: os conflitos culturais. A diferença entre São Paulo e Ceará se manifestam no clima, na incidência da luz, nas formas de vestir, comer e consequentemente na Cultura e na produção artística do local, levando a rever os cânones da história da arte, seus limites e potências em relação àquele contexto. “Fiz uma performance sobre isso, que era basicamente ir abandonando minhas roupas de inverno pela cidade, como uma troca de pele.”

A ideia de “performar a vida” é cunhada pela própria artista em textos e oficinas, como uma ampliação de uma das maiores lições do feminismo negro para a construção do conhecimento em geral: reconhecer as experiências do sujeito em sua compreensão do mundo, conectando biografia, contexto e epistemologias. A cada trabalho, seja em desenho, fotografia ou performance mesmo, Renata Felinto replica ou desconstrói alguma das pequenas violências e contradições implícitas na própria ideia de raça, por vezes com o objetivo de denúncia, por vezes, de cura. 

“Ultimamente tem me interessado pensamentos de matrizes africanas fundadas no afeto e no auto-cuidado como forma de combate ao racismo estrutural, considerando desde o que você tem acesso como alimentação, moradia, rede de acolhimento e, claro, cultura.” 

Renata Felinto foi contemplada no 3º Prêmio seLecT de Arte e Educação na categoria Arapuru com o trabalho AMOR-Tecimento, oficina com performance que tem por objetivo resgatar o olhar amoroso e empático sobre os corpos de pessoas negras. Foram encontros formativos com culminância em performances, propondo a descolonização da noção pedagógica da arte. “Nosso público alvo inicial são as pessoas negras que passaram e passam por situações traumatizantes de racismo decorrente do processo inserção de sociedades não europeias nas economias do capitalismo”. 

O Prêmio Arapuru é uma nova categoria de premiação, criada graças ao apoio da Arapuru Gin e a consciência da marca na necessidade de se viabilizar a arte e a educação no Brasil hojePara o desenvolvimento futuro do projeto de Renata Aparecida Felinto, a marca destinará o valor de R$6.000,00, distribuídos periodicamente. Segundo a artista, o prêmio viabilizará uma nova etapa de AMOR-Tecimento. 

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