Arte política sem panfleto

Angélica de Moraes

Publicado em: 09/03/2015

Categoria: Crítica, Review

A primeira Trienal de Artes Frestas vence onde a 31ª Bienal de São Paulo naufragou

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Legenda: Carregador D’Água de Hazoumé, escancara o drama da seca (foto: Cortesia Bienal Frestas)

É com um suspiro de alívio e gratidão que se sai da visita à primeira Trienal de Artes Frestas, excelente curadoria de Josué Mattos para o Sesc de Sorocaba (SP). Ufa! Ainda é possível ver uma ótima mostra de arte política sem enfrentar obras panfletárias, visual e conceitualmente indigentes. Existe competência nessa seara e ela é ainda mais evidente ao não cair na armadilha de confundir artista de prestígio com artista “vendido ao sistema”, leia-se mercado de arte.

Um dos nomes mais fortes do ótimo elenco reunido em Frestas é Romuald Hazoumé, do Benin (África), que despontou no circuito internacional na coletiva Out of Africa, na Saatchi Gallery (Londres, 1992) e consagrou-se na Documenta 12 (Kassel, Alemanha, 2007) com impactantes máscaras tribais feitas com galões de gasolina. O cartel do petróleo e os países africanos dependentes desse tubaronato não são mostrados em bulas. São transformados em arte. Visual e visível. A obra Carregador D’Água escancara o drama da seca sem deixar de discutir a vigência da apropriação duchampiana.

A curadoria criou eficiente eco para Hazoumé ao aproximá-lo do mural magistralmente desenhado com pastel seco e carvão por Killian Glasner para retratar o solo esturricado da represa da Cantareira (São Paulo, capital). Zás! Em um olhar aprendem-se terabites de teorias sobre a crise dos recursos naturais e a tragédia ambiental e social causada pelas petroleiras. Outras presenças fortes são o colombiano Carlos Castro e os brasileiros Caetano Dias, Kauê Garcia e Regina Parra, entre muitos outros. O cardápio de vídeos é extenso e bem selecionado. Mereceria matéria à parte. Cabe ressaltar que a qualidade do evento foi obtida, apesar das gritantes inadequações do espaço expositivo do Sesc-Sorocaba. Problema que a 31ª Bienal de São Paulo, no Pavilhão do Ibirapuera, não teve, claro. Pena que não soube utilizar.

A 31ª Bienal de São Paulo, inadvertidamente, conseguiu ser o espelho fiel de um aspecto endêmico ao debate político brasileiro: o discurso cheio de intenções e vazio de resultados. Ao contrário do que pretendia a equipe de curadores ao elencar clichês politicamente corretos e pinçar minorias como mote para filigranas teóricas, o processo de criação não se faz de fora para dentro nem possui atrativos visuais para ser colocado como substituto da obra de arte. Exatamente porque intenção não é ação e discurso não é realidade.

A equipe curatorial da 31ª Bienal complicou tanto o discurso que se descolou do público. Ao tentar seguir a moda curatorial ditada pelas bienais de Veneza e Istambul, acabou servindo, com as exceções de praxe, ralo conjunto de trabalhos ilhados entre largos hiatos de “processos”, úteis para animar ambientes didáticos, mas que, ali, funcionaram como o iceberg do Titanic. A única introspecção possível naquele imenso pavilhão é o diálogo direto do público com a obra. Essa sutil e prazerosa conversa, que a 31ª Bienal extirpou quase por completo da nossa vista, a Trienal de Sorocaba soube nos restituir.

Trienal de Artes Frestas – O que seria do mundo sem as coisas que não existem?, até 3/5, no Sesc-Sorocaba

*Review publicado originalmente na edição #22

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