Arte popular: Entre potências e demarcações

No lançamento de seLecT 30, personalidades da cena artística debatem conceitos do tema da edição

Felipe Stoffa
Da esq. para dir. Adriano Pedrosa, Bruno Faria, Rodrigo Andrade, Vilma Eid, Paula Alzugaray, Ricardo Resende e Daina Leyton (Foto: Leda Abuhab)

Por ocasião do lançamento da edição #30 da seLecT, foi organizado um bate papo informal na Galeria Estação que contou com mediação de Paula Alzugaray e a participação de colaboradores da edição: o curador do Masp, Adriano Pedrosa;  Bruno Faria, artista; Daina Leyton, coordenadora do Educativo MAM São Paulo; Ricardo Resende, curador do Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea; Rodrigo Andrade, artista; e Vilma Eid, diretora da Galeria Estação.

A conversa teve início com Vilma Eid, que situou logo de partida a situação instável do campo de pesquisas sobre arte e cultura popular, com a falta de novas iniciativas ou pesquisadores. “Cada vez que alguém morre, esse processo para”, diz, em referência a Mário Pedrosa, crítico de arte que teve grande interesse pela “cultura de raiz”. Pedrosa escrevia no momento em que a discussão sobre o popular encontrava terreno fértil, em meados de 1970. “O fato é que houve uma parada no interesse por essa pesquisa, como também na oferta de espaços expositivos e nas instituições”. Eid também retoma a exposição de Lina Bo Bardi, A Mão Do Povo Brasileiro, que aconteceu no Masp em 1969. A mostra elaborada pela arquiteta foi crucial para o debate sobre cultura brasileira.

Foi justamente Adriano Pedrosa, diretor artístico do Masp responsável pela reencenação da exposição de Bo Bardi no museu em setembro, quem deslocou a fala de Vilma para uma dificuldade encontrada no próprio campo da arte. O curador problematizou o uso excessivo de nomenclaturas usadas a fim de delimitar movimentos que não são facilmente enquadráveis. Popular seria uma exposição de grande público ou apenas sinônimo de distinção, subjugando tudo o que não se encontra no roteiro oficial? Rodrigo Andrade complementou a fala de Pedrosa, situando no surgimento da cultura de massa o deslocamento do popular para uma combinação mais moderna, caso das icônicas serigrafias de Warhol ou do nacionalismo pop de Jasper Johns.

Já Bruno Faria não é um artista que dialoga com a noção de raiz. Sua produção é permeada por situações que saem do território da arte e se encontram nas mais diversas expressões cotidianas. E assim seu relato partiu de uma vivência pessoal, quando um curador argentino acompanhou o trajeto do artista até seu ateliê no Pivô. A caminhada levou quase o dia inteiro, com direito a companhia durante as compras de materiais e até mesmo uma cerveja e prato-feito no boteco. Fica claro que seu ateliê é, na verdade, a própria rua, e é nesse momento que sua produção conversa com a ideia de popular, como ele mesmo aponta: “meu trabalho vai para o público da arte, mas antes é visto e produzido para o público que está nas ruas”.

A arte consegue alcançar aqueles que estão nas ruas? Essa questão atravessou a fala de Daina Leyton, coordenadora do educativo do MAM São Paulo, ao argumentar que a sociedade não está preparada para conviver e admitir a diversidade. Leyton relata a experiência do educativo do MAM em se relacionar com as diversas tribos e comunidades que se encontram na marquise do museu, situado no Parque Ibirapuera. Esses grupos não se sentiam convidados a entrar no museu e têm uma relação mais espontânea, menos sacralizadora, com a arte. Atualmente o programa desenvolvido pela instituição consegue alcançar e dialogar com o público diversificado que transita pelo parque, fazendo o caminho inverso. Em vez de tentar impor a programação do museu ao público, houve um movimento de escuta sobre que tipo de programação artística esse público quer. A partir da fala de Leyton, Adriano Pedrosa questionou como um programa educativo elaborado para o exterior do museu se relaciona com o seu interior.

A experiência de Ricardo Resende como curador do Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea, no Rio de Janeiro, trouxe novos horizontes ao comentário de Pedrosa. Sua equipe precisa cotidianamente lidar com várias situações que se articulam em torno da instituição, situada no final do morro de Jacarepaguá, uma hora de distância do centro urbano. Em uma das exposições, o público teve a oportunidade de acampar no pátio do museu, e assim não enfrentar o longo trajeto de volta. Outra questão foi a chegada de moradores de baixa renda ao entorno e a vontade da instituição no sentido de encampar essa população em sua atuação.

Rodrigo Andrade retomou algumas provocações, questionando as últimas edições das bienais que, últimamente, apresentam trabalhos hipercomplexos e que não dialogam com a pluralidade dos visitantes do espaço. Mesmo que controversa, sua fala coloca novamente em jogo as diferentes noções de popular e suas implicações na linguagem da arte.

A pluralidade das temáticas lançadas nas falas de cada convidado, em vez de conclusivas, trouxeram novas questões sobre as muitas concepções de arte popular, sendo impossível, portanto, delimitá-la ou situá-la em algum tipo de prática específica. O registro completo da conversa pode ser acessado através do canal da Galeria Estação no youtube.

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