Artista troca tudo

Imerso nas lives, Carlos Monroy explora linguagem própria das redes para fisgar o público e negocia até mesmo esta reportagem

Nina Rahe

Publicado em: 16/10/2020

Categoria: Crítica, Destaque, Reportagem

Era 5 de abril de 2020 e o Instagram emitia o alerta de que @carlos_monroy_visual_arts estava fazendo uma transmissão ao vivo. “É uma performance?”, questionou alguém da meia dúzia de participantes que assistiam ao artista ensinar o passo a passo de um cheesecake que levava uma série de ingredientes que ele não tinha. “Foca na receita”, escreveu um, após acompanhar as complicações de Monroy para acender o forno de um fogão já gasto. À época, com menos de um mês do início do isolamento social no país, o artista colombiano, que vive em São Paulo há mais de uma década, respondeu que aquela não era uma performance, mas apenas um jeito de preencher o tempo e aplacar a solidão. A experiência, que terminou com a apresentação de um doce pouco instagramável – porém gostoso, de acordo com Monroy –, não deixou, no entanto, de ser um teste sobre as possibilidades das redes sociais em um momento em que a maioria dos artistas e instituições já passavam a adotar as lives como regra.

  • Print de live em que Carlos Monroy ensina sua receita de cheesecake
  • Print de live em que Carlos Monroy ensina sua receita de cheesecake
  • Print de live em que Carlos Monroy ensina sua receita de cheesecake

“Eu sou uma bomba de energia e, na pandemia, fui caindo na depressão, porque percebi que a minha obra gira em torno do social. Para trabalhar criativamente, eu precisava da festa, da boêmia, do carnaval, do contato com os corpos”, diz Carlos Monroy à seLecT. “Sempre tive muita resistência às redes, e quando começou o isolamento, tentei fazer yoga no formato live, fiz um bolo, entrei e li um trecho de um livro. Era muito despretensioso, eu era apenas uma pessoa dentro de casa, tentando se desvencilhar do peso da pandemia através do espaço virtual, mas foi importante para entender que eu podia fazer também”, explica

  • Print de After de Bry e Debret, performance realizada a convite do espaço A Mesa dentro da programação da ArtRio 2020
  • Print de After de Bry e Debret, performance realizada a convite do espaço A Mesa dentro da programação da ArtRio 2020
  • Print de After de Bry e Debret, performance realizada a convite do espaço A Mesa dentro da programação da ArtRio 2020
  • Print de After de Bry e Debret, performance realizada a convite do espaço A Mesa dentro da programação da ArtRio 2020
  • Print de After de Bry e Debret, performance realizada a convite do espaço A Mesa dentro da programação da ArtRio 2020
  • Print de After de Bry e Debret, performance realizada a convite do espaço A Mesa dentro da programação da ArtRio 2020

 

Passados seis meses, a aproximação do artista com o universo das lives é completamente distinta. Tanto que, After de Bry e Debret – O Jardim das Delícias Coloniais, a performance que realizou dentro da programação on-line da feira ArtRio na quinta, 16/10, já foi considerada por ele uma versão 2.0 – a próxima apresentação deverá contar com ainda mais recursos e poderá ser chamada de 3.0. Durante a live, de fato, o artista estava bastante confortável na tarefa de ajustar sua imagem às diversas gravuras que iam sendo projetadas. Seu corpo em movimento, que estava em busca de um encaixe perfeito com as figuras em projeção, criava um rico mosaico para quem assistia, com desenhos que iam se mostrando por completo conforme Monroy se mexia diante da tela.
A destreza na performance, com uma sequência de imagens cuidadosamente escolhidas, com direito a uma trilha sonora à altura da imponência das ilustrações de Theodore de Bry – sem dispensar, também, a participação imprevisível de Xica, cadela de Monroy – está justificada pela recente imersão do artista na produção on-line. No início de outubro, ele encerrou o período de um mês com transmissões diárias no espaço Fonte, onde produziu mais de 70 lives.

 

SERVIÇOS PERFORMÁTICOS
A extensa produção, que incluiu práticas de yoga, aulas de dança, sessões de confissão e trocas com o público, surpreende quando pensamos que, no início da pandemia, o artista se dizia resistente às redes sociais – o que tem sentido devido à interação que geralmente envolve suas performances. Suas ações, normalmente, não só contam com a participação do público, como a própria atuação de Monroy é moldada por esse contato. Quando realizou Re-Formando a Fé: 33 Reformances Invisíveis, na mostra Verbo de 2017, por exemplo, embora o espaço contivesse fichas com informações sobre cada uma das ações, para que o público escolhesse uma delas – e as instruções fixadas no local alertassem sobre a possibilidade de ligar para um número de telefone e ouvir textos escritos sobre cada ato – não era incomum encontrar Monroy interpelando o público para explicar as regras do jogo.
“O que acontece no meu caso, normalmente, é que também atuo muito como educador. A pessoa chega, me vê ali parado fazendo nada e eu normalmente não deixo que a pessoa passe de lado, a não ser que eu esteja fazendo algo que não me permita sair do meu papel de performer”, disse em 2018, durante uma entrevista acerca da sua produção. “Isso já vem de uma concepção particular da performance: se tem um peixe na boca, não vou falar, mas, de resto, eu posso entrar no fluxo vital e dizer: olha, ali tem um telefone para você ligar. Não me custa nada fazer isso”.
O desafio imposto para a performance nos tempos pandêmicos, no entanto, é muito mais árduo. Como não deixar passar de lado um espectador que está no espaço apenas virtualmente, com uma presença que se nota somente por números ou por nomes antecedidos de @?
A solução de Monroy durante o mês em que ocupou as redes sociais do Fonte foi, de novo, escapar do distanciamento que muitas vezes envolve as práticas conceituais e performáticas e abusar de uma linguagem que é própria das redes sociais. Seu One Month-Roy, “um mês de serviços performáticos experimentais com Carlos ‘Marilyn’ Monroy” começou tímido, com práticas diárias de yoga no quadro Respirartsy – que ganhavam plasticidade ao serem realizadas em frente a projeções de vídeos de artistas –, e aulas de dança em Dançando por un Sueño, com professores de diferentes países da América Latina.

Mas enquanto essas propostas possibilitavam menor participação do público, que poderia acompanhar e realizar as ações juntamente com o artista, os quadros, aos poucos, foram sendo moldados com a função de ampliar esse contato. Em Mea Culpa, por exemplo, Monroy cria uma espécie de confessionário de reality show e passa uma hora ao vivo expondo não só os seus próprios segredos, como assumindo as confissões dos participantes, que tinham a opção de enviá-las por texto. No Clube da Paquera, também, o artista leva ao extremo o ambiente de azaração das redes sociais, intensificado durante a pandemia, e intima os espectadores para conversas que giram unicamente em torno da sedução.
No texto de encerramento do projeto, o curador Marcelo Amorim explica que Carlos Monroy, no decorrer da ocupação, assumiu uma série de personagens, como o guru do yoga, o apresentador de televisão, o sedutor, o bailarino e o vendedor. Este último, inclusive, garantiu a publicação desta reportagem no quadro Artista Troca Tudo, quando negociou duas obras em serigrafia por uma análise crítica do seu trabalho.

ATITUDE MEGALOMANÍACA
Quando aceitou participar da residência no Fonte, Carlos Monroy se lembra que Marcelo Amorim mencionou não conhecer nenhum artista mais megalomaníaco que ele, explicando que Monroy sempre começa com algo pequeno para ir então expandindo. A expansão, neste caso, faz com que este texto seja também desdobramento e consequência da sua performance. Durante a transmissão de Artista Troca Tudo, quadro em que participei e no qual Monroy disponibilizava seu acervo para quem lhe oferecesse um bom negócio, propus recebê-lo em minha casa com um almoço em troca de serigrafias. Em resposta, com a boa lábia de vendedor, ressaltando seus pertences de modo similar a um apresentador de televendas, o artista negociou, para além do almoço, uma reportagem sobre o seu trabalho em algum veículo de comunicação. A ideia, segundo ele, parte do fato de que minha dissertação de mestrado, defendida em 2019, tinha obras suas como objeto de análise.

  • Detalhe de uma das serigrafias de Carlos Monroy
  • Detalhe de contrato de troca realizada entre Carlos Monroy e Nina Rahe

A prática de transformar uma ação em outra, com uma proposição inicial que se desdobra em várias, não é algo novo em seu trabalho. Quando o artista realizou uma venda para o curador Paulo Miyada, em 2012, por exemplo, ele redigiu um contrato especificando não só seu compromisso em realizar a ação performática, mas inseriu no documento cláusulas de satisfação e insatisfação, prevendo multas e bonificações para as partes envolvidas. A multa seria Monroy se desculpar pessoalmente com os presentes no recinto, caso não agradasse. Sua bonificação, se a performance fosse bem avaliada, seria Miyada elogiar o ato e o artista para cada um dos espectadores da ação.
A experiência em Artista Troca Tudo, assim, desdobrou-se não apenas na negociação de objetos, como rendeu a Monroy consultorias com alguns dos envolvidos – sobre contratos, com um advogado, e em marketing, com um publicitário participante. Além dessas ações, sua atuação também resultou em um extenso arquivo, que inclui 30 sessões de yoga, com projeções de 30 videoartistas; 26 aulas de dança, quatro confessionários e duas sessões de trocas com o público, entre outros. Visto em retrospecto, todo esse registro talvez não tenha o mesmo impacto da experiência ao vivo, uma vez que, on-line, o espectador pode avançar e recuar no tempo, conseguindo uma autonomia que independe da sua relação com o artista – algo que não é possível durante a live.
O balanço, para Monroy, foi ter realizado algo poderoso e revolucionário. “Foi extenuante, mas a gente sentiu que estava fazendo história. De alguma forma, se os formatos evoluírem, nós vamos ser uma pequena referência”, diz.
Talvez, por isso, o vídeo de encerramento do projeto – uma espécie de versão pop do comercial veiculado por Chris Burden na década de 1970, no qual o artista coloca seu nome ao lado de ícones como Michelangelo, Leonardo da Vinci e Pablo Picasso – seja Monroy dançando e cantando um funk em que enuncia nomes como Alfredo Volpi, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Frida Kahlo, Marcel Duchamp e, claro, Carlos Monroy.

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