Artistas vs. Estado

Classe artística se revolta contra o decreto que retira o Museu de Arte Contemporânea do Pará da Casa das Onze Janelas

Ana Abril

Publicado em: 11/07/2016

Categoria: Da Hora, Notícias Quentes

Casa das Onze Janelas, em Belém do Pará (Foto: Reprodução)

A retirada do Museu de Arte Contemporânea de Belém do Pará da Casa das Onze Janelas é uma das principais preocupações do mundo artístico e cultural na região Norte do Brasil. Artistas, pesquisadores e professores do Pará estão revoltados ante o fechamento de um espaço cultural em um estado com a segunda pior média nacional de museus por pessoa. O Pará, que possui um museu a cada 173 mil habitantes, só ganha do estado do Maranhão.

As razões do fechamento da Casa das Onze Janelas foram justificadas pelo governo do Estado do Pará, em decreto publicado no Diário Oficial em 20/6, com a construção do Polo Gastronômico de Belém. Em 1/7, o governo publicou nota oficial destacando a importância do Polo para o estado e população paraense. “O Polo de Gastronomia é mais do que um projeto. É também um sonho de muitos [..]”, explica a nota.

Para fugir de polêmica, o texto afirma que “jamais foi sequer cogitada pelo governo do Estado a hipótese de fechar o Museu de Arte Contemporânea ou qualquer outro museu do estado”. De acordo com o documento, pelo menos três alternativas estão sendo cogitadas para abrigar o Museu: uma em um prédio próximo ao atual; outra no prédio histórico Palacete Facciole; e, por último, a construção de um espaço específico na área do Novo Parque do Utiga.

Em resposta à nota oficial, Val Sampaio, artista, professora e pesquisadora da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal do Pará, responde a essas informações com vários questionamentos: Por que querem fazer o Polo Gastronômico em um espaço cultural que funciona e que é relevante para o estado de Pará? Por que não fazer o Polo em outro lugar? Quem está interessado na Casa? Isso é um jogo de cortina de fumaça”, afirma à seLecT.

A artista assegura que ainda não houve nenhuma explicação sobre a função exata do Polo. Essa é uma reivindicação do grupo Casa das Onze Janelas é Nossa, movimento político cultural para manter o Museu de Arte Contemporânea do Pará em seu atual endereço. O movimento é formado por um grupo de artistas, professores e pesquisadores; entre eles Val Sampaio, Luiz Braga e Geraldo Teixera. “Na nota aparecem frases vagas como que o Polo trará desenvolvimento e oportunidades para a população paraense, sendo que esse é um discurso político comum. O que vai acontecer daqui a um ano e meio, quando a Casa estiver fechada e o Polo ainda inexistente?”, reivindica Val Sampaio, em referência à nova eleição que poderá tirar o atual governador do Pará e um dos idealizadores do Polo, Simão Jatene, do cargo.

De acordo com a diretora do Sistema Integrado de Museus (SIM) da Secretaria da Cultura, Mariana Sampaio, o Museu de Arte Contemporânea “precisa de um espaço que se adeque às necessidades de obras e peças contemporâneas, e não um lugar como a Casa das Onze Janelas, construída no século 18”, e adiciona: “Eu tenho que estar alinhada com o governador”.

Questionada a respeito, Val Sampaio afirma: “Para construir um Museu de Arte Contemporânea precisa-se de tempo, mais do que um ano e meio”. A artista assegura que a Casa das Onze Janelas está mais do que pronta para ser um espaço que abriga arte contemporânea e, além disso, faz parte de um projeto que insere o museu em uma paisagem única e o coloca em conversa com outros museus do bairro, como Museu de Arte Sacra e o Museu Antropológico”. Segundo ela, também é possível construir anexos caso mais espaço seja necessário. Atualmente, a construção de prédios anexos é um movimento natural de ampliação dos museus ao redor do mundo.

Durante a ditadura militar, A Casa das Onze Janelas serviu como uma prisão de presos políticos, mas suas instalações foram ressignificadas há 14 anos, quando o prédio passou por reformas para integrar o Complexo Feliz Lusitânia, núcleo histórico da cidade de Belém. Agora, o decreto 1.568 pretende usar o espaço para construir o Polo Gastronômico, cuja administração ainda não foi decidida. Um dos concorrentes seria o Instituto ATÁ, pertencente ao chef Alex Atala, mas, após fortes críticas, Atala desistiu e disse que não faria parte de “um projeto que valoriza a cultura culinária do Pará desabrigando demais expressões de arte, como as que tinham como morada o Museu Casa das Onze Janelas”. Ainda, Val Sampaio assegura que o decreto nasceu após a articulação realizada pelos artistas. “Várias figuras da arte elogiaram o sistema de museus do qual a Casa das Onze Janelas faz parte e, agora, estão planejando a morte do Museu”.

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