As palavras que não posso lhe dizer (ou A impossível dedicatória)

Paul B. Preciado sobre os novos hábitos e uma tarefa heroica durante a pandemia

Paul B. Preciado

Publicado em: 11/05/2020

Categoria: Da Hora, Destaque

(Foto: Paul B. Preciado)

Durante o confinamento, no tempo do coronavírus, entre a desordem do tempo e a reorganização das tarefas cotidianas trazidas pela paralisação geral, adquiri um novo habito. Todos os dias, às 20h30, depois ir a varanda para aplaudir ou gritar, atendo a chamada por videoconferência de meus pais. Eles estão em uma cidade no norte de Castela, e eu, em um bairro de Paris. Antes do coronavírus, conversávamos uma vez a cada dois meses, por ocasião de eventos importantes, festas, aniversários. Mas agora a ligação diária se tornou um balão de oxigênio. É o que declara minha mãe, que sempre teve talento para o melodrama, assim que a tela se abre: “Ver você é como sair e respirar”. Meu pai tem noventa anos, é um homem dinâmico que, antes deste enclausuramento, andava oito quilômetros por dia. Ele também é um homem frio: um menino abandonado por seu próprio pai, que cresceu sem carinho, convencido de que o trabalho era sua única razão de existir. Embora os idosos não possam sair, meu pai desce todos os dias para comprar o pão a duzentos metros da casa, usando luvas e máscara. “Ninguém pode lhe recusar isso”, diz minha mãe. E  acrescenta, enquanto ele se afasta: “Talvez nunca mais possamos caminhar juntos pelas ruas. Pode ser sua última primavera. Ele deve poder sair.”

Minha mãe se refere à mim às vezes no masculino, às vezes no feminino, mas ela sempre me chama de Paul. Gosto quando meu pai pergunta “Quem é?” e minha mãe diz: “É o nosso Pol”. Ela imagina meu nome escrito assim. A cada ligação, meu pai inspeciona meu rosto na tela como se quisesse examinar as mudanças produzidas pela minha transição de gênero. Mas também, como se estivesse procurando seu rosto no meu: “Você se parece cada vez mais com seu pai”. disse minha mãe. A transição enfatizou a semelhança de nossos traços, como se trouxesse à tona um fenótipo que o estrogênio havia empurrado para o reino do invisível. Não digo a ele, mas essa nova semelhança é tão perturbadora para mim quanto o é para ele.

Outro dia, meu pai me perguntou: “Por que você não deixa sua barba crescer no rosto todo?” “Porque não cresce uniformemente”, expliquei. “Comecei a tomar testosterona aos 38 anos e, quando os poros da pele estão fechados, os pelos não podem crescer. “Muito barulho por nada”, respondeu meu pai. “Deixe-o em paz, não toque na barba dele. Ele lá fala da sua?”, replicou minha mãe. Quando explico a ele que estou revisando um novo livro que será lançado em junho, minha mãe me pergunta com um interesse que revela seu desejo, a quem eu o dedicarei. “A Judith Butler”. “Quem é essa senhora?”, pergunta ela. Explico a ela que não é uma senhora, que é uma pessoa que não se identifica como homem ou mulher, que acabou de obter seu certificado de pessoa não-binária na Califórnia. E isso é um marco, como quando eu obtive minha mudança oficial de gênero em 2017. Explico a eles quem é este/a filósofo/a, graças a quem eu entendi que a prática da filosofia era possível mesmo para aqueles considerados desviantes ou degenerados. “Mas se não é homem nem mulher”, pergunta meu pai, “o que é ?” “É livre”, respondo. “Muito barulho por nada”, ele repete. Nós três rimos. Antes de desligar, meu pai, que nunca disse que me amava, chega muito perto da tela e me manda um beijo. Não sei como reagir ao seu gesto inesperado. “Esperamos por você amanhã”, diz minha mãe, “para nossa saída diária juntos”.

Após o último encontro com eles, entendendo o pedido implícito de minha mãe e vendo-os tão frágeis e de repente tão afetuosos, me digo que gostaria de poder lhes dedicar um livro um dia. E então me ocorre que, para que eles possam tirar proveito dessa dedicatória sem se ofenderem com o conteúdo, eu precisaria escrever um livro no qual as palavras homossexual e homossexualidade, as palavras transexual, transgênero e transexualidade, onde a palavra sexo não apareceriam, nem a palavra sexualidade, nem estupro, nem profissional do sexo, nem prostituição, nem aborto, nem penetração, nem vibrador, nem ânus, nem ereção, nem pênis, nem pau, nem vagina, nem vulva, nem clitóris, nem peitos, nem mamilos, nem foda, nem ejaculação, nem AIDS, nem orgasmo, nem felação, nem sodomia, nem masturbação, nem perversão, nem bicha, nem lésbica, nem lesbianismo, nem sapatão, nem gay, nem garçon manqué, nem caminhoneira, nem puta, nem mastectomia, nem faloplastia, nem doença mental, nem disforia de gênero, nem psicose, nem esquizofrenia, nem depressão, nem pornografia, nem farmacopornografia, nem merda, nem vício, nem drogas, nem toxicomania, nem alcoolismo, nem maconha, nem heroína, nem cocaína, nem metadona, nem morfina, nem crack, nem traficante, nem suicídio, nem prisão, nem criminoso… E me digo que o próprio exercício de escritura seria heroico. O livro seria uma longa perífrase Barthesiana, mas também uma boa distração para período de confinamento.

Paul B. Preciado é filósofo, curador e ativista trans

Tradução do francês por Betina Zalcberg

Publicado originalmente no jornal Libération, em 24/4/2020

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