Astronautas libertários

Paula Alzugaray

Publicado em: 26/03/2012

Categoria: cinema, Da Hora

Tropicália e 1/2 Revolução reconstituem dois gritos de liberdade nas histórias do Brasil e do mundo árabe

Tropicalia_1

No dia 21 de julho de 1969, quando os jornais de todo o mundo anunciavam a chegada do homem à lua, no Brasil, a conquista interplanetária dividia as chamadas de capa com a notícia da execução de um homem a queima roupa por forças para-militares. Naquele marcante ano de 1969, Caetano e Gil, que já eram grandes estrelas da Musica Popular Brasileira, estavam exilados em Londres, e o Tropicalismo já havia sido simbolicamente enterrado no palco de um show dos Mutantes, um ano antes.

Meia Revolução

No dia 25 de janeiro de 2011, a população do Cairo ocupa as ruas da cidade e permanece fora de casa durante dezoito dias, até derrubar o ditador egípcio Hosni Mubarack. Os protestos, manifestações e conflitos com forças simpatizantes do regime foram documentados por milhares de câmeras celulares e disparadas pela internet para o mundo todo. A força dessas imagens gera um efeito cadeia no mundo árabe e incita o levante generalizado que ficou conhecido como Primavera Árabe.

Destaques da 17ª edição do festival É Tudo Verdade, Tropicália, de Marcelo Machado, e 1/2 Revolução, de Omar Shargawi e Karim El Hakim, reconstituem dois gritos libertários que marcaram as histórias político-culturais do Brasil e do mundo árabe.

Tropicália é um filme de arquivo feito com documentação de shows, entrevistas e arquivos pessoais, além de entrevistas atuais com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, Arnaldo Batista, Sergio Dias e Tom Zé. O filme, que abriu o festival em São Paulo, conta a história relâmpago de um dos movimentos mais férteis de toda a história da cultura brasileira. O grande mérito do documentário é traduzir em duas horas a poderosa carga criativa que aproximou música, artes visuais, cinema e literatura, em uma autêntica revolução.

Retrato do cantor Caetano Veloso. Publicado na revista Super Pop, em 02/1973. Data: 00/01/1974 Data: 00/01/1974 Data: 00/01/1974 Data: 00/01/1974 Data: 00/01/1974

Retrato do cantor Caetano Veloso.
Publicado na revista Super Pop, em 02/1973.

“Qual é a cola que mantém nossos átomos presos? Qual é a cola que aproximou todas essas pessoas?”, indaga o mutante Sergio Dias em um dos depoimentos mais emocionantes do filme. Depois de assistir a Tropicália, saímos com a gratificante impressão de que ela foi um cometa que atravessou o Brasil do começo de 1967 ao final de 1968, antes do Brasil afundar nas trevas do AI-5, o mais severo e anti-constitucional dos decretos emitidos pelo regime militar, que levou Caetano Veloso e Gilberto Gil para a cadeia, antes de expulsá-los do país.

Ao contrário, 1/2 Revolução documenta os dias que a população do Cairo levou para se libertar das trevas. Embora o excesso de imagens trêmulas e respirações ofegantes contribuíam para reforçar a sensação do clichê jornalístico das matérias quentes, transmitidas no calor da hora, o filme tem a qualidade de reunir em duas horas imagens que se dispersaram pelo mundo e pelas redes.

Tropicália e 1/2 Revolução são, portanto, documentos fundamentais sobre a liberdade.

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