Atores do Pará

Com uma linguagem própria de pintura, com matizes monocromáticos que fazem referência à cultura popular e captura de comunidades das margens da discriminação, Éder Oliveira realiza individual na Blau Projects, em São Paulo

Tobi Maier

N° Edição: 25

Publicado em: 25/08/2015

Categoria: A Revista, Crítica

Sem título - Belém, 2015, intervenção urbana de Éder Oliveira em muros da cidade dá protagonismo a faces anônimas (Foto: Marcelo Lelis)

Uma das vistas mais reproduzidas em matérias de jornais sobre a 31ª Bienal de São Paulo (2014) foi a das pinturas nas paredes, executadas pelo jovem artista Éder Oliveira no piso térreo do Pavilhão da Bienal. Os retratos em grande formato, de escala maior que a humana, irrompiam sem emoções, quase tristes, e desde as rampas do icônico edifício modernista de Oscar Niemeyer eles pareciam um pouco fora de contexto. Talvez suas cores – vermelho, marrom e laranja – estivessem sinalizando alguma urgência, algum tipo de presença estranha. Quem eram os representados? O que significavam essas presenças? A noção frequentemente citada de que São Paulo é alavancada pelo trabalho dos migrantes nordestinos? Não havia uma resposta clara para essas questões, mas a produção do artista que suscita as ruas e murais de Belém do Pará, em nítido ambiente externo, luziam berrantes dentro do Pavilhão. Eram retratos de pessoas supostamente envolvidas em crimes, seus rostos divulgados pela polícia, ou por paparazzi, e reproduzidas nas capas dos jornais locais.

Oliveira arrasta esses rostos anônimos, captura-os das margens da discriminação e os insere no momento célebre da exposição de arte contemporânea, reinstaurando, assim, a dignidade dos seus protagonistas. Aqui eles fogem do estigma do envolvimento em crimes, sustentado por jornais que vendem suas edições por meio da especulação e do espetáculo. Nas obras de Oliveira, esses rostos recuperam uma aura individual, quase sacra, à qual é permitido um encontro mudo, porém sem preconceitos, com o espectador. A instalação de pinturas sem título atravessava o canto oriental do pavilhão, perto do enigmático filme Wonderland (2013), de Halil Altindere, estabelecendo uma analogia entre os atores do Pará e os jovens que atuam nas margens da sociedade de Istambul.

S-1iii, 2015 - Óleo Sobre Tela - 100x130cm Tommaso Protti

S-1lll, 2015, óleo sobre tela de Éder Oliveira retrata jovem alistado nas Forças Armadas (Foto: Tommaso Protti)

Identidade e Violência
Pouco depois da 31ª Bienal de São Paulo, Éder Oliveira participou de um projeto de arte pública na rodoviária de Cidade Tiradentes, em São Paulo. É Como Se Fosse Verdade (2015), organizado pelos artistas pernambucanos Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, em colaboração com Bobby Djoy. Nesse trabalho, 43 capas de CDs foram impressas em lonas de grande formato, apresentando os moradores do bairro em busca da realização de sonhos e desejos como a casa própria, a fama como cantor ou uma viagem de férias em um país estrangeiro. Os projetos de Oliveira, que vem de um lugar especifico, evocam obras de outros artistas que trabalham com a formação de um pensamento identitário intrínseco a comunidades reais ou imaginárias. Lembramos, por exemplo, das obras de Claudia Andujar da série Marcados (1983-1984), ou das séries de retratos fotográficos produzidas por August Sander e Hans Eijkelboom, apresentadas na 30ª Bienal de São Paulo. Podemos aqui também pensar no debate recente sobre os retratos de celebridades que circulam no Instagram e são apropriados pelo artista norte-americano Richard Prince.

Em outras séries de Oliveira, como as obras apresentadas na individual Alistamento, com curadoria de Marta Mestre, no Sesc-Boulevard, em Belém, até julho passado, o artista retrata jovens alistados nas Forças Armadas. Neste caso, ele não se baseia em fotografias da imprensa, mas entrevista os militares, tocando em questões de identidade, militarismo e violência, e trazendo à tona temas pouco discutidos quando criticamos os corpos que estão sob os uniformes do Poder Executivo. Reparamos que Éder Oliveira tem encontrado uma linguagem própria de pintura, usando matizes monocromáticos que fazem referência à cultura popular e, no caso das obras produzidas em telas, com uma espessura mais grossa de tinta, quase evocando os retratos pintados por Flávio de Carva- lho. Em sua mostra individual na Blau Projects, em São Paulo, será possível ver se o artista logra evitar cair numa produção seduzida por vínculos e estéticas folclóricas e aprimora seu trabalho conceitual.

A seção Vernissage é um projeto realizado em parceria com galerias de arte que prevê a publicação de um texto sobre a obra de um artista que estará em exposição durante os meses de circulação da edição.

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