Aura remasterizada

Instituto Goethe de Porto Alegre produz exposição para pensar a atualidade das obras de arte criadas para serem reproduzidas

Márion Strecker
Falso Andy Warhol (Missões), fotocópia em papel dos anos 1990 de Vera Chaves Barcellos (Foto: Arquivo da FVCB)

O Museu de Arte do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, abriga até 11 de novembro uma exposição de 14 artistas, 5 alemães e 9 gaúchos, cujo título é O Poder da Multiplicação ou Aura Remastered. Entre os artistas estão Regina  Silveira, Carlos Vergara, Vera Chaves Barcelos, Xadalu, Tim Berresheim, Hanna Hennenkepmer, Thomas Kilpper e OttJörg A.C..

O projeto explora alguns conceitos estabelecidos pelo filósofo judeu alemão Walter Benjamin (1892-1940), em particular no ensaio A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica, de 1936, que foi tido como a primeira grande teoria materialista da arte.

Benjamin aponta que a produção artística é rodeada de uma “aura”, que simboliza sua singularidade. A “aura” representa a autenticidade e a unicidade da obra de arte. O surgimento de técnicas de reprodução, como a fotografia e o cinema, provocariam uma diluição ou superação dessa “aura”, fazendo com que a obra de arte perdesse o caráter de objeto de culto. Por outro lado, faria com que a arte ganhasse outra dimensão política e social, podendo atingir as massas e tornando-se independente de um substrato único.

Another World Is Necessary or Don’t Think About the Crisis – Fight! (2016), xilogravura (escavada no chão) no Vila Flores, Porto Alegre, do alemão Thomas Kilpper

 

Teria a arte se emancipado do seu caráter aurático ou a aura de alguma forma se adaptaria às mudanças técnicas consequentes da industrialização? O objetivo do curador da exposição, o alemão Gregor Jansen, é contribuir para a reflexão sobre a questão da reprodução da obra de arte na atualidade. As reproduções, tiragens múltiplas ou cópias seriam instrumentos de comunicação contra o conceito autoritário de originalidade. Estaríamos produzindo uma nova matriz de reprodução (aura remastered), que estaria alterando ou aperfeiçoando sua qualidade anterior?

Unplugged 1 (2011), fotogravura de Regina Silveira (Foto: Reprodução)

 

Gregor Jansen teve a colaboração de Paulo Gomes, Francisco Dalcol, Andreas Schalhorn para chegar aos nomes dos brasileiros que integram essa exposição, que depois de Porto Alegre será mostrada também em Leipzig, em março do ano que vem.

Os artistas da exposição lidam com a reprodutibilidade de maneiras muito diferentes. Há de xilogravura a realidade aumentada com o uso de aplicativos de celular.

Column 2, combinação de bravura em meal e litografia sobre papel da alemã Hanna Hennenkemper (Foto: Divulgação)

 

Um dos destaques da mostra é Xadalu, artista mestiço nascido em Alegrete (RS), que milita pelas causas indígenas e trouxe guaranis para cantar, dançar e expor artesanato na abertura da mostra. Xadalu, que no civil se chama Dione Martins da Luz, tirou seu apelido de Shadaloo, do desenho Street Fighter. Ele costuma fazer residências artísticas em comunidades indígenas no sul do Brasil e na Argentina. Suas linguagens são a serigrafia, a pintura e a fotografia, além dos adesivos que produz para colar na ruas e trocar com outros artistas do mundo. Na exposição, realizou serigrafias que distribuiu ao público. Nas ruas de Porto Alegre, ele mostra interpretações pictóricas grandes e supercoloridas das miniaturas de animais -como onça, macaco ou capivara- que os guarani costumam fazer como brinquedo para as crianças.

Indígenas guarani fazem apresentação musical e de dança na abertura da exposição O Poder da Multiplicação, a convite do artista Xadalu, no MARGS (Foto: Márion Strecker)

 

A exposição faz parte de uma série de atividades que o Instituto Goethe desenvolve desde 2015 com artistas e instituições, com foco especial na arte impressa. Residências artísticas, exposições, concursos e publicações foram desenvolvidas.

Também fazem parte da mostra edições especiais dos jornais alemães Süddeutsche ZeitungFrankfurter Allgemeine Zeitung e Die Welt, ilustradas por artistas como Anselm Kiefer, Jenny Holzer, Sigmar Polke, Gerhard Richter e Georg Baselitz.

Intervenção da série Marca Urbana, do alemão Ottjörg A.C na Praça da Alfândega, em Porto Alegre, em que placa de resina de poliéster ocupa o lugar da placa que um dia trazia informações sobre o busto que ali está (Foto: Fernando Zago, Ottjörg A.C.)

 

A próxima atividade será o lançamento de um game intitulado Aura Remastered, em parceria com o Instituto de Artes da UFRGS. O game pretende permitir, por via da simulação e da metáfora, a experimentação de técnicas de reprodução.Para jogar, o usuário deverá copiar e colar figuras (adesivos, carimbos, estênceis) que podem levar a ultrapassar obstáculos e destruir o muro que impede a visibilidade de outros mundos possíveis. O lançamento será em 16 de outubro no museu.

 

Serviço

Exposição O Poder da Multiplicação
MARGS – Museu de Arte do Rio Grande do Sul
Praça da Alfândega, s/n°. Porto Alegre/RS
Visitação: de terças a domingos, das 10h às 19h
Até 11 de novembro de 2018

Leipziger Baumwollspinnerei – Alemanha
De 28 de fevereiro a 24 de março de 2019

 

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