Autorreflexão sobre o jornalismo frente às fake news

Livro de Patrícia Campos Mello analisa a relação entre a ascensão da extrema direita e a disseminação de informações falsas

Leandro Muniz

Publicado em: 19/01/2021

Categoria: Da Hora, Destaque, Reviews

Capa do livro A Máquina do Ódio
A Máquina do Ódio (2020), de Patrícia Campos Mello (Foto: Reprodução)

Desde 2008, a repórter Patrícia Campos Mello tem acompanhado os processos eleitorais nos Estados Unidos, Brasil e Índia e como, cada vez mais, as campanhas políticas têm usado as redes sociais para a disseminação de suas propostas, escapando das mediações da imprensa tradicional. O ponto chave do livro A Máquina do Ódio: Notas de uma Repórter sobre Fake News e Violência Digital está na análise rigorosa de como a disseminação de informações falsas para fins de controle social está intrinsecamente ligada a estratégias de desmonte e descrédito do jornalismo profissional, tanto em termos morais, quanto econômicos.

Campos Mello identifica modos de operar em comum entre os governantes desses países, mas aqui cabe destacar as similaridades de performance entre Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro, atual governante no Brasil, dado que o caso da Índia encontra dimensões e contexto social com características próprias. Os dois governantes do continente americano sempre demonstraram posturas machistas, xenófobas e voluntariosas durante suas campanhas e seus (des)governos. A repórter analisa, então, como robôs e empresas contratadas para enviar mensagens via Whatsapp contribuíram na eleição de Trump e Bolsonaro e como ambos reiteradamente criam falsas polêmicas e descreditam as ações investigativas de jornalistas e repórteres, desviando a atenção pública dos fatos.

Capa do livro A Máquina do Ódio

A Máquina do Ódio (2020), de Patrícia Campos Mello (Foto: Reprodução)

O argumento é que o alvoroço provocado por suas declarações é uma estratégia para desviar a opinião pública de uma reflexão mais aprofundada sobre as bases e consequências dos acontecimentos em seus respectivos países, levando à indagação: como noticiar as barbaridades dos discursos de Bolsonaro ou Trump sem endossar suas falsas polêmicas?

A partir daí, a repórter aponta como os limites de uma suposta objetividade jornalística muitas vezes tratou com eufemismo as atrocidades de Bolsonaro contra mulheres, negros, indígenas e grupos LGBTQIA+. Ou como as formas de apuração dos fatos, quando não estão claras, contribuem para um processo de mistificação que é usado contra os profissionais da imprensa. Em A Máquina do Ódio, há simultaneamente uma análise da situação política e uma reflexão sobre o próprio jornalismo, explicitando a necessidade urgente de apurações mais rigorosas, que façam frente ao excesso de informações da internet.

Autorreflexão e transformação
Ao explicitar como acessou certas fontes ou como conferiu informações ouvindo diversos lados da questão, Campos Mello expõe as metodologias de pesquisa e estratégias de apuração de dados, que fazem de seu livro uma reflexão crítica e propositiva sobre o próprio jornalismo.

Se não há reportagem absolutamente “neutra”, na medida em que a própria ordem dos fatores ou o Lead de um texto já hierarquizam a informação, há modos de organizar a escrita para gerar um panorama das diversas forças em jogo e dos interesses em torno de um determinado problema. Trabalho que exige averiguação e comedimento em meio às urgências da prática jornalística.

Logo após a eleição de Bolsonaro, Campos Mello publicou uma série de reportagens apurando como o Whatsapp foi usado para sua popularização, o que lhe rendeu ataques pessoais vindos tanto do governante quanto de seus eleitores e comparsas. Em uma série de vídeos e memes, a jornalista se tornou alvo de uma massa incentivada por Bolsonaro e seus filhos para o desencorajamento e o descrédito do jornalismo profissional, valendo-se da violência digital que faz parte de um processo mais amplo de performance e ação da extrema direita.

Além do “assassinato de reputações”, outras estratégias de desmonte do jornalismo identificadas pela repórter são diversas formas de coibição à saúde financeira dos veículos, que vão de declarações de Bolsonaro contra patrocínios a cortes de leis de incentivo e financiamento público.

Lançado em julho de 2020, pela Companhia das Letras, A Máquina do Ódio parte de casos específicos de uso da internet para fins de controle político, que ganham paralelos em outros contextos para além daqueles analisados no livro. Logo no começo de 2021, a jornalista chinesa Zhang Zhan foi presa por “procurar briga e criar problemas” por sua cobertura independente no início da pandemia do coronavírus e a ONG Repórter Brasil sofreu ameaças caso certas reportagens sobre direitos trabalhistas e socioambientais não fossem apagadas. Cada vez mais, jornalistas – de diversos espectros ideológicos – alertam para os perigos das ações irresponsáveis de Bolsonaro, suas posturas negacionistas e voluntariosas, e as formas como essas notícias fabricadas circulam, da falsidade ao encobertamento.

Outros casos inter-relacionados sobre a disseminação de informação e a ação política não param de crescer, confirmando os diagnósticos de Campos Mello. A acuiade e a contundência da jornalista lhe valeram, em dezembro de 2018, uma citação da revista norte-americana Time entre os “jornalistas guardiões da busca pela verdade”, eleitos como a Personalidade daquele ano.

A Máquina do Ódio: Notas de uma Repórter sobre Fake News e Violência Digital é um livro necessário para compreendermos as relações intrínsecas entre a ascensão da extrema direita e os usos da internet, com suas violências e questões éticas próprias. Nesse contexto, a circulação, o controle e o cuidado com a informação são ferramentas de transformação.

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