Ave Sangria alça voo

O ciclo musical da guitarra lírica e melodiosa de Paulo Rafael se fecha

José Teles

Publicado em: 30/08/2021

Categoria: Da Hora, Destaque, Opinião

Paulo Rafael (Foto: Percio Leandro Siqueira)

“Morre guitarrista de Alceu Valença”. Foi basicamente este o título da maioria das matérias sobre a morte de Paulo Rafael, acontecida no dia 23/8, em consequência de um câncer. Curioso é que Paulo Rafael não gostava de ser chamado de “guitarrista de Alceu Valença”. Não era de egotrip. Muito pelo contrário, ninguém menos ególatra do que Paulo Ramiro Rafael Pereira, caruaruense, da classe de 1955. Mas a recorrente associação do seu nome ao cantor, era como se ele não tivesse feito outra coisa na vida. Se tivesse sido só músico da banda de Alceu Valença, mesmo assim, sua importância extrapola ao de acompanhante. Paulo Rafael tornou-se elemento intrínseco à música de Alceu Valença. A asserção é bem ilustrada pelos solos de guitarra em Anunciação. Não se imagina a canção sem a sua guitarra lírica e melodiosa.

O guitarrista Paulo Rafael (de vermelho), falecido em 23/9, em foto de lançamento do primeiro álbum da banda pernambucana Ave Sangria, em 1974 (Foto: Divulgação)

Tivesse nascido nos anos 20, ou 30, é provável que Paulo Rafael tivesse sido músico, mas não guitarrista. Tocaria saxofone, trompete, trombone, enfim, algum instrumento de banda de música e talvez com nome incluído na história do frevo. Sua casa, na Rua 1º de Maio, em Caruaru, ficava em frente à sede da Banda Comercial, regida por seu padrinho, o que lhe dava acesso aos ensaios e a decorar o repertório de dobrados, temas religiosos, ou frevos.

No entanto, quando se mudou para a capital, aos 12 anos, a música que predominava era o iê-iê-iê. A primeira guitarra que viu de perto foi em Caruaru, tocada por um primo dele. Aprenderia violão no Recife. Aos 14 anos formaria uma bandinha de garagem, The Jopens, na qual foi baixista. Um dos integrantes do grupo era Lailson de Holanda Cavalcanti. Os dois, mais José Oliveira, o Zé da Flauta, formariam o grupo Phetus, em 1973, em que misturavam o prog rock inglês, com música medieval e nordestina, com influência do Black Sabbath, na temática gótica das letras e na indumentária. Os shows do Phetus só começavam à meia-noite, antecipados pela gravação das doze badaladas de um sino.

Em 1974, Lailson assumiu seu lado de desenhista, começando uma longa carreira de cartunista, bastante premiado, no Diário de Pernambuco. Paulo Rafael foi convidado para tocar num grupo chamado Tamarineira Village, que se preparava para gravar disco pela Continental, e mudou o nome para Ave Sangria. Aos 19 anos, Paulo Rafael ainda era aprendiz de feiticeiro, tocou contrabaixo na banda, que tinha como guitarrista um talento subestimado da guitarra brasileira, Ivson Wanderley (1953/2015), músico que abriu a primeira noite brasileira no festival de jazz de Montreux, na Suíça, em 1978, sem nem ter disco solo gravado (estreou com um álbum que traz o registro desse concerto em Montreux). “Como eu era o mais novo da banda, quando tinha bronca na Polícia Federal me escalavam pra ir lá”, contava Paulo. As broncas eram garantir o carimbo da PF nos cartazes de shows ou explicar eventuais mudanças de repertório (em tempos de censura prévia, os policiais federais tinham o privilégio de ver os shows com antecedência, para aprová-lo, exigir modificações, ou simplesmente vetá-los).

Capa Ave Sangria (Foto: Divulgação)

Abertura
O Ave Sangria foi derrubado quando alçava vôo. O LP de estreia proibido pela censura e recolhido nas lojas. O motivo: o samba-choro, Seu Valdir, cuja letra é a declaração apaixonada de um rapaz por um coroa (seria gravada por Ney Matogrosso, em 1981). O álbum foi relançado sem a faixa condenada. Mas a ave sangria, de asas cortadas, não conseguiu mais voar. Acabou em 29 de dezembro de 1974, com dois shows realizados no vetusto Teatro de Santa Isabel, no Recife. Voltaria 45 anos mais tarde, para o reconhecimento merecido, com disco de inéditas e álbum duplo com o registro do show do Sta Isabel.

Paulo Rafael contou, em entrevista, que viu Alceu Valença pela primeira vez, por volta de 1974, quando se cruzaram em uma Rua da Boa Vista, bairro central da capital pernambucana que, na época, concentrava bares descolados, feito o Drugstore Beco do Barato, palco do udigrudi pernambucano da década de 70. Olharam-se com empatia. Andróide conhece andróide. Algum tempo depois, voltaram a se cruzar no sítio histórico de Olinda. Paulinho, como os mais próximos o chamavam, estava com o pessoal do Tamarineira Village, tiravam um som descontraído, Alceu parou para olhar e disse a ele: “Um dia você vai tocar comigo”.

Tinham muito mais em comum do que os cabelos longos. São ambos do agreste de Pernambuco. Alceu é de São Bento do Uma, a 78 km de Caruaru, as informações culturais são as mesmas. Paulo Rafael foi convidado para ser o baixista do grupo que o cantor formou para defender Vou Danado Pra Catende (parceria póstuma com o poeta Ascenso Ferreira), no festival Abertura, promovido pela TV Globo, em 1975. Foram 46 anos ininterruptos de parceria, dividiram palcos, estúdios e emoções mundos afora.

Neste ínterim, Paulo Rafael produziu discos de terceiros, participou de diversos projetos. Sua discografia: Caruá, álbum instrumental feito com Zé da Flauta (produção independente, de 1980), um trio com o tecladista Tovinho e Zé da Flauta, em 1988, que fez shows, mas não lançou disco, estes dois no Recife. No Rio, integrou e gravou com Rútila Máquina (com Márcio Lomiranda e Tonia Schubert), Eletro Fluminas (com Mário Lomiranda e Taryn Szpilman), o Primavera nos Dentes, projeto de releituras do Secos & Molhados (com Charles Gavin, Duda Brack, Pedro Coelho, e Felipe Ventura).

Solo, o guitarrista lançou uma trinca de álbuns, Orange (1988), Vagalume (1993) e Alado (2010). O ciclo musical de Paulo Rafael se fechou com uma coda perfeita. Seu derradeiro trabalho de estúdio foi um disco gravado com Alceu, só os dois, amigos e parceiros de uma vida.
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José Teles é crítico de música e jornalista

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