Azul é a cor mais quente

A batalha pela visibilidade das pautas políticas e estéticas de artistes racializades rouba a cena em SP

Juliana Monachesi

Publicado em: 22/04/2022

Categoria: Crítica, Da Hora, Destaque

As Três Fases da Lua Vermelha (2022), de Gustavo Nazareno

Uma colega das artes escreveu semana retrasada num post sobre a SP-Arte que a experiência caótica da feira não permite maiores elucubrações teóricas. Concordo. Sempre me pergunto, quando vejo um crítico ou curador realizando uma visita guiada em um evento assim, o que será que ele está dizendo? Do que falamos em uma feira de arte enquanto vivenciamos acelerados, quando não siderados, os seus breves 4 ou 5 dias de duração? As visitas guiadas abordam a arte exposta ou se atêm à experiência explícita da feira?

Com duas semanas de “recuo”, tendo tido algum tempo para maiores elucubrações, minha percepção geral sobre a SP-Arte 2022 é que foi, sim, sobre NFTs e sobre a dança das cadeiras (você viu que o artista x está na galeria y agora?), que foi também sobre “arte política” e sobre maior visibilidade às obras de artistas de minorias sociais e/ou obras sobre as respectivas lutas identitárias desses artistes, que foi a edição da retomada da vida “normal” do circuito e da “volta da figuração”. Tudo isso marcou, sim, a 18ª edição da feira paulistana, e por tudo isso ela provavelmente será lembrada. 

Mas arrisco dizer que o principal tema desta SP-Arte foi uma cor. E que o azul é a cor mais quente. Isto mostram as obras de Gustavo Nazareno, Ayrson Heráclito, Larissa de Souza, Brendon Reis, Élle de Bernardini, André Vargas, Allan Pinheiro, Kika Carvalho, Manuel Carneiro, Tiago Sant’Ana, Guilhermina Augusti, Jaider Esbell, Daiara Tukano, André Ricardo, Helô Sanvoy, Aline Bispo, Desali, pedro neves, Luana Vitra, O Bastardo, Andrew Silva, Auá Mendes, Moara Brasil, Jujú, Rubem Valentim, Deborah Paiva, Antônio Pulquério, Felipe Guga, Carmézia Emiliano, Randolpho Lamonier, Laura Villarosa, Zéh Palito, Aretha Sadick, Mauricio Adinolfi, Maria Fernanda Lucena, Adriana Varejão, Leda Catunda, Judy Chicago, Lin Lima, Debora Engel, Marcos Roberto, Agrade Camiz, M0XC4, Nikhil Chopra, JACA, Madalena dos Santos Reinbolt, Penna Prearo, Pedro Varela, AVAF, Adir Sodré, pedro frança, Michael Dean, Mimi Lauter e Claudio Edinger – para citar as que mais chamaram a atenção (e os trabalhos que cheguei a ver, com o perdão pelo que com certeza deixo de fora, devido ao dado “caótico” a que se referiu minha colega).

  • Dia 1: Obras de Gustavo Nazareno
  • Dia 2: Pinturas de pedro neves
  • Final de semana: Fotografias de Ayrson Heráclito

Uma parede azul em três tempos
Começo a descrever o percurso do azul na SP-Arte 2022 por um ponto de luz constante naquele pavilhão onde tudo mudava de lugar de um dia para o outro, o painel pintado de azul no estande da galeria carioca Portas Vilaseca. Na quarta-feira, dia de abertura, um assombro habitava aquela parede: uma pintura a óleo e dois desenhos a carvão assinados pelo artista mineiro Gustavo Nazareno. No dia seguinte, as obras haviam sido substituídas por duas telas avassaladoras do maranhense radicado no Rio de Janeiro pedro neves. E, no final de semana, a parede azul foi tomada por um grupo de fotografias de Ayrson Heráclito. Nem tudo o que a galeria apresentou no painel pintado e destacado do resto do estande era ou continha a “cor mais quente”, mas a parede funcionou ali com um statement sobre a força da arte negra. Atente para algumas obras que permanecem no mesmo lugar no decorrer dos dias: o objeto fotográfico de Deborah Engel, à esquerda, e a escultura de parede de Mano Penalva, à direita. Atente também para obras que surgem e saem de cena ao longo da feira: as pinturas de Kika Carvalho, um políptico felpudo de Élle de Bernardini, três obras que fazem companhia e criam diálogos com a assemblage de Lin Lima, Trabalho de Onda (2022), tudo contendo elementos azuis, da piscina transformada em abismo por Engel à partitura feita de lápis (o próprio objeto lápis, cuja ponta é de grafite, mas o corpo é azul-marinho) por Lima.

A série de fotos de Heráclito, assim como a escultura de Penalva, têm predomínio de tons terrosos e a presença do amarelo, cor que complementa muitas das obras em tons de azul expostas SP-Arte afora. Mas por que tanto azul? Algumas hipóteses me tomam de assalto por meio de duas leituras: primeiro o artigo O Fundamento Azulado de Yusuf Grillo (2021, revista Descolonizarte), da jornalista e curadora Bárbara Alves, depois a carta que abre o livro Águas de Homens Pretos – Imaginário, Cisma e Cotidiano Ancestral em São Paulo, Séculos 19 a 21 (2021, editora Veneta), do historiador e escritor Allan da Rosa. Alves e Rosa me ensinam que o azul vem de águas oceânicas, da espiritualidade dos povos Yorubá e Bakongo, da tradição das artes do continente africano e da arte afrodiaspórica. Reproduzo, a seguir, alguns trechos, com supressão de várias passagens, do ensaio de Alves, publicado no dia seguinte ao 23 de agosto de 2021, data da morte do artista nigeriano Yusuf Grillo:

“O azul é um chamado. (…) Quando me deparei com o trabalho de Grillo, entendi como o azul é poderoso. O artista morreu ontem, em decorrência da Covid-19, e deixa um legado enorme para nós, curadores, artistas e entusiastas do tema. Yusuf é um dos principais nomes do modernismo nigeriano, ao lado de Ben Enwonwu, Aina Onabolu, Akinola Lasekan e Bruce Onobrakpeya. Ao longo das décadas de 1960 e 1970, o artista recebeu reconhecimento da crítica internacional. Deu aulas em universidades por mais de 20 anos e, em 1963, fundou ao lado de outros artistas em ascensão a Sociedade de Artistas Nigerianos. Todos esses fatores são suficientes para entender sua importância, mas, para mim, Yusuf Grillo deixou um legado simbólico sobre as possibilidades representativas com o azul. Não é de hoje que destaco como diversos artistas negros figurativos utilizam essa cor para representar corpos negros e mergulhar em aspectos subjetivos da experiência negra. Temos Kika Carvalho, Brednatella, Juliana dos Santos, Dominic Chambers, Paul Majek, Sola Olulode, Marc Padeu, Angela Chilufya, Moufoli Bello, entre outros. Yusuf é um dos nomes centrais dessa pesquisa sobre o azul.”

Para Bárbara Alves, o azul como chamado diz respeito aos afetos e aos encontros. Em textos da autora sobre a produção de Kika Carvalho ou de Brendon Reis (também conhecido como Brednatella), vemos o azul sendo mobilizado como uma categoria crítica. Na obra de Carvalho, a curadora aponta a conexão com o território de origem da artista, a ilha de Vitória, no Espírito Santo, “onde a imagem do Oceano Atlântico se destaca, pois o lugar é cercado por água em todas as suas extremidades”. O uso do azul cobalto por Kika também “carrega uma carga de significados históricos”, continua Alves, pela relação do azul com o poder na Babilônia, com o divino no imaginário católico e com a prosperidade no Egito Antigo.

Obras de Emanoel Araujo, Ayrson Heráclito, e Rubem Valentim, expostas no estande da galeria Simões de Assis


Mestres inventores da iconografia brasileira
Alguns artistas do modernismo negro, como Abdias Nascimento, Rubem Valentim, Mestre Didi, Madalena dos Santos Reinbolt, Edival Ramosa, Niobe Xandó e Agnaldo Manoel do Santos são presenças imantadas nos quatro cantos do pavilhão da Bienal nessa edição da feira. Não por terem obras expostas (Valentim, Reinbolt e Xandó, sim), mas porque é onipresente na SP-Arte um repertório iconográfico que convoca-os como referência ou inspiração. No estande da Simões de Assis, a feliz aproximação entre obras de Emanoel Araujo, Ayrson Heráclito e Rubem Valentim promovida pela galeria faz desse painel uma espécie de segunda “parede azul” no meu percurso pelo azul no festival. Em princípio, imaginei que Heráclito promovia uma espécie de tributo a Mestre Didi nas delicadas aquarelas da série Juntó (2022), mas os trabalhos lidam com “insígnias e ferramentas relacionadas ao panteão do Candomblé, dialogando com a ideia da conjunção de entidades que preside cada cabeça humana”, aprendo no texto de divulgação. Não deixa de haver aí, imantada, a presença do mestre. 

Chamam a atenção as referências diretas à Rubem Valentim nas obras do artista mineiro Desali, expostas no estande da AM Galeria, e da carioca-ex-paulista Guilhermina Augusti, apresentadas no espaço da Casa Chama. Entre reverência e irreverência, entre comunhão e denúncia, Desali e Augusti mobilizam o repertório imagético do pintor e escultor baiano em uma dupla apropriação: por um lado, “traduzem” as formas geométrico-sincréticas do mestre para suas próprias abordagens formais, por outro, cada um acrescenta camadas de leitura que igualmente estabelecem paralelos com a temática social presente na trajetória de Valentim, mas cada um a seu modo e a partir das próprias pautas estético-políticas.

  • Trabalhos de Desali exibidos pela AM Galeria
  • Detalhe das peças que referenciam Rubem Valentim
  • iPinturas da série Escuro Indizível (2021), de Guilhermina Augusti no estande da Casa Chama

Prossiga pelo percurso azul, a seguir, por meio das obras de mais alguns dos artistas mencionados no início do texto:

Auá Mendes [Nacional Trovoa]

Moara Brasil [Nacional Trovoa]

Jujú [Nacional Trovoa]

Your Memory Is not my Story (2022), de Manuel Carvalho [Galeria Rodrigo Ratton]

Tiago Sant’Ana [Galeria Alban]

André Vargas [Galeria Vermelho]

Brendon Reis [Galeria Inox]

Pedro Varela [Zipper Galeria]

Andrew Silva [Galeria Athena]

O Bastardo [Casa Triângulo]

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