Babylon Brazil

Nova edição da bienal Performa, de Nova York, apresenta mais brasileiros que nunca e reconhece qualidades babilônicas nas obras de Laura Lima, Jonathas de Andrade e Eleonora Fabião

Adrienne Edwards

N° Edição: 26

Publicado em: 28/10/2015

Categoria: A Revista, Reportagem

Da série Galinhas de Gala (2004), de Laura Lima (Foto: Laura Lima)

A bienal Performa 15 (de 1º a 22 de novembro em Nova York) apresenta mais artistas brasileiros que nunca. Fundada em 2004, a Performa é líder em comissionamentos a nomes cujas obras moldaram um novo capítulo no legado de vários séculos de artistas visuais que trabalham com performance ao vivo. As obras especialmente encomendadas aos participantes do Brasil – Jonathas de Andrade, Eleonora Fabião e Laura Lima – oferecem visões intrigantes da história da performance, sua capacidade única de esclarecer complexidades na sociedade, na cultura, na economia e na política, e sua profunda mudança não apenas como arte viva, mas também como um modo multidisciplinar e conceitual de fazer arte no século 21, no Brasil e no âmbito internacional. Nada parecia mais adequado para descrever o alcance e a coincidência de suas propostas artísticas que o termo “Babylon” (Babilônia), por sua capacidade de exprimir uma sensação de luxo, corrupção e sensualidade excessivos, assim como assumir uma sensibilidade revolucionária.

O espírito rebelde está imbuído na versão íntima e pungente de Eleonora Fabião da longa história de artistas brasileiros que usam espaços públicos para suas apresentações, como Hélio Oiticica, Lygia Pape, Artur Barrio e Ronald Duarte, para citar apenas alguns. É claro que Oiticica fez Babylonests, espaços de lazer não repressivos, enquanto vivia no East Village, em Nova York, nos anos 1970, e a notável influência da escola de samba Mangueira sobre sua obra é bem conhecida, transformando radicalmente sua relação com a arte, suas instituições e a sociedade, como vemos em seus Parangolés (1964-1979). De modo coincidente, a comunidade da Mangueira de onde vem a famosa escola de samba, situada nos morros do Rio de Janeiro, com vista para suas famosas praias, é vizinha à Babilônia, local onde foi feito o filme Orfeu Negro (1959), que, por bem ou por mal, imprimiu de maneira indelével nas mentes do mundo todo um senso da mística brasileira.

Rainbow 2 By Jaime Acioli

Performance da série Things That Must Be Done, de Eleonora Fabião, será exibida em Wall Street (Foto: Jaime Acioli)

É aí que Fabião cria arte – nas ruas do Rio de Janeiro, até agora, ela o fez sozinha ou com outra pessoa. Para a Performa 15, Fabião faz performances experimentais de grupo na série Things That Must Be Done (Coisas Que Têm de Ser Feitas). Durante cinco dias, o coletivo, formado por um grupo de participantes de várias gerações, entre 20 e 60 anos, realiza ações em Wall Street e em seu entorno, manipulando varas de bambu de 3,5 metros e campos coloridos modificados a cada dia, para explorar a relação entre geometria, potencial político e abstração por meio de montagens radicalmente precárias. As performances são “acupuntura urbana”, meditações sobre verticalidade, possibilidade, instabilidade e vulnerabilidade nas sociedades capitalistas, expondo abertamente as tensões entre lucro e gratuidade, eficiência e experimentação e orientação de capital e imaginação política.

Como campo de encenação para encontros coletivos, a paisagem urbana exerce um importante papel para a cultura e a política no Brasil, evidente nos recentes protestos contra a corrupção do governo em 2015 e a Copa do Mundo em 2014, por um lado, e em comemorações festivas como o Carnaval e várias procissões religiosas, por outro. A rua é o local onde as polaridades sociais, econômicas e políticas têm o potencial de se dissipar, e onde a arte se torna um modo de desejar e a base para realizar novas possibilidades. As apresentações de Fabião, assim como os recentes protestos na arena pública, trazem à mente as características e as condições pelas quais surgiu o próprio samba. A dança e a música nacional, essencialmente uma forma da África Ocidental com influências brasileiras e indígenas, personificam a histórica luta da vida nas plantações. É uma forma de resistência. Portanto, os significados mais profundos do samba estão na história desses locais, as primeiras manifestações das economias capitalistas globais.

Brasil Rural
Jonathas de Andrade usa a autoetnografia, garimpando condições estéticas, sociais, políticas e históricas, símbolos e significados do Nordeste do Brasil, onde ele cresceu, para criar novos sistemas de significados conceituais e materiais em sua arte. Seu processo criativo usa a performance como meio para desenvolver uma relação com outros indivíduos, que às vezes é fictícia, sempre ambígua e necessariamente comprometida. Enquanto isso, ele aponta para questões maiores sobre percepção e relação, estruturas da cultura e da sociedade brasileiras e as maneiras como elas foram construídas popularmente. Com frequência animando o discurso antropológico, Andrade instiga os participantes a se envolverem na feitura de sua arte, apresentando-os em formas abstratas e cenas alteradas no contexto de seu trabalho e suas comunidades. Ele investiga questões universais como o amor, o desejo e a modernidade por meio da especificidade radical das vidas individuais e da cultura local.

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Da série Exercício Construtivo para uma Guerrilha Sem Terra (2015), de Jonathas de Andrade (Foto: Jonathas de Andrade)

Desejando salientar o papel profundo e fundamental da performance em sua arte, para sua primeira atuação ao vivo Andrade reimagina o relatório de 1952 da Unesco encomendado por antropólogos da Universidade Columbia, intitulado Raça e Classe no Brasil Rural, no contexto local da cidade de Nova York, criando um experimento etnográfico em que o público participa como espectador e como sujeito. Entremeando dados qualitativos e quantitativos do público de encontros casuais e em um “estúdio fotográfico”, a performance como modo de fazer arte é explodida, levantando questões sobre como as construções sociais subsistem em nossa vida cotidiana.

Conceitualismo Luxuriante
Laura Lima, no entanto, descarta “performance” como termo para descrever sua obra, revelando uma crença na capacidade das “coisas”, sejam ideologias, objetos, animais ou humanos, para atuar no mundo em seus próprios termos. Essa predileção empresta ao seu trabalho um validade especial que descrevo como conceitualismo luxuriante, formalmente implausível, sensualmente lúdico, materialmente vívido e filosoficamente rigoroso. Para a Performa 15, Laura combina duas obras anteriores: Galinhas de Gala (2004-2011) e Baile (2003-2004) em uma série de eventos e encontros semiorquestrados. As obras reimaginadas revelam preparativos que levam ao evento culminante, como arranjos decorativos e florais, serviço de bufê e fantasias, e o final em si acontece em colaboração com participantes convidados e improvisados, que fazem parte integral da peça. Galinhas ornamentais, adornadas com plumas de Carnaval especialmente preparadas em um leque de cores surpreendente e abrigadas em uma instalação escultural, são coautoras e instigadoras do Baile. Em Nova York, Laura Lima estrutura uma obra em que o tempo é ilimitado, revelando as muitas qualidades espetaculares subjacentes à vida cotidiana, e tudo o que é considerado garantido é suspenso, livre para ser experimentado e expressado com base no desejo dos participantes (humanos ou não) e sem os limites de uma agenda fixa ou um resultado previsto.

A matéria voluptuosa e intelectual de Laura Lima, o complexo método de pesquisa de Jonathas de Andrade e a personificação eloquente da abstração de Eleonora Fabião revelam individualmente suas qualidades babilônicas de diversas maneiras, esclarecendo a experimentação profunda e radical na arte multidisciplinar do Brasil de hoje.

*Publicado originalmente na #select26

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