Banquete moderno

Exposição investiga em que medida a atitude transgressora da mulher carioca determina as bases do modernismo brasileiro

Paula Alzugaray

N° Edição: 25

Publicado em: 26/08/2015

Categoria: A Revista, Review

Da série Fotopoemação, Por Um Fio (1976), de Anna Maria Maiolino, em que a artista (centro) faz fotoperformance com sua mãe e filha (Foto: Regina Vater/MAR)

Duas paulistas e duas mineiras têm papel central em Tarsila e Mulheres Modernas no Rio, que investiga o comportamento transgressor das mulheres que vivem no Rio, desde o século 19 até o início dos anos 2000: Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Zina Aita e Maria Martins.

Em textos dispostos no espaço expositivo, os curadores Paulo Herkenhoff, Hecilda Fadel e Marcelo Campos argumentam que a Semana de Arte de 22 acontece em São Paulo, mas é no Rio que duas de suas principais expoentes, Anita e Zina, de fato se consagram. Ainda de acordo com a curadoria, a paulista Tarsila – destaque no título da mostra – visita o Rio em 1924 e começa a representar o Brasil nas pinturas que realiza sobre o Carnaval e o Morro da Favela.

Já a mineira Maria Martins, “a artista mais radical da modernidade brasileira ao lado de Flávio de Carvalho”, ganha um segmento só para suas esculturas, espelhado ao espaço dedicado à obra literária de Clarice Lispector. Colocadas frente a frente, em franco diálogo, as obras dessas duas grandes artistas ganham uma dimensão relacional imprevista. Quando escreve que a mulher é o mais ininteligível dos seres vivos, Clarice parece responder às figuras mitológicas de Martins. Os textos de Clarice também se alongam e alcançam o corpo da obra de Anna Maria Maiolino (italiana radicada em SP), que está representada pela fotografia Por um Fio (1976). A imagem em que a artista se conecta com duas mulheres – possivelmente sua mãe e sua filha – por um fio que atravessa suas bocas, se relaciona com a frase de Clarice: “Tenho um corpo e tudo que eu faço é a continuação de meu começo. Mãe é doida. Tão doida que dela nasceram filhos”.

Assim a exposição vai se compondo de duetos imprevistos. As obras relacionam-se em atos de devoração mútua e canibalismos, oferecendo-se como um grande banquete, do qual participam mulheres célebres e anônimas de todos os campos da cultura e sociedade.

Tarsila e Mulheres Modernas
até 20/9, Museu de Arte do Rio, Praça Mauá, 5, Centro, Rio de Janeiro

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